{#página113} 

Tenho saudades tuas. Ia dizer que sinto a tua falta, mas é muito mais que apenas isso. Tenho, mesmo, saudades tuas. 

Tenho saudades das tuas mãos. Mãos pequeninas de quem ainda agora começou a crescer e agarra o Mundo com força para o Mundo não lhe fugir. Mãos pequeninas que agarram as minhas mãos na hora do colo, na hora do passeio, sem hora marcada e só porque sim, porque são as mãos da Mãe. 

Na verdade, no Mundo do lado de cá, nunca senti as tuas mãos. Não posso dizer que nunca as vi, não seria completamente verdade. Mas nunca as senti. 

Tenho saudades da tua gargalhada. Do teu risinho estridente de pura alegria pelas pequenas coisas. No Mundo do lado de cá nunca te ouvi, mas o som do teu riso ecoa na minha cabeça todos os dias. Quase como se estivesses aqui comigo, onde deverias estar. E não no Mundo do lado de lá, o da fantasia, da imaginação, o Mundo do lado de lá daquela ténue linha. 

Sei que estarás sempre do outro lado da linha. Estarás sempre no Mundo do lado de lá que não é real. Embora tenhas sido, de facto, real. Ainda que por apenas 42 dias. 

Tenho saudades do teu narizinho, do teu sorriso, dos teus olhos que imagino parecidos com os meus. Tenho saudades do teu cheiro, da tua pele de bebé. Dos teus beijinhos e dos teus abraços. Mas das tuas mãos…tenho tantas saudades das tuas mãos. As mesmas mãos que me tocariam para me relembrar que estarias ali, comigo, tão perto. As mesmas mãos que se iriam agarrar às minhas pernas a pedir colo. As mesmas mãos agarradas às minhas que teriam servido de guia e ponto de segurança nos primeiros passos. 

As mesmas mãos que fariam festinhas, diriam adeus, mandariam beijinhos pelo ar. Que me tirariam o cabelo dos olhos para poder olhar-te melhor. Que me tapariam os olhos para brincar às escondidas. 

Tenho saudades de tudo isso. Porque dizer apenas que sinto a falta disso tudo é, de certa forma, negar que exististe. Porque já sentia falta disso tudo antes de ti. Mas hoje, depois de teres existido, depois de 42 dias que foram breves e que ficam comigo, hoje tenho saudades. Do que não tivemos porque não pode ser, não era para ser. Do que nunca vamos ter. Porque tu estás no Mundo do lado de lá e eu preciso manter-me no Mundo do lado de cá. Mesmo que a linha entre a realidade e a loucura seja tão ténue, não posso esquecer-me que tenho que manter-me no Mundo do lado de cá. Onde continuas a existir. Mesmo que apenas eu te possa sentir. Mesmo que, por vezes, acabe por te confundir… 

Tenho saudades tuas. Tenho tantas saudades tuas…… 

{#página112} 

978 depois de 18. 996 depois de 42.
Ainda faz sentido escrever? 

Ainda faz sentido falar? 

Ainda faz sentido sentir? 

………ainda faz sentido sequer tudo isto………? 

{#página110} 

Baby steps. Atabalhoados, muitos deles, muitas vezes. Mas necessários. Cair, levantar, para cair novamente e voltar a levantar. Conhecer o ponto de equilíbrio. E avançar.

Baby steps. Nada mais que baby steps. 

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975 depois de 18 depois de 42? 993.

Ainda respiro. Tantas vezes a custo. Mas ainda respiro. 

42 dias que valem por uma vida inteira. 42 dias que ficam comigo, para mim. 

Mas ainda respiro. Tantas vezes a custo……… 

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Normalidade não é um conceito linear. O que é normal para uns pode não ser normal para outros. Normal é seguir a norma, imposta sabe-se lá por quem. 

Nunca me afirmei normal. Dentro da norma. Igual aos outros. Sensação estranha, saber-me fora da norma e querer fazer parte não querendo. Ou não querer querendo. Ou… Não sei. 

Sei, sim, que a linha é, ainda, muito ténue. Demasiado ténue. Demasiado frágil. E se as vozes na minha cabeça já não me gritam, apenas sussurram a doçura dos riscos na pele, hoje são as imagens que me fazem viajar entre a realidade e a fantasia, sem definição de fronteira, sem perceber se já passei a linha ou se apenas a pisei. Ou se não me aproximei sequer! 

Não. Não faço parte da norma. Mas quero fazer não querendo quando dou por mim numa realidade que não existe, a viver momentos que só existem na sala de projecção que é a minha cabeça. Quando dou por mim fisicamente aqui enquanto a cabeça está num outro mundo qualquer que começou a ganhar forma e força há pouco tempo. Num mundo que não é real, dou por mim a perceber, mas que tem cheiro, sabor, diálogos imaginários, toques de pele com pele sem peso. 

