{#82.284.2019}

Hoje não…

Alguma coisa tem que mudar.

Rapidamente.

Hoje não…

{#81.285.2019}

Há tanto que quero dizer-te… Mas nem o primeiro passo consigo dar. Imponho-me limites de velocidade com receio das curvas apertadas e depois não avanço.

Mas há tanta coisa que quero dizer-te. Olhos nos olhos. Sem pressas nem pressões. Sem nada mais do que a partilha do que trago cá dentro.

Há tanto cá dentro para partilhar. E é contigo que o quero fazer. Sorrindo sempre, claro. Já não há tempo para outra coisa que não seja sorrir.

Aperto o cinto de segurança e tento avançar. Mas as curvas assustam-me. Mesmo com o limite de velocidade que me imponho.

Ajuda-me a avançar… Não sei como, mas sei que podes ajudar-me a avançar.

Há tanto que quero dizer-te e já não sei mais como guardá-lo só para mim.

{#79.287.2019}

Sobrevivi a mais um Inverno.

E nos últimos anos têm sido vários os Invernos e infernos. Sobrevivi a todos.

Não me apetece fazer um balanço dos Invernos e muito menos dos infernos, mas é bom ter chegado aqui.

Calma, serena, tranquila, com mais ou menos borboletas na barriga, em estado de Primavera.

Sobrevivi. E agora agarro com força este novo estado que alcancei a pulso.

Chegou a Primavera. E com ela chego eu também. Uma outra eu. Mais leve. Menos arisca. Mais eu.

Mas sempre totó.

{#78.288.2019}

Há muito tempo que não escrevo em papel. Já não o sei fazer. Porque escrever em papel é exorcizar demónios que já não me servem.

Não sei se algum dia terei coragem para ler o que ali fui escrevendo nos tempos mais escuros. Lembro-me que são palavras muito doídas, doridas e magoadas. Não sei se quero lê-las.

Quero, isso sim, pincelar os meus dias de todas as cores. Esquecer essa necessidade de outros tempos de pôr palavras em papel. Quero desenhar palavras bonitas e suaves em todos os suportes que for encontrando e até em postais ilustrados. Mas já não em cadernos que guardo sem ter coragem de os abrir.

Já não sei escrever em papel. Nem quero voltar a esse escape.

Hoje já não choro. Por isso já não tenho essa necessidade de deitar cá para fora o que em tempos não tão longínquos me fazia escrever no papel o que não tinha lugar no éter.

Vou escrevendo no éter e até relendo algumas coisas porque é tudo muito mais leve. Sim. Mantenho a escrita no éter enquanto fizer sentido.

E agora faz.

{#77.289.2019}

Ainda te lembras das vozes que te gritavam ao ouvido disparates que te assustavam e não te deixavam dormir? Hoje essas vozes estão mais calmas, mas nem por isso silenciadas. Hoje não gritam, mas ainda sussurram coisas que te fazem duvidar do teu valor, por dentro e por fora. As vozes estão mais baixas, já não gritam, mas ainda se fazem presentes.

Ainda te lembras do que te gritavam ao ouvido? Claro que te lembras, como é possível esquecer o horror que te faziam sentir. Hoje apenas tentam fazer-te acreditar que és menos do que realmente és. E isso já é demais para umas vozes que só existem na tua cabeça.

Não lhes dês ouvidos. Lutaste tanto durante tanto tempo enquanto elas gritavam, vais lutar agora também enquanto elas apenas sussurram.

Foca-te em quem te vê todos os dias como és realmente, mesmo que seja um ver à distância de um ecrã. E que continua lá, sem te deitar abaixo, antes pelo contrário.

As vozes estarão sempre presentes. Mas tu já sabes como lidar com elas. E desta vez, agora que elas apenas sussurram, não te vais deixar levar pelas mentiras que elas insistem em te contar.

Pois não?

As vozes são apenas o eco da tua insegurança. E tu és muito mais do que esse eco.

Sei que ainda te lembras de quando te gritavam. Mas chegou a hora de lhes gritares de volta e dizeres: sou muito mais do que um eco de vozes vazias!

{#76.290.2019}

Devagar vou pintando os meus dias de todas as cores. Já não há Tempo para as várias tonalidades de cinzento.

{#74.292.2019}

Voltar onde já se foi feliz. Apetece-me voltar lá. Repetir a experiência e a companhia. Mesmo que tenha sido por poucas horas, aparentemente numa coisa tão simples. Fui feliz nessas poucas horas. E apetece-me, muito, repetir.

{#73.293.2019}

Borboletas na barriga tranquilas, quase quietas. Porque falta qualquer coisa para estar quase lá.

