{#página81} 

……………inspira…expira…repete. Respira. Também a raiva vai passar. Também a magoa vai passar. A raiva tens que deixar sair. A magoa tens que perdoar. Inspira. Expira. Repete.

Respira. E segue o teu caminho. Em frente.

{#página80} 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de provocar danos. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de espetar farpas. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de incomodar. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de me aproveitar da fragilidade. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de magoar. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de ser instável. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de pôr o dedo na ferida. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de me fazer presente. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de ser problema. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

E a vontade de ser um peso. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

………… 

Um dia atrás do outro atrás do um. E a vontade de ser melhor que tudo isto… Mas não sou. 

{#página79} 

Talvez um dia eu consiga ser melhor. Mas não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.

Desculpa. Por tudo.

{#página78} 

É possível sentir saudades do que não se teve? Sim, é.

Há dias em que as saudades são mais brandas. Outros há em que doem demasiado. Há, também, aqueles dias em que as saudades nos levam pelo caminho do imaginário. Imaginar como seria, como teria sido, o que acabou por não ser.

Tenho saudades do meu filho. Aquele que não chegou a nascer e que faria por estes dias 2 anos.

E hoje, especialmente hoje, tenho saudades da barriga que não cheguei a ter. Que não chegou a crescer. Mas que sinto, na memória que não é real, enorme, redonda. Tenho saudades de acariciar a minha barriga, de sentir os movimentos do meu bebé, de lhe falar. Tenho saudades do peso da minha barriga. Tenho saudades de não conseguir ver os pés. Tenho saudades de a encostar, sem querer, a tudo com que me cruzava por não conseguir ter olho para as distâncias e porque todos os dias a minha barriga estava diferente.

Tenho saudades de me sentir pesada. Tenho saudades de apoiar e cruzar as mãos junto ao peito ali onde começava a curva da barriga. Tenho saudades, tantas, de lhe tocar… Simplesmente tocar na minha barriga, como um tesouro, como um bem precioso.

Tenho saudades disso tudo. Mesmo não tendo passado por nenhuma dessas experiências. Porque 42 dias não foram tempo suficiente para que a barriga crescesse. Para que o corpo mudasse. Para que olhasse ao espelho e me visse diferente.

Tenho saudades da minha barriga. Aquela que não cresceu. Aquela que não chegou a pesar. Aquela que não guardou os movimentos do meu bebé. Aquela que não se encostou a nada porque não foi preciso medir as distâncias. Tenho tantas saudades dela. E, no entanto, nunca cheguei a tê-la.

Feliz dia do Pai. Até mesmo para quem não o quis ser. O dia da Mãe ainda está longe. Mas não vai ser melhor que o dia de hoje.

Amo-te muito. Mesmo que só te tenha tido por 42 dias. Em mim. Mesmo que, agora, sejas unicamente meu, para sempre. Fazes-me falta. Muita. O teu sorriso que nunca vi. O teu riso que nunca ouvi. A tua mão pequenina que nunca senti. O teu sono que nunca dormi.

Amo-te muito. Mais um dia sem ti, mais um dia que vives em mim.

{#página77} 

Há dias melhores que outros. 

Hoje foi um dos outros… 

962. Depois de 42. Um dia talvez deixe de contar. 

{#página76} 

es·pe·ci·al 

adjectivo de dois géneros

1. Relativo a espécie.

2. Particular.

3. Privativo.

4. Excelentedo melhordestinado a um fim ou uso particular.

“especial”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/especial

Não. Não sou. Por muito que insistam em dizer-me que sim. 

Especial é o arco-íris às primeiras cores da manhã. Não eu. 

Não. Não sou. 

{#página75} 

If you want to go fast, go alone. 

But if you want to go far, go together. 

Quero ir longe. Mais longe. O caminho? Ainda agora começou. Uns dias tenho pressa. Outros sei que ter pressa não resulta. Não tenho tempo para perder Tempo. Tenho todo o Tempo para chegar longe. 

Não sozinha. Não conseguiria nunca chegar onde já cheguei sozinha. Mesmo que durante tanto tempo, demasiado tempo, repetisse para mim mesma que o meu caminho era para ser feito sozinha. Não era. Não é. Não vai ser. 

“Estou verdadeiramente orgulhoso de ti. Muito, mesmo.”

“Já percebeste que és especial?”

“Tens todo o meu aval para fazeres essa asneira que queres fazer. E sabes que eu vou estar sempre aqui atrás para ti.”