Viajo demasiadas vezes. Demasiado depressa. Demasiado facilmente. E dou por mim a pensar que é tão mais fácil do outro lado, a viver uma realidade que é irreal, que não existe se não nos filmes da minha cabeça.

As vozes não me gritam, sussurram apenas. Assustam ainda. Claro. Mas as imagens, agora as imagens, a realidade imaginária que só existe na minha cabeça, quando estou sozinha comigo ou até acompanhada com os outros. 

E se um dia eu não voltar…? E se um dia a realidade imaginária me prender do outro lado? E se um dia eu trouxer essa realidade imaginária para o lado de cá, para o lado que faz parte da norma onde tudo aquilo que vivo dentro da minha cabeça não existe? E se um dia eu me perder do lado de lá, ou será do lado de cá?, e se eu me perder e começar a viver esses filmes que trago na minha cabeça…? Interagindo do lado de cá com os actores que me habitam o lado de lá? Interagindo do lado de cá exactamente da mesma forma como interajo do lado de lá? É tão doce o outro lado……… 

Não sigo a norma. Não faço parte dela. Nunca fiz. Nunca quis fazer. Quero hoje. Porque não sei até que ponto já ultrapassei aquela linha, se apenas a pisei ou sequer me aproximei. 

É tudo cada vez mais confuso. Estranho. E confortável… Demasiado confortável. Do lado de lá……… 

{#página106} 

Esperar. Ainda é cedo para outra coisa que não esperar. 

990 dias. E a contar. 

{#página105} 

Ocupar as mãos para tentar desligar a cabeça. Os filmes que faço e que passam em sessão contínua sem intervalo há tanto tempo. Às vezes penso que os filmes já terminaram, mas percebo que continuam lá, com outras projecções sobrepostas. 

Projecções. No fundo não passa de projecções. Porque o que eu vejo como sinais de alguma coisa não passam afinal de meros sinais de vida onde projecto demasiadas coisas. 

Confusa. É assim que fico. Sempre. Desde sempre. Não sei ler. Nunca soube. Leio demais. Tantas vezes. Demasiadas vezes. E por ler demais os filmes passam em sessão contínua na minha cabeça e fazem-me querer gritar para a sala de projecção para que parem a bobine. Mas na sala de projecção não está ninguém. Porque a projeccionista sou eu. E a realizadora. E a argumentista. E a protagonista. E a única a assistir na primeira, e na última, fila. 

Ocupar as mãos para tentar desligar a cabeça. Um dia aprendo a parar a bobine na sala de projecção. Quando deixar de criar filmes que passam em sessão privada e contínua na minha cabeça. 

{#página104} 

Começar de novo? Não sendo possível tenho vontade de começar, ou recomeçar?, outros caminhos. Não sei quais, não sei para onde. Mas apetece-me começar qualquer coisa nova. 

Se estou preparada? Para alguns caminhos talvez. Para outros, que quero muito, talvez seja ainda muito cedo. Ou talvez venha a ser sempre demasiado cedo. E esses são os que me deixam com mais medo. Medo de nunca virem a começar. Medo de começarem e eu não saber o que e/ou como fazer diferente. Medo de começarem e, mais uma vez, não resultarem. 

No fundo, medo. Medo sempre. Por muito que me digam que tenho coragem, não deixo de ter medo. Não existe uma coisa sem a outra? Não sei. Sei que existe medo sem coragem, mas isso fica para quem se esconde e evita enfrentar o caminho diferente e inesperado. Sei, também, que a coragem existe por causa do medo, e enfrenta-o e lida com ele. Mesmo que nem sempre me leve pelo caminho certo, a coragem faz-me mexer. 

Neste momento não sei para onde encaminhar essa coragem. Não sei por onde começar algo novo. Não sei, sequer, o que de novo quero/posso/devo começar. Sei o que gostaria de começar. Mas acho que é, ainda, demasiado cedo… Mesmo correndo o risco de, um dia destes, vir a perceber que já é demasiado tarde….. 

{#página103} 

Voltar 987 dias depois. Porque às vezes é preciso voltar e enfrentar. Inevitavelmente reviver. Tudo. Como um filme em exibição na minha cabeça em sessão privada e contínua. 

Aceitar? Talvez. Talvez um dia. Sim, acabarei por aceitar. Esquecer? Não é possível. Mas é possível recordar com menos dores. 

Voltar. 987 dias depois. 

E continua a ser um lugar medonho. 

