{#página204} 

E depois há aqueles dias em que,  mesmo sem vontade, sais de casa e vais onde tens que ir sem qualquer ânimo. Quando tudo o que te apetece é nem sequer sair da cama e simplesmente não ver ninguém. 

Mas vais. Sem vontade, sem ânimo e quase sem força. 

…posso ficar na minha bolha…? Não. Não posso. E sei que não devo. Mas estou cansada… E sem prazer nenhum em estar assim. Mas “isto” não dá para simplesmente desligar. 

{#página203} 

No dia em que deixar de ter medo, terei perdido o jogo. 

Às vezes é bom ter medo. 

{#página202} 

E depois há a dança dos Mainá… 

(ainda te lembras como é focares-te nas coisas positivas, mesmo que pequeninas?) 

{do suicídio. Ou da pele que queima por dentro} 

Chester Bennington. Morte por suicídio aos 41 anos. Na data de aniversário de Chris Cornell, morte por suicídio aos 52 anos. 

É fácil ficar-se chocado com o suicídio de alguém. Muitos não entendem o porquê. Nem têm que entender. 

Suicídio não é egoísmo, como tantos dizem por aí. Suicídio é arrancar a pele que queima por dentro. A pele que prende à Depressão quem tenta sair dela. Quem luta todos os dias para sobreviver a essa pele que queima, que prende, que acaba por sufocar. 

Suicídio não é, como tantos dizem por aí, a solução fácil dos fracos. Primeiro porque não é fácil. É desespero puro. Segundo porque não é dos fracos. Os fracos são os que se movimentam por aí como se nada se passasse. Os outros, os suicidas, são os que desesperadamente lutam todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos, com toda a força que nem sabiam que tinham até precisarem dela. 

Suicídio não é desistir de lutar. Não é render-se à dor e ao desespero. Não é falta de coragem para enfrentar os problemas. 

Suicídio é a libertação. Da pele. Aquela que queima por dentro. Que prende. Que sufoca. 

Se é solução? Não sei. Sei, sim, que há momentos em que o desespero nos faz querer sair de nós próprios para deixarmos de sentir dor. Aquela dor que quem está de fora não sente, não vê, não entende e tantas vezes não aceita. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me queima por dentro como se fosse irrigada por ácido no lugar de sangue. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me prende e me condiciona os movimentos e me conduz a gestos de auto-agressão. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me sufoca e me faz querer gritar e chorar em vez de rir. 

Sim, posso ser considerada de suicida. A ideação suicida está instalada. Não, nunca tentei o suicídio. Mas as vozes……… 

Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão. Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão Major. Mas não é difícil viver/conviver com um suicida. Porque nós, os que temos ideação suicida, não vos dizemos nada sobre isso. 

Olhem mais vezes para o lado. Há sinais. Dêem-se ao trabalho de olhar para o lado, para o outro, com olhos de ver. Aquele colega de comportamento que oscila entre o estar quieto no seu canto e o ser demasiado extrovertido pode estar apenas à espera que alguém lhe agarre na mão e lhe diga “estou aqui contigo”. 

Não adianta fazer de conta que não se passa nada para depois receber a notícia em choque. 

Na verdade, simplesmente não adianta fazer de conta que não se passa nada. Porque passa tudo na cabeça de um suicida. 

E na minha já passou demasiado.

{#página200} 

Quando queres gritar e não podes. Riscos na pele. 

Quando queres chorar e te dizem que não pode ser. Riscos na pele. 

Quando queres arrancar a pele que te queima por dentro. Riscos na pele. 

Quando queres exorcizar a dor que te consome e te dizem para ser diferente. Riscos na pele. 

Quando te olhas ao espelho e vês a tua dor nos teus olhos, olhos incapazes de mentir. Riscos na pele. 

Quando pouco mais tens a perder. Riscos na pele. 

A vertigem do salto. As vozes que te observam em silêncio. O ardor da memória que não se apaga. A mão em que ninguém te agarra. Riscos na pele. 

Riscos na pele. A lembrar que por dentro essa mesma pele te fere por ser tua. Apenas tua. 

Riscos. Na pele. 

{#página199} 

Há 3 anos: dois riscos, uma certeza. “Estás grávida?”, não quero falar disso assim, por aqui. 

Uma conversa, três horas, um parque de estacionamento. 

Revivo tudo hoje. Cada momento, cada hora, cada minuto, cada segundo, cada lágrima. 

Não te vou pedir nada, sempre soube que seria assim. Não. Não assim. Não como acabou por ser. 

29 dias de 42.

E a memória à flor da pele. E a pele tem memória. E a memória que queima a pele, que não dói apenas. Queima. E quero arrancar a minha pele. Quero rasgá-la. Arrancar cada pedaço, cada centímetro, cada milímetro de pele que me queima por dentro. 

Não me deixes cair. Por favor. Prometeste que não me deixavas cair e eu estou em queda livre. E tu, tu prometeste que não me deixavas sozinha. E olha para mim, aqui, sozinha, com a minha pele a queimar-me por dentro enquanto caio em queda livre sem paraquedas, sem rede. Sem truques, sem nada. Só eu e a minha pele em chamas. 