“Para mim, pessoalmente, és especial.”

“Tens feito um trabalho muito bom.”

Temos. Em conjunto. 50/50. Porque sozinha sei que seria impossível. Porque, sozinha, o mais certo seria ter desistido. Lá atrás, quando as vozes me gritavam para saltar, quando os riscos na pele me atenuavam momentaneamente a dor, quando era o confronto com as paredes que me trazia algum conforto. 

Divisão de responsabilidades. Tanto para o mau como, agora, para o bom. 

Sei que um dia terei que voltar a caminhar sozinha. Até lá vou aprendendo. Retendo. Crescendo. Respirando. Mas não sozinha. Não sozinha. Mesmo. 

Se sou grata? Tanto! E o caminho ainda agora começou. 

Voltarei a tropeçar e a cair as vezes que forem precisas. Voltarei a esfolar os joelhos e a desinfectar feridas. Voltarei a chorar. Muito. Voltarei a dizer que estou cansada disto que nem eu sei explicar exactamente o que isto é. 

Mas, sei-o já, quando voltar a tropeçar, a cair, a chorar e a pensar em desistir vai ali estar alguém que, sem crítica ou julgamento, me vai dizer “eu estou aqui para ti, não estás sozinha”. Mesmo que lhe diga sempre que não, não sou especial. Eu? Eu sou apenas eu. Com tudo o que isso implica. 

{#página74} 

Às vezes não é preciso mais nada. Um abraço é o suficiente. 

Desenho-o para mim, para quando for preciso, para quando me faltar. 

Como hoje. 

{#página73} 

Presença vs ausência. 

Há presentes ausentes. Mas aprende-se a lidar com essas presenças ausentes. 

E há ausentes presentes. Por um motivo ou outro, deixam de estar, nunca estiveram, nunca quiseram estar, não poderam ficar. Por um motivo ou outro são ausências sempre presentes. Com algumas dessas ausências aprende-se a lidar, a aceitar que já não é possível de outra forma. Ficam para sempre presentes, mesmo que para sempre ausentes. Outras ausências são-no porque não têm lugar para serem presentes, porque no tempo em que ainda eram presentes sempre foram ausentes. 

Existem, ainda, aquelas ausências que serão sempre presentes precisamente porque não o poderam ser. Presentes. Porque não eram para ser? Talvez… 

E depois há aquelas ausências auto-impostas e que, se calhar por isso mesmo, continuam demasiado presentes. Não, não posso dizer que essas me fazem falta. Na verdade não fazem. Não me são presenças saudáveis. Mas também não são ausências melhores… Não me fazem falta, mas sinto-lhes a ausência. Não, não vou voltar atrás. Não posso. E ainda a raiva. A frustração. O desalento. A desilusão. Não. Não vou voltar atrás. Mas ainda preciso de aprender a aceitar que esta ausência auto-imposta é, de longe, o melhor para mim. Porque quem quer saber pergunta, quem quer mesmo saber telefona. Faz-se presente. Mesmo que eu o faça ausente. Que continua demasiado presente. 

Não. Não vou voltar atrás. Não posso. Não quero. Não depois do longo caminho dos últimos 6 meses e meio. Dos últimos 2 anos e meio. Não vou voltar atrás e fazer-me, a mim, presente a quem nunca quis ser mais do que ausente. 

Presença vs ausência. 

E a memória. De tudo. Especialmente do que estará sempre presente mesmo sendo, para sempre, ausente. E não, ainda não consigo perdoar. Ainda não consigo perdoar-te. Mas talvez já esteja mais perto de perdoar-me… Mas não a ti, ausência ainda demasiado presente. 

{#página72} 

Gostava de poder dizer que não sinto a tua falta. 

Mas estaria a mentir… 

(Um dia… Um dia deixo de sentir a tua falta…) 

{#página71} 

Eu sei que as vozes ainda se fazem presentes mais do que gostarias. Sei que te esforças para não as ouvires. Mas sei também que já começas a não lhes dar razão. Mesmo que tantas vezes aches que as vozes estão certas. E é por isso que tens medo, eu sei. 

Tens medo de perder este momento, este sentir de agora, esta espécie de serenidade em que te encontras. Que conquistaste a muito custo. Tens medo de voltar àquele lugar escuro e frio, àquele carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. Tens medo que este momento seja só mais um daqueles troços antes da vertigem, do abismo, da descida rápida no vazio. Tens medo de sentir tudo aquilo de novo. Os riscos na pele, o conforto do confronto com as paredes. 

