{#página267}

Já me tinha esquecido de como era ter um gato bebé em casa.

E é bom.

{#página266}

Depressão vs Perturbação de Personalidade Borderline. Descobrir as diferenças…

Saber que não estou sozinha. Que não sou a única. Que somos muitos. E que somos, também, mais fortes do que tantos em tantas vezes nos julgam.

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Deixar ir. Aprender a.

Parece simples quando percebemos que já aconteceu. Quando, de repente, percebemos que já foi. O mais difícil é o caminho até lá.

Como é que se deixa ir algo? Mesmo que, ou especialmente porque, deixa sempre sementes por aí de algo que nunca sabemos à partida o quê.

Deixar ir. Aprender a. Quando, na verdade, deixar ir é quase automático, é como se houvesse um click, é completamente independente do nosso esforço.

Deixar ir. Aprender a. E tenho tanto que preciso soltar e simplesmente deixar ir. Sem saber como fazê-lo.

{segredo}

Sabes qual é o segredo? É seres igual a ti própria, com todas as características que fazem de ti quem tu és. Não importa o que és mas sim quem és. E és tu, assim, sem mais,sem menos do tu simples tu.

O que é um rótulo se não uma etiqueta que aponta apenas partes do todo? És tão mais do que isso.

Lembra-te sempre: és tu tal como és. Há os que gostam e os que não gostam. Mas os que não gostam não fazem falta e tu sabes deixá-los ir. Sobram os que gostam.

E porque é que gostam? Porque tu és tu. Não serias tu se fosses outra. E não seria por ti que os que gostam ficam.

Não te esqueças. O segredo é seres tu.

No fundo, o segredo és tu. Só tu. Sem mais. Sem menos.

Só tu.

{#página264}

Dizer adeus ao Verão. Amanhã, dia de Equinócio, o equilíbrio entre a Luz e a Escuridão.

Equilíbrio que vou tendo de tempos a tempos. Mesmo não estando preparada para o Outono.

Vai correr bem.

Vai.

{#página263}

Dos pequenos grandes passos: ela. 9 meses e 12 dias depois.

Vai correr tudo bem. Só posso confiar que sim. E vai, também, fazer-me bem.

Vai.

{#página262}

Demasiado cansada dos últimos dias. Semanas?

De volta às noites mal dormidas. Demasiadas questões na minha cabeça e a 5ª feira que tarda em chegar.

Não é possível parar. Vou respirando por aí, um pé depois do outro, um dia atrás do um.

{#página261}

Parar. Não é possível. Não é possível porque é mesmo assim. Como eu, também sou mesmo assim. Gostava de ser menos assim, agora que olho para trás.

E é a olhar para trás que questiono. Questiono tudo. Tudo o que senti até hoje. Tudo sempre sentido intensamente. “Tu sentes demasiado”, já o ouvi. Será? Será que sinto realmente? Muito ou pouco, não interessa. Será que sinto sequer ou é o meu cérebro, aquele que tem cicatrizes, que me faz acreditar que sinto realmente alguma coisa?

Questiono se, quando me doeu muito, me doeu realmente assim tanto ou se foi o meu cérebro que não soube processar e dosear? E questiono, também, se alguma vez amei. Ou se foi o meu cérebro que me iludiu ao não saber dosear o que absorvia e me fez acreditar que tinha borboletas na barriga e que era amor o que sentia.

Questiono. Hoje questiono tudo. Depois do diagnóstico questiono tudo, se tudo o que senti e vivi não foi apenas uma ilusão, uma distorção de um cérebro profundamente marcado por demasiadas experiências dolorosas. Questiono tudo aquilo que sempre achei que senti e que sempre soube ser de forma diferente dos outros.

E se não passou tudo de uma distorção…? A distorção já faz parte de mim. Porque não também distorcer o que sempre senti…?

Queria poder parar. Para perceber tudo isto que entendo mas não me entendo. E não quero ser só o resultado de traumas, más experiências. Mas não é possível parar porque é mesmo assim. Como eu, que também sou mesmo assim.

Então tento ficar quieta e sossegada no meu canto, tento assimilar, encaixar e digerir e convencer-me que sou mais que um diagnóstico.