3 anos de 29 dias de 42. E nunca pude anunciar “estou grávida” porque tu soubeste de imediato quando te chamei para conversar. 

A pele que insiste em queimar-me por dentro, por completo. A memória à flor da pele. Não quero nada disto para mim. E é isto que tenho comigo. É isto que sou porque não soube ser melhor, não soube ser mais. E não sei aceitar. 

Porquê eu? 

Porquê comigo? 

Porquê assim? 

Porque é que queima tanto? Porque é que não consigo arrancar a minha pele por completo? Talvez assim, se o conseguisse, doesse menos. Mas, por muito que tente, a minha pele que me queima por dentro não sai. 

{#página198} 

“Tu ÉS importante para mim!” 

Não sou. Talvez tenha algum peso, mas não uma importância por aí além. Ambos sabemos que “sempre” não é o mesmo que “para sempre”, e só o que é de facto importante fica para sempre. 

Um dia serei apenas mais um número. Talvez continue a ter nome. Mas não serei muito mais do que isso. Talvez exista em alguma referência de algum artigo de especialidade, talvez seja uma pequena nota de rodapé. Mas nunca muitos mais que isso. 

Não sou assim tão importante. Seja para ti, seja para outros, seja para o Mundo em geral. Cada vez me sinto mais desadequada, mais desencaixada, desenquadrada, desorientada, inadaptada. Seja onde for. Porque cada vez entendo menos o Mundo lá fora e o Mundo cada vez me entende menos a mim. 

A importância que cada um de nós tem é demasiado relativa. E é por isso que desvalorizo quando me dizem que sou importante. Não. Não o sou. Sou apenas mais uma pessoa que por aí anda, que por aí vai. Só mais uma por aí. 

E nunca passarei disso mesmo: só mais uma que se perdeu por aí. 

{#página197} 

Some days you just breathe. And that’s perfectly ok.

Como hoje. 

{…o risco de cair existe. O medo também. Mas sei que não me vão deixar cair. E, mesmo que caia, sei também que tenho quem me atire uma corda para, novamente, me ajudar a subir. Por isso o medo enfrento de uma forma diferente. O risco? Corro-o, por não haver outra forma.}

{#página195} 

……nada do que diga fará diferença quando todos me dizem que tenho que mudar……

{#página194} 

Afinal, as árvores também quebram. Mesmo que seja só um ramo. 

Há ramos que me faltam por se terem quebrado. Há ramos que me faltam por me terem sido arrancados. Há ramos que deixaram de me faltar depois de eu mesma os ter cortado. 

As árvores também quebram. Mas até quebrar ainda precisam de vergar. Muito. Talvez um dia eu quebre. Até lá vou vergando. E arrumando, o melhor que sei e o melhor que vou aprendendo, os meus ramos. Todos eles. Até mesmo aqueles que faço por esquecer, que faço por esconder. 

As árvores também quebram. Talvez um dia eu quebre. Mas não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.  

{#página193} 

“Como é que estás?”. Percebo hoje que não sei responder a essa pergunta. Por não saber qual das versões me pedem: a resposta de circunstância, “está tudo bem, obrigada”, ou a outra. A minha. Que, na verdade, nem eu sei qual é. 

Como é que estou? Não sei. Sei apenas que “tem dias”. E que a droga, a medicação, ajuda. 

De resto, vou-me escondendo. Mesmo que à vista de todos. Vê quem quer. Vê quem sabe procurar para ver. 

Como é que estou? Não sei sequer quem sou… 

{#página192} 

Percebo agora que muito do que digo, muito do que escrevo são as vozes em meu lugar. 

Cada vez menos sei o que sou, quem sou. Percebo, apenas, que sou mais do que isto. Tenho que ser mais do que isto. Não posso ser apenas as vozes na minha cabeça, a ideação, a Depressão. Não posso ser apenas isto. 

Não sei como, as vozes enganam-me, não sei como permito que as vozes falem no meu lugar. Sei, apenas, que as julgava caladas. Ou, pelo menos, mais silenciosas. 

Riscos na pele. Para sentir. Para deixar de sentir. São as vozes que mo dizem. Deixar de sentir. Quando já questiono tudo o que sinto, tudo o que alguma vez senti. 

Prefiro não sentir mais. Prefiro não sentir mais para não voltar a dar lugar às vozes que me prometem riscos na pele. 

Riscos na pele. Recordações à flor da pele. 

Não quero mais. Não quero mais disto. 

{#página191} 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses quando digo que me queima a pele. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses a fragilidade feita força que ainda hoje trago comigo. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses esses espasmos no meu corpo que procuro acalmar procurando o conforto do confronto com as paredes. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses que, às vezes, preciso que me amparem com força para não cair quando me falta a força e o ar entra descompassado e muito superficialmente. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses porque quero tantas vezes gritar de dor. 

Não. Nunca me ouviste chorar. E mesmo que tivesses ouvido nunca irias entender. Nada. 