Faz parte. Esse medo faz parte. É normal que tenhas medo. É o lado emocional a falar. É a emoção. É o irracional. 

Mas também tens a razão ao teu lado. A parte racional que te diz que tudo isto é normal. Mesmo que estranhes toda este espécie de serenidade do momento. Mesmo que acredites que a serenidade precede sempre a tempestade. É a experiência que to diz. Mas a razão diz-te o contrário. A razão diz-te que coisas menos boas irão sempre acontecer e tu não tens como controlá-las. Mas mesmo depois dessas coisas menos boas acontecerem a serenidade acaba por regressar. A muito custo muitas das vezes. É verdade. E não é justo. Porque é que a tempestade é sempre mais fácil? Talvez por não a poderes controlar. Mas a serenidade podes conquistar. Reconquistar. Regressar a ela. Por muito duro que seja o caminho, sabes hoje que sim, é possível regressar à serenidade. 

És mais de emoção do que de razão. E é por isso que tropeças tantas vezes e cais outras tantas. Porque sentes. Tudo. O bom e o mau. Intensamente e à flor da pele. É assim que és e ninguém te pede que mudes. Ou não devia pedir… Porque essa, a das emoções à flor da pele que sente tudo intensamente, és tu. Por inteiro. Com tempestades. Com serenidade. Com carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. Com vozes que gritam aos teus ouvidos e que hoje fazes por não as ouvir. 

É uma sensação estranha essa que sentes agora, essa espécie de serenidade. Não é? Eu sei. Mas também mereces senti-la. Mesmo que tenhas medo de a perder de um momento para o outro. 

Lembra-te: por muito que haja uma parte que te falte, não estás sozinha. Nunca te esqueças disso. E sempre que a emoção precisar do equilíbrio da razão sabes onde procurá-la. Tudo, seja o que for, é sempre mais fácil quando percebemos, sabemos e aceitamos que não estamos sozinhos. E tu não estás. 

Ainda que as vozes, em surdina, teimem em repetir que sim. E que é sozinha que mereces estar. Por tudo. 

{#página70} 

Colhes sempre o que plantas. 

E é tão bom perceberes, e aceitares, que começas a colher o que começaste a plantar há 6 meses e meio. 

Se tem valido a pena? Sabes tão bem que sim. Mesmo que nos dias menos bons insistas em dizer que não notas diferenças. Sabes que sim, que estás melhor, que estás diferente. 

O caminho, já sabes, não é fácil. Nunca te disse que seria. Ainda vais tropeçar algumas vezes. Provavelmente até voltarás a cair. Mas sabes que não estás sozinha. Já não estás sozinha. Tens quem te segure, quem esteja contigo quando cais, que te ajuda a racionalmente regressar e recuperar do tombo emocional. Que te permite ser mais emoção do que razão mas que simultaneamente te leva a racionalizar as emoções. Ensina-te, mesmo que não dês por isso, a procurar o ponto de equilíbrio. Esse mesmo ponto que não tens encontrado, que não tens conhecido. 

Colhes sempre o que plantas. E hoje começas, finalmente, a perceber que é possível colher o equilíbrio. 

Vai correr tudo bem. 

{#página69} 

Ela. Sempre lá. Tens-te esquecido dela, não tens? Eu sei que todos os dias a vês. Mas olhas realmente? Eu sei que os dias hoje são mais corridos. Mas há sempre tempo para olhares para ela e te recordares que ela está lá sempre. Mas tens-te esquecido dela, não tens…? 

Assim como te tens esquecido de ti. Menos do que noutros tempos, é verdade. Mas ainda não é suficiente. Ainda te esqueces demasiado. Da árvore que és, da árvore que queres ser quando fores grande. De ti. 

Tens-te esquecido. Não podes. Porque, afinal, nos últimos 953 dias depois de 42, quem esteve sempre presente foram elas: a tua Lua e Árvore que és. Mesmo que nem sempre visíveis, estiveram, e estarão, sempre presentes. 

Não te esqueças delas. Da Lua, que é tua, que és tu. De ti, que és mais do que te permites ser, sentir, mostrar. És, já, a Árvore que queres ser quando cresceres. 

Tens-te esquecido, não tens? 

Não te esqueças. De ti. Lua e Árvore. Tu. 