Mas não sou. Sou Borderline. E por ser Borderline tudo o que vivi não passou de uma forma desajustada de sentir…… Desajustada e distorcida e, portanto, irreal, falsa.

Não é possível parar. Por isso fico quieta o pouco tempo que posso. E tento não me derrotar quando a única vontade é chorar. Sem saber muito bem porque motivo.

{#página260}

“Tu és instável. Sempre foste.”

Sim. Sempre fui. Sempre senti intensamente, o bom e o mau. Sei agora que, entre outras coisas, tudo isso tem um nome: Borderline.

Ainda estou a digerir para aceitar. E vou repetindo: Borderline.

Mas já decidi: não sei quando, muito menos sei como, mas vou ser melhor que isto. Vou ser muito mais do que uma perturbação de personalidade, muito mais do que um cérebro carregado de cicatrizes traumáticas, muito mais do que um rótulo. Custe o que custar, vou ser mais e melhor do que isto.

Só não sei, ainda, como.

{#página259}

“Aproveita o fim de semana para saíres, ires a algum lado, estar com pessoas.”

Ou, por outras palavras, não fiques em casa a pensar no assunto. Como se não pensar fosse simples como carregar num botão.

Saí hoje. Sem vontade nenhuma. Mas saí. Amorfa. Apática. E com a cabeça em loop. Borderline. Tudo intensamente até ao limite. O bom. E o mau.

E não é possível voltar atrás………

{#página258}

Digerir e encaixar.

“Smile and wave, dear. Smile and wave.”

Entregar e confiar.

“Smile and wave.”

Sorrir e acenar.

E não esquecer que sou muito mais do que um diagnóstico, um rótulo. Sou muito mais do que uma doença ou uma perturbação ou um síndrome ou uma personalidade ou a porra que for! Sou muito mais!

Sorrir e acenar! Porque não é uma doença mental que me define, não é uma doença mental que me derruba. Porque eu sou, quero ser, tenho que ser!, muito mais que um diagnóstico!

Eu não sou isto… Mas sou. A diferença entre o ser e o estar. Eu não estou apenas. Doente. Eu sou……… Eu que nunca quis ser normal, da norma, média, mediana, sou afinal aquilo que sempre disse: diferente.

Borderline. Limítrofe.

Doente.

Mental.

E enquanto tento digerir o diagnóstico que me encaixa como uma luva, aqui estou como sempre: sozinha. E agora com uma certeza ainda maior de que é sozinha que vou ficar sempre.

Quem tem medo de um Borderline? Todos.

Smile and wave, dear. Just fucking smile and wave!

[……e hoje que só precisava de um abraço para a noite toda………não o tenho……]

{#página257}

Borderline, Perturbação de Personalidade. Um rótulo, uma condição ou o quê?

Não me imaginava Borderline. É todo um novo caminho a conhecer.

{#página256}

invisível | adj. | s. m.

in·vi·sí·vel

adjectivo

1. Que não se vê ou não pode ser visto.

substantivo masculino

2. O que não se vê.

Eu, tantas vezes.

Daqui.

{#página255}

O Tempo perguntou ao Tempo quanto Tempo o Tempo tem.

O Tempo respondeu ao Tempo que o Tempo tem tanto Tempo quanto Tempo o Tempo tem.

Há quanto tempo ando eu a perder tempo quando há não tanto tempo dizia que não tinha tempo para perder Tempo…? Estou cansada desta coisa do tempo porque o que mais se perde é tempo. Perde-se para sempre? Para sempre é muito tempo. E eu não vou ter todo esse tempo.

Perdidos. O tempo e eu. Por aí. O tempo não se recupera. E eu? Talvez, se me virem por aí. Se me virem por aí digam-me onde estou a ver se me encontro. Recuperar não sei como se faz. Talvez seja preciso uma bússola. Ou qualquer outra ferramenta para me encontrar e, quem sabe, recuperar. Seja lá isso o que for, porque o tempo que se perde não se recupera. E talvez seja assim também comigo.

