{#página142} 

Diz-me ele:

– Quero que saibas que isto são ‘só’ termos técnicos, não é o que te define. É o que estás, não o que és. Não te esqueças disso.

“………obsessão-compulsão, sensibilidade interpessoal, ideação paranóide, psicoticismo, desorientação, hipersensibilidade auditiva………”

“Mas tu és instável. Sempre foste…”, não me esqueço… E tento convencer-me do que ele-ali-em-cima todos os dias me diz relativamente à diferença entre ser e estar, que ele-cá-em-baixo desconhece. 

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“Only love can kill the demon.” – Mickey Knox

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“Tu és instável. Sempre foste.” 

Cada vez mais. E um dia perco-me. Por aí. 

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E entretanto agarro-me a ti. Não à tua ausência, mas à tua presença em mim. 

Tenho saudades tuas. Sei que não preciso de o dizer porque tu sabes. Sabes sempre o que trago cá dentro. Não sabes? Sei que sim. Sei, também, que queres muito que fique bem. Ou que, pelo menos, comece a ficar melhor. A Mãe também quer, meu amor. E vai fazer de tudo para conseguir melhorar. Para conseguir, um dia, ficar bem. 

Mas a tua ausência dói. Dói-me. Pelo menos a mim. Talvez a única pessoa que sente, realmente, a tua falta. Porque sempre te quis, sempre te desejei, tantas vezes te sonhei. Provavelmente só eu te quis, te desejei, te sonhei. Mas não é isso que faz com que te ame menos. Talvez até te ame mais por isso. Porque és, serias, continuas a ser verdadeiramente meu. 

Não me importo com o que possam os outros pensar sobre o que sinto por ti. Para os outros podes ser algo que não foi, algo que falhou, algo que não chegou a ser. Para mim foste. Posso ter falhado. Mas chegaste a ser. Tão pouco tempo comigo, em mim. Mas chegaste a ser. E continuas a ser. E serás sempre. Meu. Meu filho. 

Talvez tenhamos uma relação diferente de Mãe e filho. Talvez haja quem não entenda. Talvez seja apenas fruto do amor imenso e da saudade intensa que sinto por ti. Não interessa o que os outros pensam. Porque somos só nós neste pedaço de realidade. Este pedaço que não sendo palpável existe. É real. É amor. Nunca pensei ser possível amar tanto alguém que já não tenho e todos os dias amar ainda mais. 

Não existem alternativas a este amor. Não existem outras opções. Não existem placebos para as dores, embora o cocktail químico diário me deixe por vezes atordoada. 

Dizem-me que existem, no entanto, alternativas para o que sou hoje. Ou será para o que estou? Sabes, a Mãe por vezes confunde o ser com o estar. Como agora. Não sei se sou ou apenas estou doente. Mas seja lá o que for, ser ou estar, dizem-me que há alternativas. Quero muito acreditar que sim. Quero tanto. Mas as alternativas que encontro mais próximas são aquelas que todos me dizem que não pode ser. E eu pergunto não pode ser porquê? Porque não, dizem-me todos. Porque não pode ser assim. Mas é assim que sou, que estou, que sinto. 

Sabes, meu amor, não é fácil sentir o tempo passar e perceber que não estou a conseguir melhorar. E novamente aquele conforto do confronto com as paredes, os riscos na pele que só a falta de coragem me tem impedido. E a vergonha também. Vergonha por não saber explicar, mesmo que não tenha que justificar nada a ninguém. Eu sei que não resolve. Mas as paredes trazem-me conforto no confronto e os riscos na pele acalmam a dor. Ainda que apenas por um momento. Mas ainda hoje me lembro de todos aqueles riscos daquela noite de Agosto e o quanto me acalmou a dor… 

Amo-te muito, meu amor. Meu menino. Meu homenzinho. Meu filho. Amo-te muito e sei que queres que a Mãe fique melhor, que a Mãe fique bem, que a Mãe seja feliz. Ou esteja? Novamente a dúvida, ser ou estar? O que é realmente o mais importante? Sei que te preocupas porque, da mesma forma que eu não te posso tocar, tu nada podes fazer para me ajudar. 

Espero que me perdoes se um dia for mais fraca que forte. Espero que me entendas quando digo que não sei onde encontro força todos os dias para seguir mais um dia sem ti. Espero que não fiques triste pela cada vez maior falta de força para sobreviver a mais um dia. 