{#página68} 

Leva o tempo que for preciso. É o teu tempo. Aquele tempo que não tens tempo para perder Tempo. 

Não perdes. Ganhas. Respiras. 

Respira agora. 

Um dia atrás do outro atrás do um. Ainda te lembras? 

Descansa agora. Por hoje já está. Amanhã? Deixa primeiro o amanhã chegar. 

Respira agora. E não te esqueças de ti. 

{#página67} 

A ansiedade não mata, dizem. Há 23 anos que o oiço, há 23 anos que o repito a mim mesma. Há 23 anos que faço por acreditar nisso. 

A ansiedade não mata, dizem. Mas mói. Muito. E dói. Demasiado. 

Pára e respira. Regressa ao aqui e agora. Deixa o que for que está lá à frente. Afinal, ainda não chegou. E já devias saber que pode nem chegar. Lembras-te quando, há 3 anos, repetias todos os dias que o importante era o aqui e agora porque amanhã sabias lá se sequer lá irias chegar? Repete novamente. Volta ao momento. Volta ao aqui e agora. Amanhã, se o amanhã sequer chegar, ainda está longe. E o que o amanhã trouxer resolve-se na altura. 

Pára e respira. Racionaliza. O que é que te assusta? Porquê agora todo esse desnorte de ansiedade? Porquê assim, com essa intensidade, com essa força que te derruba? Não. Não te derruba. Abana-te. Mas sabes tão bem, há tanto tempo, que não te derruba. 

E se falhares? Que mal tem? Podes dizer-me todos os males que falhar tem. E eu vou dizer-te o que tu já sabes mas teimas em esquecer-te: falhar faz parte. Mas tu não vais falhar. Sabes isso. Por muito que te sintas exausta, por muito que sintas que tens feito tudo, dado tudo, sabes que não vais falhar. Porque isso está lá à frente, num amanhã que sabes lá sequer se chega. E tu estás aqui. Agora. Não lá à frente. 

A ansiedade não mata. Sabes isso tão bem, há tanto tempo. Sabes também que a visão turva, a respiração descontrolada, as palpitações que fazem estremecer não passam de sensações físicas de um medo irracional. Sabes que a ansiedade não mata. Mói muito, eu sei. Dói demasiado, também sei. Mas, tu e eu, ambas sabemos que também és mais forte do que isso. Já aí estiveste antes. Lembras-te? Claro que te lembras. Por muitos anos que passem não há como esquecer. Mas estás a esquecer-te do mais importante: há 23 anos que sobrevives a todos os picos de ansiedade, a todas as crises, a todos os medos irracionais, a todas as palpitações que fazem estremecer. 23 anos. Mais de metade da tua vida. E sobreviveste à ansiedade. Sempre. 

Pára e respira. Sabes tão bem que tudo isso vai acalmar. Que tudo vai passar. Que tudo se vai resolver. Pára, respira e racionaliza. Nunca permitiste que a ansiedade te parasse antes. Não o vais permitir agora. 

Pára. Respira. Racionaliza. Vai correr tudo. Tu sabes que sim. Tu sabes. 

Pára. 

Respira. 

Racionaliza. 

Vai. Correr. Tudo. Bem. 

Tu sabes que sim. 

{#página66} 

Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que te fazem doer. Aliás, sabes que sim. Ainda é difícil ouvi-los, mesmo que em por acaso em linhas de conversas cruzadas. Mesmo que não sejam dirigidos a ti.

Podes ter vontade de te levantar e dizer “vamos mudar de assunto” ou até “e que tal não falarmos disso” ou ainda “não fales do que não sabes”. Podes ter vontade de intervir e expôr o que sentes, o que pensas e o que, de facto, sabes. Porque sabes mais e melhor do que quem puxou o assunto que apenas sabe de ouvir falar. De ouvir dizer. De experiências de terceiros.

Podes ter vontade disso tudo. Tens esse direito. Porque não é o tempo que durou uma experiência que lhe vai atribuir maior ou menor importância. Que lhe vai dar maior ou menor valor. Que vai dar maior ou menor sofrimento na hora da perda.

Uma perda é uma perda. Uma perda inesperada será sempre uma perda inesperada. Seja um amigo, seja um familiar, seja um filho.

Seja um filho às 8 semanas que foram 42 dias, seja um filho às 19 semanas, seja um filho aos 6 meses, seja um filho aos 4 dias, seja um filho aos 28 anos.

