Dos dias “assim”

Dos dias que moem. Sem ansiedades, pelo menos não declaradas, talvez com antecipações para o dia de amanhã.
Dos dias que, depois de tantos dias de sorrisos e boa disposição, apenas apetece chorar sem motivo, de impaciência talvez, de incerteza, de dores antecipadas.

Porque amanhã, 6 meses e 16 dias depois, vai ser um dia de dores. Vai ser dia de visitar aquele lugar em Mafra onde há 6 meses e 16 dias se deixou de viver, se passou a sobreviver. Um dia de cada vez. A casa dos meus tios. Onde sei que vou estar, como desde o primeiro dia, a olhar para o portão à espera de ver o meu primo chegar com aquele sorriso de miúdo, de orelha a orelha, e a dizer “foi só uma brincadeira”. E era aí que me levantava e ia ter com ele e lhe batia e chamava estúpido por ser uma brincadeira de tão mau gosto que se arrasta há 6 meses e 16 dias. Mas o portão, sempre que abrir, não vai trazer esse sorriso de miúdo, de orelha a orelha. Vai trazer outros, de certeza, que se vão juntar de surpresa para acompanhar a minha tia no seu primeiro aniversário sem o filho. O outro sorriso, o de orelha a orelha, o de miúdo, o do meu primo, esse, já sabemos, não voltará a passar o portão. E eu não vou poder chamar-lhe estúpido e bater-lhe pela brincadeira de mau gosto. Porque não é brincadeira nenhuma, apesar de ser de extremo e profundo mau gosto.

Assim como é de extremo e profundo mau gosto elevar a herói e aplaudir aquele Palito que assassinou duas mulheres e tentou, ainda que sem sucesso, assassinar outras duas, uma delas a própria filha. Não, não é um herói porque se conseguiu esconder da polícia durante tanto tempo. Menos herói é por ser um assassino. E a quem aplaude este Palito só posso mesmo desejar que nunca passem pela experiência de lhes terem assassinado alguém.

Ainda dói, dizer isto assim. Assassinado. Assassinado. Assassinado. Porque o meu primo, digo-o desde o primeiro momento, não morreu. Foi assassinado. E dizer isto dói. Tanto. Não só cá dentro, chega a doer por fora.
E não adianta repeti-lo vezes sem conta. Porque não é por repeti-lo que vai doer menos. Aqui não se cria calo. Não se suaviza. Assassinado. É um adjectivo demasiado violento. Dizê-lo então é uma atrocidade. A primeira vez que o disse, quando soube, quando passei a mensagem, foi quando o estalo foi maior. Foi quando o estalo de realidade foi mais violento. Porque dizer que o meu primo morreu seria tão menos doloroso porque morrer todos morremos. Mas assassinado. Assassinado. Assassinado. Nem todos somos assassinados. Assassinado é como ser roubado. Roubado de uma vida inteira que se tem pela frente. Terem-nos assassinado alguém é terem-nos roubado uma parte de nós. Daqueles roubos em que é impossível a recuperação dos bens roubados. E não existem palavras para descrever o que se sente. Sente-se e pronto. Pronto, não. Há que lidar com isso. Não sei, ao fim de 6 meses e 16 dias, como se lida com isso ainda. Não sei se algum dia saberei. Não sei como lidam os meus tios. Como lida a minha prima. Não sei. E egoisticamente espero nunca vir a saber. Porque sei que não sei como eu lido. Talvez vá lidando, com dias melhores, outros menos bons. Porque não quero chamá-los de dias maus. Esses são, sem dúvida, os dos meus tios. Os da minha prima a quem o irmão foi declarado morto aos seus pés.

Não, não quero chamar de dias maus aos dias menos bons que vou tendo, seja em que aspecto for. Porque sei que há quem esteja pior que eu, que tenha dores maiores que as minhas. E que eu adorava poder suavizar, atenuar, ou até curar. Mas não posso. Por isso amanhã lá vou estar. No aniversário da minha tia. O primeiro sem o filho. Que lhe foi roubado por um não-herói que não merece aplausos como esse Palito também não merece.

Vou lá estar, com o meu melhor sorriso. Sincero porque gosto de sorrir para quem precisa de sorrisos. E de lágrimas para os meus tios e para a minha prima já chega. Sorriso que não de orelha a orelha, mas com braços abertos para os acolher, a todos, porque preciso deles e eles de mim e nós de todos os que nos querem bem.

Por isso amanhã lá estou. Porque sim. Porque quero há muito tempo lá voltar. E já devia ter voltado. Volto para o aniversário, o primeiro, de uma mãe a quem roubaram o filho.

E os olhos, os meus, esses, vão estar fixados ao portão. À espera, como desde o primeiro dia, daquele sorriso de orelha a orelha, sorriso de miúdo. Sorriso que nunca mais irá atravessar aquele portão.

Não. Amanhã não vai ser um dia bom. Vai ser apenas menos bom. Mais um dia depois do outro. Mais um dia, 6 meses e 16 dias depois.

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