Porque é a mim que a pele queima, é a mim que a fragilidade se faz força, é a mim que o corpo estremece a cada novo espasmo, é a mim que o confronto com as paredes traz algum conforto, é a mim que me amparam quando a força me foge no descompassado entrar superficial do pouco ar que entra, é a mim que a voz dói depois de gritar “porquê eu? Porquê?!”. 

Não. Nunca me ouviste chorar. Nunca irás ouvir-me chorar. Porque mesmo que ceda aos riscos na pele para acalmar a pele queimada, apenas me permito chorar como nunca me ouviste ali, entre aquelas 4 paredes onde ponho a descoberto tudo aquilo que teima em ainda consumir-me. 

Não. 

Nunca me ouviste chorar. 

Nunca irás ouvir. Mesmo que os riscos na pele se aprofundem e deixem marcas visíveis a qualquer um. 

Nunca me ouviste chorar. E eu chorarei todas as vezes que precisar. E tantas vezes em silêncio. Escondida. De mim e do Mundo. Mas nunca mais escondida de ti. Simplesmente porque não, nunca me ouviste chorar. 

{#página190} 

Não me toques. Porque se até o toque me queima a pele, não me toques. Porque se até o toque traz de volta os espamos pelo meu corpo, não me toques. Porque se até o toque me impede de respirar para não chorar, não me toques. 

Memórias inconscientes à flor da pele. 

Não me toques. 

Ou terás que encontrar coragem para não me deixares cair. 

{#página189} 

Memórias à flor da pele que queimam. Não as alimento, são elas que me consomem. Que me queimam a pele. Queimam a pele ao ponto de me recordar que os riscos na pele acalmam a dor. 

Não alimento o que me consome. Faço por conseguir sobreviver a tudo isto. Faço por conseguir respirar. Choro e tento deixar sair. Tenho que deixar sair. Tem que sair. Antes que me consuma por completo. Antes que regressem os riscos na pele. Antes que……… 

“Respira fundo. Com calma. Outra vez.”, diz-me ele, ao meu lado. Onde tem estado desde aquele primeiro dia de Agosto do ano passado. “Respira. Tens que regressar agora.” Tenho que regressar de uma viagem violenta e inesperada. Inesperada pela intensidade. Pela vontade de gritar. Porquê eu? Porquê comigo? Pela vontade de bater com os punhos fechados no chão. Pela vontade de me esvaziar da raiva que ainda sinto. 

“Regressa… Vá. Respira fundo. Respira com calma.”, ao mesmo tempo que me agarra, que me abraça com força e me diz que está ali comigo. “Olha para mim. Olha para mim… Eu estou aqui. Respira fundo. Olha para mim.”, vai repetindo com calma e com todo o tempo do Mundo para que eu regresse, para que aterre de mais uma viagem de terror. 

Trabalhar a memória. Aprender a lidar com ela. Aprender a aceitar a parte dorida da memória. Não me resta mais nada que não aceitar. 

Hei-de acabar por aprender. Hei-de acabar por aceitar. Até lá, hei-de regressar a estas viagens violentas a frio. Sem anestesia. Sem atenuantes. Mas com a certeza que me é repetida constantemente de que ele, que apenas faz o seu trabalho, vai lá estar para não me deixar cair. 

Porque a alternativa não pode ser opção. 

{#página188} 

Valorizo a memória. As memórias. É lá que tudo se mantém no depois. Independentemente do rumo, do caminho, do momento presente, a memória lembra-nos outros momentos, regista marcos no percurso. 

Precisamente pela importância da memória não fico indiferente a sorrisos de outros momentos perdidos no chão de uma qualquer rua. Como estes. Incomodou-me vê-los ali. Abandonados. Uma colecção inteira de sorrisos cúmplices, de marcos de percurso, de momentos que não se repetem. Incomodou-me e por isso mesmo os recolhi. Olhei-os e prometi-lhes, aos sorrisos gravados, que os haveria de entregar a quem deles tivesse memória. 

Sorri ao perceber que rapidamente os sorrisos gravados se reconheceram e sorriram também pelo meu encontro com um álbum de memórias que não se sabia sequer perdido. Que, percebi, nunca seria abandonado. 

Não importa realmente se estes sorrisos se mantêm cúmplices neste momento que é agora e não naquele tempo de memórias. Importa apenas que se criaram novos sorrisos e novas memórias. E isso, para mim, é o suficiente. 

{#página187} 

“Aceita a relatividade e a fugacidade de todas as coisas.”

Aceitar. Aceitar-me. 

Um dia. 

{#página186} 

As palavras no papel não me saem. “Deixa fluir, escreve sem objectivo. Acaba por sair alguma coisa.” 

Deixo fluir. E o pouco que sai resume-se a nada. Apenas me confirma que não vale a pena. Não vale a pena o esforço de avançar. De estar/ficar (ser?) melhor. 

É tão mais fácil simplesmente desistir. Porque continuar não me vai levar a lado nenhum e tudo continuará igual. E eu continuarei como sempre: sozinha e sem importância.