Gosto mais das borboletas ao rubro. É a expectativa a fazer-se presente. É o quase lá.

Mas estão cá as borboletas. Apenas à espera. Como eu. De não sei bem o quê.

{#72.294.2019}

E depois perguntam-me, sabendo-me totó, como é que consigo viver assim. Ou antes “assim”. E eu, que sinto sempre tudo intensamente, simplesmente encolho os ombros e respondo “não sei”.

Quando na realidade sei. Porque acho sempre que mereço menos do que aquilo que desejo, fruto de uma auto-estima baixa e que me leva a refugiar-me na desculpa de ser totó quando não o sou.

Sei que vou vivendo e sentindo e esperando e desejando e fazendo de conta que não se passa o que todos os dias sinto em mim. É assim que vou vivendo quando podia estar a viver toda uma outra realidade, seja ela a que secretamente desejo, seja ela a realidade dos pontos nos is.

É assim que se vai vivendo quando se acredita na verdade distorcida da baixa auto-estima. E é assim que se continua a ser totó mesmo não o sendo inteiramente.

Mereço o que desejo. Sim. E um dia ainda vou acreditar que sim. Até lá, encolho os ombros e sigo à espera não sei do quê.

{#71.295.2019}

E estou. Mesmo.

E é tão bom.

Cheguei a achar que nunca mais seria capaz de estar bem. Mas hoje olho para trás e vejo que, afinal, é possível sair do buraco negro que é a Depressão. Com muita ajuda. Mas é possível.

Já estou melhor.

Obrigada.

E estou. Mesmo.

{#70.296.2019}

Não tenho tempo para perder Tempo. E ando a perdê-lo comigo mesma, por minha causa. Por ser totó e não saber ser de outra forma.

E se um dia for tarde demais…?

{#67.299.2019}

Às vezes pergunto-me se me lês. Se lês o que diariamente debito no éter. Mais ou menos pensado, mais ou menos em jeito de desabafo ou simplesmente a marcar mais um dia que me habituei a marcar.

E por vezes penso que sim, que me lês. Sei lá com que frequência e que entendimento fazes do que escrevo. Mas por vezes sim, por vezes penso que me lês. E isso faz-me acreditar que já sabes muito daquilo que não tenho coragem para te dizer. Por ser tão totó como tantas vezes digo que sou.

Mas será que me lês mesmo? E, no fundo, que diferença faz se me lês e eu não sei? Afinal parece que somos os dois um bocadinho totós.

Gostava de saber se me lês… Gostava que mo dissesses, de forma mais ou menos directa. Da mesma forma que eu todos os dias te digo que gosto de ti. Já o percebeste ou achas apenas que estou a ser simpática? Se calhar ainda não percebeste porque eu também não valido como devia.

Gostava que me lesses. E percebesses que tantas vezes escrevo para ti. Como hoje. Como tantas vezes já escrevi. Ser-me-ia mais fácil deixar de ser totó assim. Mas mesmo que me leias, como dizer-te que isto é para ti? É. É para ti. E quero acreditar que tu sabes que é para ti, mesmo que não me digas nada.

Vamos os dois deixar de ser totós? Prometo que me vou esforçar para ser mais segura de mim própria, não esquecendo o processo de mudança em curso, claro, mas mais segura. O processo ainda é longo, mas vai valer a pena. Só não quero perder pelo caminho a possibilidade de te fazer sorrir. E sorrir contigo.

Será que me lês? Gostava tanto de o saber. Assim como gostava de ter coragem para te dizer de uma vez o porquê de tantas borboletas na minha barriga. Especialmente quando antecipo que te vou ver, que vou estar contigo. Nem que seja por breves instantes.

Será que me lês? Quero acreditar que sim.

Um dia escrevo para ti sem que possa surgir alguma dúvida sobre o destinatário, como acredito que possa surgir por vezes.

Mas hoje fica apenas a questão: será que me lês?

Quero acreditar que sim. E hoje, sem dúvida, é a ti que dirijo as minhas palavras. Não duvides, como por vezes podes duvidar. É natural que aconteça. Mas não duvides. E diz-me… Será que me lês?

{#66.300.2019}

Hoje, novamente, a recordação do medo.

Não quero voltar a ele. Não quero voltar a ter medo.

{#65.301.2019}

Conheço as minhas fraquezas. E hoje dei por mim a questionar a minha força. Mas depois dos últimos anos não devia questionar.

Pois não?

{#64.302.2019}

Não digo nada quando quero dizer tudo. Vou andando devagar, pé ante pé, apalpando terreno.

Um dia encho-me de coragem e deixo de ser totó. Até lá vou sendo igual a mim mesma e vou seguindo no meu jeito totó.