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“Saudade Para Um Tempo Longe”.

Saudade, é só o que fica. Umas vezes violenta. Outras, como agora, mais serena.

Presença Para Um Tempo Perto, contraponho. E é a presença que procuro agora. Chega de ausência. Chega de saudade.

Presença, a mesma da luz. A que acompanha. Que está perto. Que está cá.

Procuro “Um Tempo Perto”. Não mais “Um Tempo Longe”.

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Entrar mais cedo, sair mais cedo. Pode meia hora ser uma hora de diferença? Pode.

Aproveitar o tempo para mim. Aproveitar o tempo, ponto. Recuperar algum tempo por aí.

Preciso voltar a escrever em papel……

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“Tens que começar a sair. E a reforçar a tua rede.”

E hoje saí e reforcei. Tenho que fazer isto mais vezes.

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Às vezes gosto, muito, de ser como sou. Mesmo que não me encaixe. Ou especialmente por isso.

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Primeiro, os factores de protecção. Só depois os factores de risco e as memórias que magoam.

Ainda há muito trabalho pela frente.

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Às vezes gostava de ser de crenças. De fé, se assim lhe quiserem chamar. De poder atribuir a uma vontade superior tudo o que acontece. Mas, acima de tudo, sentir aquela espécie de segurança, aconchego?, de que tudo vai correr bem simplesmente porque alguém sabe-se lá onde assim o quer. Mesmo que tudo à volta se desmorone.

Às vezes gostava de sentir essa segurança, mesmo sabendo que maioritariamente só depende de mim. E é só comigo que posso, devo?, contar para seguir o meu caminho. Porque, por muito que me digam para não ter medo e que vão estar sempre por perto, a verdade é que só eu estarei sempre presente para mim mesma.

Às vezes gostava apenas de não ter medo.

Às vezes gostava apenas de ser diferente.

Às vezes gostava apenas de ser melhor.

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Não sabia ser possível ter saudades da última pessoa que se quer ver à frente.

Até hoje.

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…onde estás…?

“Nada vai mudar. Nada precisa de mudar.”

…onde estás…?

“O Sol continua a nascer e a pôr-se todos os dias.”

……………onde estás……?

“Funny how you’re the broken one but I’m the one who needed saving…”

…não estás…claro que não estás. Porque estarias?

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As folhas de Outono não caem aos pares.

Nem tu.

Sozinhas caem, sozinhas ficam.

Tal como tu.

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“Estás tão bem que hoje não quero desestruturar-te nem desestabilizar.”

ou

“Estou a gostar tanto de a ver, está tão bem!”

Assim como o que se vê de fora muitas vezes não passa de ilusão, também para me desestruturar basto eu e os meus medos de tudo.

Terminaram as 2 horas dos sábados de manhã que se repetiam desde Fevereiro. 245 dias depois. 35 sábados em que só 2 não aconteceram. Ou foi só 1? Já não sei. Apenas sei que não estava preparada. De repente sinto-me novamente sem pé, esquecendo-me por momentos que antes das 2 horas dos sábados de manhã já existia 1 hora durante a semana que vai continuar a acontecer. Não, ainda não é tempo de visitas quinzenais. Não. Não é tempo, ainda. Porque é cedo. Ainda há tanta coisa a ter que ser trabalhada.

…o medo…o frio no estômago, a falta de ar, aquele que não entra, a vertigem. Não. Ainda é cedo para voltar a arriscar a caminhar sozinha.

A ansiedade que voltou assim, de repente. Desequilíbrio. Desestruturação. E o medo. Da perda. Novamente a perda.

Tudo aquilo que escolhemos traz consequências. E eu escolhi. Mal ou bem, escolhi. E ainda estou a aprender a lidar com as consequências. Ainda é cedo. Por favor…

Não vou dar um passo atrás. Não posso. Não quero desestabilizar, não agora que me sinto mais tranquila, mais serena, quase segura. Mas tremo. E a estrutura que fui construindo nas últimas semanas treme também.

“Não vou desestruturar-te” e “está tão bem” e em menos de nada o ar não entra e eu recuo. Regrido. E nada disto faz sentido assim. Eu sei, eu sei que os sábados um dia iriam acabar. E que qualquer dia as sessões passam a ser quinzenais e um dia terminam. Mas não agora. Não ainda. Não já.

Não estou preparada… E o medo instala-se sem pré-aviso. E de novo sinto-me prestes a afogar e questiono quem fala, se eu ou se aquilo que sou, Borderline? “És tu, não sendo” e essa resposta podia ser minha!

Não tenho a minha rede… Não ainda. Não posso, não sei!, caminhar novamente sozinha. E, de repente, os fins de semana voltaram a ser de um tamanho interminável e ainda nem sequer lá cheguei.

Todas as escolhas que fazemos nos condicionam. E, mesmo não querendo, tenho que escolher agora, como escolhi antes, qual o caminho a seguir.

…e eu sempre escolhi tão mal…

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Das cores. Violeta e verde. Cura e esperança.

Tenho-me esquecido. Não posso continuar a esquecer-me.

Violeta e verde.

Cura.

Esperança.

No fundo, a mesma coisa. Para mim.

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Brincar com cores. Num feriado com sabor a domingo que soube a pouco que soube bem.