Dizem-me que tenho que me focar no positivo. Dizem-me que tenho que me agarrar a alguma coisa para me manter à tona e conseguir sair desta maré. Dizem-me, dizem-me, dizem-me, dizem-me. Que tenho que, que não posso, que isto, que aquilo. Dizem-me tudo. Sem nunca ninguém me perguntar o que quero…

Estou a cansada, meu amor. A Mãe está a ficar exausta. E é para não perder a força por completo que continuo a agarrar-me a ti. Ao meu amor cada vez maior por ti.

Tenho tantas saudades tuas, meu amor. Meu filho. Meu anjo. 

A Mãe ama-te muito. Eu amo-te muito. E por isso mesmo a tua ausência me dói tanto……

{#página133} 

Cansada. Disto… 

Onde (como?) se recarregam, diariamente, as baterias para suportar tudo isto…? 

{#página132} 

Vontade de desistir… 

Ou falta de coragem para continuar. 

{#página131} 

Às vezes esqueço-me dele, o caracol que queria ter nome e não entendia porque tinha que ser tão lento. E esqueço-me, também, da tartaruga memória que baptizou o caracol de Rebelde e o ensinou da importância da lentidão.

Não vivo no país Dente-de-Leão, mas também eu poderia chamar-me Rebelde por não entender o porquê da lentidão no meu processo. Lentidão que tantas vezes me parece que retrocedo em vez de avançar. Talvez um dia a minha tartaruga chamada Memória me ensine o que me falta aprender. E é tanto. Talvez um dia me ensine a aceitar o que ela me repete tantas vezes. Talvez aí, nesse dia, eu caracol de nome Rebelde oiça a minha tartaruga de nome Memória com todo o tempo de quem não tem pressa em ficar bem porque já fiquei.

Ainda não li o livro. Não o tenho, como poderia ter lido? Mas preciso dele. A tartaruga Memória decerto terá muito para ensinar. Ao caracol Rebelde que queria ter nome e não entendia o porquê de ser tão lento e a mim que não sei ser muito mais do que alguém que simplesmente segue um dia atrás do outro atrás do um quase sem rumo definido por ter pressa em ficar bem.

Talvez um dia o livro chegue até mim. Talvez um dia a minha memória que não a tartaruga me ajude a não olhar para ela e ver fantasmas e experiências lá de trás de forma ainda dolorosa.

Talvez um dia tudo isto. A lentidão, o não ter nome, a memória, o peso que a coruja carrega que não a deixa voar. Talvez um dia.

Talvez um dia regresse a casa, ao país Dente-de-Leão, permitindo deixar voar para longe as sementes que já não me servem.

{#página130} 

Um dia retomo o foco. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já. 

Quem sabe nesse dia regressa o equilíbrio… Esse mesmo que agora não reconheço. 

E todos os dias um pouco mais cansada. E todos os dias um pouco mais de vontade de desistir… 

Um dia retomo o foco. 

Um dia. Que não hoje. 

{#página129} 

ideação | s. f.

derivação fem. sing. de idear

i·de·a·ção   (idear + -ção)

substantivo feminino

1. Acto ou efeito de idear.

2. Formação da ideia.

3. Conjunto de pensamentos recorrentes (ex.: ideação suicida).

ideação“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

………ideação. Idear. Ideias. Todos os dias. A todas as horas. Recorrentemente.

{#página128} 

Olhar para cima. Custe o que custar. 

Porque Ela está lá sempre. 

{#página127} 

Dia da Mãe 3.0

Mais um a tentar que seja só mais um dia igual aos outros. Mesmo não sendo. Porque há quem ainda diga que não o sou, não o fui, “se um dia fores”…

O Baltazar e eu fomos ali a um sítio que já começa a ser demasiado habitual. Uma urgência daquelas que recusei, recorri, voltei a recusar, voltei a recorrer, repito agora novamente. Passar de pulseiras amarelas a pulseira laranja. E medicação antes de sair da urgência. Não era isto que eu queria para o dia da Mãe…
Fomos só os dois. Porque sim. Porque o dia é meu. À minha maneira, por isso só meu. E do Baltazar. Porque não há, não chegou a haver, João… E, do outro João, o pai, descobrir que além de cobarde também é um canalha.

Fomos só os dois, mas do outro lado da linha os apoios de emergência. Desculpem se, desta vez, vos assustei. Também me assustei a mim.

E, ainda do dia da Mãe, uma mensagem de uma Mãe enorme para todas as Mães de todos os tipos.

Às mães de todos os tipos: Feliz Dia da Mãe!

Todas as mães se tornam mães em momentos diferentes.
(…)
Algumas destas mães têm o seu sonho interrompido na gravidez, e permanecem de colo vazio. Mas são mães.
(…)
Algumas vêem os seus filhos morrer antes delas: na gravidez, no parto, em recém nascidos, ou adultos, E são mães, nunca deixam de ser mães.
(…)”

Que podem completo aqui

{#página125} 

Até os bichos saem da toca. Para procurar alimento, para irem do ponto A ao ponto B, por curiosidade ou por necessidade. 