{#página102} 

Eu não tenho tempo para perder Tempo. E o que é que faço? Perco o Tempo que não tenho tempo para perder… 

Cada vez mais difícil aceitar que o Tempo vai passando e eu vou ficando lá atrás, sem concretizar seja o que for. Planos já sei que não adianta fazer, corre sempre tudo ao contrário. Mas dou por mim a traçar pequenos esboços de metas-que-não-quero-chamar-planos e a ver que o relógio não pára. Não espera. E não me dá o tempo todo que preciso. Quero fazer acontecer, mas ainda é cedo. Cedo para mim. E ao mesmo tempo o Tempo que não tenho tempo para perder Tempo vai passando. E um dia hei-de perceber que já é tarde. Como já é. Para mim. 

Não faz sentido ser tarde quando ainda é cedo. Mas faz todo o sentido ser cedo quando já é tarde. Então deixo-me ir, deixo-me ficar. Deixo-me assim, agarrada a nada que não ilusões-que-não-quero-chamar-sonhos. E traço filmes na minha cabeça que só existem aí mesmo porque ainda é cedo e porque já é tarde. De que adianta acompanhar uma história que só existe na minha cabeça? Só aí poderia ser real, nem aí é real. 

É muito ténue a linha entre o real e o irreal. Tanto que tantas vezes me esqueço que o irreal não é, de facto, real. Memórias falsas… Tão demasiadamente reais. 

Não. Não tenho tempo para perder Tempo. Não. O Tempo que é o meu não é suficiente para ser cedo e tarde. Não. Não posso deixar-me transpôr a linha do irreal. 

Por muito que tente manter o foco, por muito que tente ver tudo definido, é tão fácil deixar-me levar pela visão turva das falsas memórias. E sei que, por serem falsas, irão doer quando conseguir aceitar que nada dessas memórias é meu… 

Não é fácil. Ninguém disse que seria. Mas também ninguém disse que o caminho, o meu, seria passar pela falta de tempo que não tenho tempo para perder Tempo e pela irrealidade de memórias que não existem. 

Mais um dia. Um dia atrás do outro atrás do um. Mais tempo. Menos Tempo. 

E eu…? Onde é que fico…? 

{#página101} 

Tudo é temporário. Porque é que insistimos em perder tempo……? 

{#página100} 

Assertividade. A aprender. Para reter. 

E esta noite, da minha janela, o Mar. 

E não me apetece o Mar, nem a {minha} Lua que está Cheia. Não me apetece escrever. Nem falar. 

O toque. Sinto a falta do toque. 

As dores. Não sinto falta das dores. 

Eu. Um dia assertiva. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já. 

{#página99}

Hoje? Hoje quarto, almofadas, manta, cama. Também mereço. Também preciso. Também faz parte.

{#página97} 

“Depressão: vamos falar” 

Falarei sempre. Mesmo que ainda não me aceite doente. Que sou. Ou estou. Ou… 

{#página96} 

“Sabes que, por vezes, é preciso andar para trás, não sabes?” 

Sei… Se me assusta? Muito. Hoje confirmei que andar para trás, ir tão lá atrás, dói. Mas é lá atrás, tão distante, que é preciso regressar. Para resolver. Para aceitar. Para recomeçar. 

“Um destes dias experimentamos ir lá bem atrás, o que me dizes?” 

Não preciso dizer… 

“Não te preocupes. Sabes que é preciso. E se eu vir que vais só andar para trás vou lá estar a puxar-te para a frente. Sabes isso.”

Sei. E sei tudo o resto. Que não me vou perder pelo caminho porque, agora, tenho uma luz de presença para me guiar. Que, mesmo que tropece e volte a cair, há um par de mãos pronto a ajudar-me a levantar e a reeguer-me. 

Andar para trás para poder andar para a frente. Ir lá atrás para saber estar aqui. Tropeçar pelo caminho. Aprender. Reaprender. Corrigir? Aceitar. 

Ninguém disse que ia ser fácil…… Ninguém diz que é impossível. Mas custa. Muito. 

{#página95} 

Sempre que o ar te faltar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que a memória te pregar rasteiras, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o medo marcar presença, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o Norte te parecer perdido, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o toque do que já não existe regressar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o cheiro da pele que não foi te visitar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o nada te sufocar, lembra-te: olha para cima. 

Seja quando for, por que motivo for, lembra-te: olha para cima. É para cima que crescem as árvores. Mesmo que as raízes se estendam para baixo, é para cima que deves crescer. 

Não desistas. Não desistas de crescer. De acreditar. De olhar para cima. Não desistas. Não desistas de ti. Por ti. 

Lembra-te: olha para cima. Vai correr tudo bem. 

{#página94} 

Tenho saudades da minha gravidez… 

…mesmo que tenha durado apenas 42 dias. Mesmo que já tenham passado 978 dias depois de 42.