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As mãos que não sabem estar quietas e qualquer pedaço de papel serve para rabiscar. E é bom perceber que rabiscam apenas por não saberem estar quietas em vez de se ocuparem para ocupar a cabeça.

Que continuem assim, irrequietas e não inquietas. Um dia atrás do outro atrás do um. Sem pressa. Mas com um sorrisinho ao canto da boca.

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“E se perder vou tentar esquecer-me de vez Conto até três se quiser ser feliz”

The Gift . Primavera

1.

2.

3.

…contamos…?

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25 anos depois, recordar Lei, Promessa, Princípios e aventuras. A Divisa, essa, nunca foi esquecida.

“Sempre Alerta”.

E foi tão bom.

Obrigada pela viagem.

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“Um dia destes apaixonas-te e isso vai ajudar.”

Até lá, procuro-me de fora para dentro.

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Parar e olhar para cima. Há jacarandás em flor em Novembro.

Ainda bem que um dia decidi tirar os olhos do chão.

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“Tu és uma pessoa muito bonita por dentro. E quem não quiser conhecer isso só fica a perder.”

Não faço parte do rebanho, sou como sou apenas. Com todos os lados bons e maus que tenho e que fazem de mim quem e o que sou.

Dar-me a conhecer. Tento fazê-lo da melhor forma que sei. Talvez não seja a melhor, mas é o que consigo.

Sei que “sem stress”, e que “está tudo bem”, mas atrapalho-me a mim mesma querendo simplificar.

“Tu és uma pessoa divertida. Estou a afirmar, não estou a questionar!”

E eu, claro, rio-me. Porque sem jeito, porque palhacinha tantas vezes, porque tão pouco autoconfiante.

Baixo as expectativas e tento mantê-las rasteiras. E vem o receio. Porque nunca consigo controlá-las e elas aumentam um pouco mais a cada dia. Porque vão chegando sinais, dicas, mensagens. E depois páram. Só para voltarem logo a seguir.

…é todo um processo que desconheço e que só agora começo a aprender. Com a sensação que sim, é possível estar lá um ponto luminoso mesmo sem perceber se também cá está.

Nada disto parece fazer sentido, exposto assim. Mas assim fica para memória futura. Porque só o não está garantido e se assim for…”está tudo bem”.

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É interessante perceber que tudo são ciclos, que há coisas que se repetem sempre na mesma altura.

Como agora, há dois anos, há três anos.

Podem ter poucos pontos em comum, talvez apenas o frio do Outono que finalmente se instalou. Mas não deixa de ser curioso cruzar calendários e descobrir semelhanças.

Não têm que ser iguais em tudo. Nem é desejável que há 3 anos se repita, para esse peditório já dei e não volto lá. Já de há 2 anos há tanta coisa para ser diferente mantendo alguns pontos comuns. Do momento actual só me apetece não mexer para não estragar. Mesmo sentindo que tem potencial para melhorar.

É interessante perceber os ciclos. Ou então são apenas coincidências de Outono.

O que for.

Será.

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Quando mesmo os dias frios começam e acabam com um pouco de calor, ela sorri.

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Tanto ainda por descobrir. Percebo que eu mesma tenho que descobrir tanta coisa sobre mim. Saberei ser diferente? Ser melhor? Ser suficiente, até?

Desconfio que não.

Por outro lado olho para trás e vejo que num ou noutro momento soube ser tudo o que acho hoje que não sou ou não sei ser. Interessante, por exemplo. Serei? Desconfio que não. Mas também estou habituada a que tudo se desenrole de outra forma. Talvez por isso agora me sinta derrotada quando o jogo ainda agora começou.

Não sei. Não sei mesmo nada. Sei que o meu cérebro sabe exagerar e toldar alguns pensamentos. Sabe ser extremado e baralhar-me e deixar-me na dúvida sobre tudo.

“Tudo o que sentes é real”, diz-me ele. E eu duvido que o seja realmente porque, afinal, é o meu cérebro cicatrizado que me fala e reage e me faz ser diferente. Gostar muito, gostar demasiado, não sei se sou eu ou as cicatrizes. Sei, sim, que tenho tanto para descobrir. E, pior que tudo, tenho tanto para permitir que descubram. Mesmo duvidando que esse tanto que eu sou seja sequer suficiente.