Uma perda será sempre uma perda. Não importa quanto tempo durou. Um filho será sempre um filho. Não importa quanto tempo esteve por perto. Fará realmente diferença a questão do tempo?

Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que fazem doer. Comentários que desvalorizam a tua perda porque, afinal, foram só 42 dias. E vais ter vontade de intervir. E de dizer que a dor da perda de um filho não se quantifica. Não é a quantidade de tempo que vai definir quem sofre mais. Se a mãe que não o chegou a ser porque não passou de 42 dias de gestação ou se a mãe que nunca deixará de o ser apesar da perda com 28 anos.

Uma perda é uma perda. A perda de um filho é a perda de um filho. Não é quantificável. Muito menos é comparável.

Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que fazem doer. E que nessas alturas volta tudo à superfície. E apetece gritar, apetece fazer má cara, apetece sair dali.

Já devias saber. E, no fundo, sabes. Simplesmente ainda não te habituaste. Não sei se alguma vez te irás habituar. Mas não podes, nunca!, esquecer-te que sim!, tens direito à tua dor da tua perda. E que não!, ninguém tem o direito de a desvalorizar, quantificar, comparar. Porque uma perda é uma perda. Uma perda de um filho é uma perda de um filho. E a tua perda do teu filho é a tua perda do teu filho.

Uma perda é uma perda. Mesmo que tenham sido 42 dias.

A minha perda é a minha perda.

A minha perda do meu filho é a minha perda do meu filho. Mesmo que tenham sido 42 dias.

Há 950 dias.

{#página65} 

Pára e respira. Mesmo que doa fisicamente. Pára e respira. Mesmo que a vontade seja fugir dali. Pára e respira. Mesmo que a vontade seja ficar pequenina, imperceptível, refugiada no teu canto. Pára e respira. Mesmo que queiras gritar porque, mais uma vez, a visão turva e as palpitações e as guinadas no peito te visitem como há muito tempo não o faziam. Pára e respira. Mesmo que sintas que não sabes onde estás e o que estás a fazer. Pára e respira. Mesmo que seja difícil manter uma linha de raciocínio lógico quando tudo parece não fazer qualquer sentido. Pára e respira. Mesmo o túnel onde viajas nesse momento seja cada vez mais escuro, cada vez mais apertado, cada vez mais rápido na vertigem da descida. Pára e respira. 

Pára. 

Respira. 

Sabes que é só mais uma viagem na via rápida da ansiedade. O pânico já ali, a espreitar. À espera. À tua espera. 

Pára. 

Respira. 

Vai correr tudo bem. 

Regressa ao aqui e agora. Mesmo que tenhas que recorrer aos químicos. Regressa. Aqui. Agora. 

Pára e respira. 

Vai. Correr. Tudo. Bem. 

Pára. 

Respira. 

{#página64} 

Há dias em que respirar já não custa tanto. Porque, afinal, nada mudou mesmo que tudo tenha mudado. 

Florescer em mato selvagem. Um pouco como eu. No meu mato que sou e que não se deixa domar. Mas onde volto a crescer, a florescer, a respirar. E, eventualmente, a reencontrar-me. 

Há dias em que respirar já não custa tanto. Como hoje. E apesar de tudo. 

{#página63} 

Dia de voltar a mexer na ferida. Aquela que ainda não cicatrizou, que ainda sangra e ainda dói. Muito.

Dia de perceber, sentir, que afinal os dias podem ficar, podem ser, melhores. Porque, tal como quando ia à enfermaria mudar os pensos dos joelhos, aos poucos começa a ser mais fácil mexer na ferida, limpá-la, desinfectá-la.

Ainda custa, claro. Tirar o penso e expôr os danos ainda custa. Mas, percebo agora, aos poucos começo a ver melhorias. Longe da cicatrização, sim. Mas a infecção a ser, aos poucos, cada vez menor.

Sim, afinal os dias podem voltar a ser melhores. E vão voltar a ser melhores.

Um dia deixarei de ter pensos nos joelhos. Um dia a ferida irá fechar e cicatrizar. E esse dia, sei-o agora, está mais perto a cada dia. Porque “um dia atrás do outro atrás do um”. Sem pressa.

Sem pressão.

{#página62} 

“Tem calma, miúda. Respira. Pára um bocadinho e respira…” 

Mesmo quando o ar não entra. 

Especialmente quando o ar não entra. 

Pára. 

Respira. 

Vai correr tudo bem.