Quem sabe? O tempo, talvez…

{#página254}

Às vezes sinto-me embrulhada e enrolada em mim mesma. Sem saber muito bem como me desembaraçar disto. Mas depois lembro-me que me dizem que sou capaz de tudo aquilo a que me proponho. E lembro-me, também, daquela coisa que sinto que chamo de autonomia dependente. Se é que sequer existe. Autonomia para fazer (quase?) tudo, dependente de afectos e apoios.

……e não sei como sair disto……porque, cada vez tenho menos dúvidas, tudo isto assusta quem está de fora…

{#página253}

“Tens que nutrir as tuas relações. Se não nutrires o que é que acontece? Deixam de existir.”

Nutrir relações… Por isso me fecho em casa no penúltimo domingo de Verão. A fazer de conta que o Mundo lá fora não existe e que tenho vontade de ficar aqui quieta. Não tenho. E o Mundo lá fora ainda existe. Talvez um dia deixe de existir. Ou o Mundo lá fora ou eu para o Mundo.

{#página252}

“Percebes onde está a distorção? E o porquê?”

Percebo. Admito a distorção tantas vezes. Outras tantas apenas não entendo o que me chega e que acabo por distorcer…

“Estás outra vez à defesa. Estás nervosa. É por eu estar aqui?”

Claro que sim. Porque entendo o que me é pedido, só não entendo o motivo. E não quero, não posso, distorcer mais do que já o faço…

{#página251}

Quero (muito) continuar a acreditar que tudo isto (ainda) vale a pena.

Mesmo as coisas mais pequenas. Mesmo as coisas maiores. Mesmo eu. Do tamanho que for.

{#página250}

“Aqui podes estar como quiseres. Aqui é como se nos despíssemos sem necessidade de erguer defesas. Mas tu continuas à defesa.”

Depois de hoje, pouco ou nada de novo há a contar. Baixo a guarda todas as semanas, mas não deixo de ter a armadura vestida. Mesmo que dispa ali todos os meus segredos, todas as minhas histórias.

Ali estou, de facto, como quiser. Calada ou em lágrimas, em pé ou descalça, em silêncio ou perdida de riso. Mas sempre à defesa.

Ali, digo a mim mesma tantas vezes, é para confiar. Porque é ali que hei-de resolver tanta coisa em mim. Mas não consigo deixar totalmente a armadura à porta.

Porquê? Porque, diz-me ele, estou a projectar experiências negativas. Porque, digo-lhe eu, tenho medo de, novamente, sair magoada.

Quantas vezes já me despi, mesmo que não completamente como ali, para logo de seguida me magoar?

Jogo à defesa. Prefiro a indiferença à entrega. Já entreguei demasiado para demasiado retorno zero.

Ali é como se nos despíssemos. Mas eu mantenho a armadura.

{#página249}

O Mundo é um lugar feio. Feio e que não se compadece de porra nenhuma!

Tantas vezes duvido dos passos que dou. Tantas vezes sigo a custo por não acreditar já que ainda vale a pena. Tantas vezes tiro os olhos do chão para olhar em frente e tê-los molhados em menos de nada ou coisa nenhuma numa conversa de circunstância de 15 minutos. Tantas vezes respiro fundo quando já não tenho paciência mas tenho que aguentar porque tem que ser. Tantas vezes repito que hoje não mas afinal hoje sim porque é assim que é.

Tantas vezes na corda bamba. No fio da navalha. No trapézio sem perceber onde está a minha rede de segurança.

Tantas vezes que me apetece simplesmente parar o Mundo. Aquele mesmo Mundo que é feio, tão feio, e que não se compadece de porra nenhuma! Parar o Mundo, deixar-me ficar quieta, sossegada no meu canto por um tempo. Não preciso de muito tempo. Só uns dias. Para voltar a mim mesma, para perceber em que ponto do meu caminho estou. Para poder respirar, erguer a cabeça, reencontrar coisas bonitas num Mundo tão feio e regressar ao meu caminho.

Preciso de parar. Não posso. Mas preciso, muito, de parar. Só um bocadinho. Mas ninguém me leva a sério quando digo que preciso, muito, de parar. Só um bocadinho… Por favor………antes que seja tarde.