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“É importante reconheceres a sintomatologia para poderes agir.”

Reconheço-a toda… Não sei como agir com o que reconheço a não ser dar tempo ao Tempo. Talvez seja mesmo o melhor caminho. Mas até lá sinto tudo o que quero e o que não quero.

E os filmes na minha cabeça vão crescendo. Para o bom e para o mau.

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Sabes como é não querer mexer para não estragar…? É por isso que me deixo ficar tão contida.

“Sem stress. Está tudo bem.”

E é essa contenção que vai estragar tudo…

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Não sei se estou preparada mas, seja o que for que vier, que venha. Chega de perder Tempo.

Porque a descoberta é precisa. E sabe bem. Sem expectativas seria mais simples, mas não há como evitá-las. Por isso que venha o que for que está por vir.

Eu cá estarei.

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Ainda te lembras de como era antes? Antes daquele dia em que te viste num filme surreal que ainda hoje chegas a duvidar que possa ter sido real?

Ainda te lembras de como era o mundo, o teu, até este dia há 4 anos? O último dia de normalidade, de dias sem grandes dores, sem pesadelos, ainda te lembras de como tudo era tão mais fácil?

Diz-me, ainda te lembras do que aprendeste com tudo o que amanhã faz 4 anos? Ainda te lembras que aprendeste que nada é garantido, muito menos o amanhã, e que por isso mesmo não vale a pena perder tempo? Especialmente com coisas pequenas sem verdadeira importância.

Tens andado esquecida do que prometeste a ti própria, de que não tens tempo para perder Tempo.

Hoje olhaste para trás e percebeste que esqueceste durante 3 anos aquilo que prometeste faz amanhã 4. Perdeste 3 anos quando prometeste que não irias perder tempo. Entregaste 3 anos à Depressão e esqueceste-te de ti e das tuas opções.

Ainda te lembras de ti há 4 anos, na véspera do dia em que tudo mudou?

Ainda vais a tempo de não perder Tempo. Ainda vais a tempo de fazer com que cada dia conte. Ainda vais a tempo de escolher o que te faz sorrir. Tens um leque de opções actuais, só tens que escolher. Não remarcar números passados. Fazer, isso sim, nova chamada para o momento presente. E sei que chegaste a duvidar deste momento presente, mas ele aí está: presente. Embrulhado à espera de ser aberto. De ser vivido. De ser sentido.

Há 4 anos neste dia tudo era ainda simples. Sem grandes dores ou pesadelos. Sem filmes surreais. Sem tantas lágrimas e ansiedade e choros e desnorte e Depressão. Cresceste neste tempo que não volta a este dia de há 4 anos. Por isso agora o Tempo é de viver o que o presente tem para ti.

E tu sabes o que o presente te traz neste momento. Por isso vai e voa e vive e sente. Mesmo que voltes a cair, não percas tempo a perder Tempo.

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“Tu lês o que escreves?”

Não, no imediato não leio o que escrevo. Podem passar dias, semanas e até meses até ler alguma coisa que escrevi. E percebo, ao ler, porque é que não leio no imediato, porque é que clico em “Publicar” sem reler, sem corrigir.

Tudo o que escrevo vem de dentro, lá do fundo. Muitas vezes dorido e doloroso. Outras tantas sem sentido aparente. Se fosse para usar floreados e corrigir o que escrevi mais valia não escrever. Como agora.

Não, no imediato não leio o que escrevi. Mas acabo por reler mais tarde e perceber o caminho percorrido. E é também por isso que vou insistindo em escrever: para não me perder de mim.

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Voltar a ter medo não é necessariamente mau. Especialmente depois de quase o ter perdido por completo. Hoje percebi que voltei a ter medo. E isso é mais um sinal de que quero continuar por cá, mesmo nesta pele que tantas vezes já me queimou por dentro.

Um dia atrás do outro. Um dia de cada vez. Sem pressa mas com toda a pressa do mundo de quem já perdeu tanto tempo. E eu não tenho tempo para perder Tempo.

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Gosto de ser como o trevo. Que cresce no meio das pedras.