Estou cansada de me sentir sempre cansada. Muito provavelmente devido à medicação que me deixa com sono o dia todo e me faz ir para a cama a horas ridículas. Medicação que, neste momento, já não me faz sentido. Que apenas me condiciona os horários e a minha capacidade de estar disponível para mais do que o horário de trabalho.

Vou brincando com cores apesar do sono constante num feriado de descanso, filmes no sofá e uma breve sesta depois de almoço. Brinco com cores porque estou cansada do preto e branco e, até, do cinzento que também é cor.

Há quanto tempo deixei de me focar nas cores…? Se só hoje dei pela falta do amarelo das flores do caminho para casa……

Fazem-me falta. As flores e as cores. E é também aí que a medicação me condiciona. E é também por isso que cada vez me custa mais mantê-la.

Preciso de me focar novamente. Nas cores mas, acima de tudo, em mim também. Nas minhas cores que vão além do cinza escuro, do preto e branco. E do cor de rosa que se escondeu não sei onde nem sei porquê.

Vou brincando com as cores. Talvez assim volte a reencontrar-me por aí, mesmo que sob o efeito da medicação que não quero manter.

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Sou tão mais do que apenas isto. Seja lá isto o que for.

E, às vezes, apetece-me saber de ti. Mesmo que não mereças sequer que me lembre que existes.

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Hospital de Santa Maria. Desde há três anos que não é fácil lá voltar. Como hoje, outra vez. Porque quando lá vou há sempre um nome que me acompanha, que não me sai da cabeça. E é também ali que percebo que esse nome faz mexer cá dentro aquilo que tento dizer a mim mesma que já não sinto: raiva. Muita, ainda. Ao ponto de, quem me acompanha de fora semanalmente, perceber melhor do que eu mesma o que ainda vai cá dentro e me aconselhar desportos de combate, artes marciais, para aprender a gerir e a soltar de forma controlada essa raiva que vai crescendo em silêncio contra esse nome que não me larga e que me grita a sua ausência.

Não é um sentimento bonito. E não, não sei gerir o que sinto e não sei soltar de forma controlada o que trago cá dentro. Talvez por isso prefira dedicar-me a outras artes. Que não descarregam a raiva mas ocupam as mãos. E, mais importante, ocupam as ideias.

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Estar do lado de cá também é ter dúvidas, ter certezas, estar perdida, estar algures, ser assim, querer ser melhor.

É a minha Lua que está lá sempre e agora em crescendo. É o Sol de Outono em temperatura de Verão. É o mar que não vejo e está aqui tão perto. É o rio que atravesso duas vezes por dia.

É sair de casa de manhã e querer não sair. É voltar ao fim do dia e querer sim ficar. É o ter que, ter que, ter que. Mesmo que, por vezes, simplesmente não o queira fazer e por isso procuro uma fuga para não o fazer.

Estar do lado de cá, no fundo, não é muito diferente de estar do lado de lá da Borderline. Apenas não é tão escuro nem tão pesado nem tão dorido nem tão violento nem tão sozinho nem tão barulhento nem tão, nem tão, nem tão, nem tão.

Estar do lá de cá continua a ser um dia atrás do outro atrás do um porque também do lado de cá é preciso continuar todos os dias, mesmo que sem um rumo definido.

E sim, do lado de cá da zona limítrofe às vezes também apetece chorar baixinho quando à noite as luzes se apagam e o silêncio preenche todos os espaços que se queriam preenchidos de palavras de forma e conteúdo, de gestos e de toques. Como agora.

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Aproveitar os dias do lado de cá do limite, da Borderline. Aqueles dias em que mesmo que nada se passe são dias bons por não se passar nada.

Não vou desperdiçar estes dias. Nem vou deixar que me tirem esta estabilidade que vou conseguindo a custo. Mesmo que me digam que há determinadas coisas que seria importante fazer. Não quero. Não as quero fazer nem quero perder o que conquisto todos os dias.

Sei que voltarei a passar para o lado de lá. Faz parte. Mas enquanto não passo vou segurando o que vou ganhando a cada dia: um pouco de estabilidade. Ou, até, normalidade.

É bom estar do lado de cá. É assustador estar do lado de lá.

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Podem ser só distorções. Projecções. Transferências. O que lhe quiserem chamar. Mas há dias em que não é tão fácil lidar com isto.

Presença. Partilha. Toque. Cheiro. Tudo isto presente sendo ausente.

Saber respirar fundo e conhecer limites. Quando, ao mesmo tempo, fujo e rio nervosa.

Distorções.

Projecções.

Transferências.

Cada vez mais perita nisso. E a ser, como sempre, adolescente. É nisto que resultam os dias de sol, sem nuvens. E é por isso que desenho um chapéu de chuva num dia de sol. Estou cansada de esfolar os joelhos. Preciso de capacete, cotoveleiras e joelheiras em formato de chapéu de chuva. Especialmente nos dias de sol.

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Desgaste. Cansaço. Dores. Físicas, não emocionais.

Também tenho dias assim. Do lado de cá da zona limítrofe. Ou Borderline.

Porque, apesar de tudo, também tenho dias normais de pessoas normais com rotinas normais e que chegam a ser quase aborrecidos por serem tão normais.

Mas também é bom. Com excepção, claro, das dores.

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Circuitos eléctricos. Disjuntores. Analogias, nada mais.

Cansada, muito.

E todo um resto que não se explica. Sente-se.