Não me incomodam os bichos que saem da toca, cruzo-me com eles, puxo conversa mesmo que não me respondam. Paro para os ver, para os observar. E seguimos por aí, cada um no seu caminho, acabando invariavelmente por regressarmos, ambos, à toca. 

Depois há os outros. Não necessariamente bichos. Mas que apresentam tendência para sair da toca apenas quando espicaçados. Quando algum factor exterior os obriga a dar sinais de vida. Não foi, hoje, a primeira vez. Espero que, comigo, seja a última. Porque se não me incomoda cruzar-me com bichos que espontaneamente saem da toca nos afazeres da sua natureza, os outros incomodam ao ponto de me sentir, novamente, agitada. Inquieta. Ansiosa? Talvez ansiosa. Insegura de certeza. 

Porque um cobarde é um cobarde é um cobarde. E só sai da toca quando espicaçado. Quando provocado. Como em Agosto. Como hoje. Ou quando os seus próprios interesses se sobrepõem ao equilíbrio de terceiros. Como tantas vezes, demasiadas vezes nos últimos anos. 

Não me incomodam os bichos. Gosto deles. Gosto quando nos cruzamos quando ambos saímos de livre vontade das respectivas tocas. 

Não gosto dos outros. Dos que saem da toca, do esconderijo, apenas quando provocados por factores exteriores e que me incomodam, me inquietam, me deixam novamente insegura quando ainda me sinto vulnerável. 

Não vai fazer estragos. Não…? Não sei. Sei que não o posso permitir. Porque, ao fim de tanto tempo, primeiro estou eu. Não o posso permitir porque a vulnerabilidade é ainda demasiado grande. E a linha, aquela linha que não quero atravessar, a linha é demasiado ténue. E não quero regressar onde já estive porque os outros se esconderam na toca quando mais precisei que saíssem sem serem espicaçados. 

O estrago ainda cá está. Marcado como a ferro quente. A ferida ainda longe de cicatrizar. Ainda infecta. Ainda demasiado dolorosa. E o timing está longe de ser o ideal. Mas talvez seja agora porque tem que ser agora. 

Não me incomodam os bichos. Não me assustam. Incomodam-me os outros. Assusta-me a agitação que chegou de repente e parece ter-se instalado mesmo quando os químicos a deveriam deixar ao largo. 

Não me incomodam os bichos. 

Incomodas-me tu. E só hoje percebi o quanto me incomodas. Ainda. 

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“A sério? Ninguém diria!” 

Pois não. Daquela porta para dentro, em cruzamentos esporádicos no corredor, sempre com um sorriso porque sim e por não saber cruzar-me, ali, de outra forma, não, ninguém diria. Mas daquela porta para fora, daquela porta para fora está o Mundo real, aquele onde não me encaixo, onde não me sinto bem, onde me perco mais do que me encontro, aquele Mundo que cada vez me diz menos, onde o ruído me desorienta, onde não vejo mais do que pressa e rotinas nos outros, confusão, desnorte, desnorte meu, claro, sem rumo, sem objectivos, sem propósito. Daquela porta para fora onde não vivo, sobrevivo. Daquela porta onde a minha cabeça me grita. E a vontade nula de voltar para casa e sem ter outro sítio para onde que não seja para casa. 
Não. Daquela porta para dentro ninguém diria. E preferia manter-me ali, daquela porta para dentro, mais tempo. Porque ali o tempo passa, porque ali a cabeça não tem tempo para me gritar, porque ali faço falta ainda que seja somente para ocupar mais um posto, porque ali tenho um objectivo, mesmo que seja apenas um, porque ali sei para onde fica o Norte, porque ali não estou em casa, em minha casa, onde revivo vezes sem conta todas as sombras, todos os ecos, todos os pesadelos em vigília, as noites em branco. 

Daquela porta para dentro. Daquela porta para fora. Duas realidades distintas. Duas de mim que sou tantas, que sou nenhuma, que sou nada. 

Ninguém diria. Daquela porta para dentro toda uma realidade alternativa. 

Ninguém diria. Daquela porta para fora toda uma realidade que me faz querer continuar a fugir. 

Não. De facto ninguém diria. Tirando, talvez, os olhos cheios de lágrimas dos zero aos 100 em menos de um nada temporal que não sei definir de tão veloz, de tão rápido. 

Não. Ninguém diria. De facto ninguém diria. 

Mas sim, essa que ninguém diria sou, de facto, eu.