Daily Archives: 07/08/2014

8 dias {arquive-se para memória futura III}

E de repente, ao telefone, perguntam-me: “então, já estás melhor?”
Respondo secamente que não. 
“E então ainda não estás melhor porquê?”

E na minha cabeça o “já” e o “ainda não” ecoam como um estalo, e não fazem sentido, e não têm nexo.

Como assim “já”? Como assim “ainda não”?

Uma semana. Passou-se uma semana. 8 dias. Depois de 8 semanas que foram 42 dias.

Como assim “já”?! Como assim “ainda não?!” Como assim isso tudo se ainda não tive sequer tempo para pensar unicamente em mim, para dedicar exclusivamente a mim?!

Como assim?!

Livro do bebé {arquive-se para memória futura II}

Juro que não procuro estas coisas, juro que tento até fugir delas. Porque fazem doer. Claro que fazem doer. Passaram apenas 8 dias e dói ainda. E muito. Não o corpo, que esse está a recompôr-se como previsto. Mas cá dentro. Por dentro. 

Nunca achei grande piada aos “livros do bebé”. Talvez porque nunca me tenha cruzado com nenhum particularmente interessante. Até porque nunca tinha procurado por “não precisar”. Sempre os achei todos demasiado lamechas, demasiado azulinhos ou cor-de-rosinha, muito piegas, muito cheios de mariquices e esquisitices.

Mas hoje…hoje fui, como tantas vezes vou, à papelaria aqui da rua. Fechar contas do mês, repôr material. Sempre de olhos no chão, como nos últimos dias. Enquanto esperava que a dona acabasse o que estava a fazer, fui vendo livros, olhando capas de revistas, folheando revistas de “costura criativa” carregadas de projectos alheios, confirmando que os meus pés continuavam lá, no chão, o único sítio para onde os meus olhos teimam em apontar.

Mas de repente…de repente cruzo-me com “livros do bebé”. Daqueles foleiros, piegas, maricas, lamechas, um cor de rosa, outro azul. E na prateleira de baixo…na prateleira de baixo o único livro do bebé que alguma vez me arriscaria a comprar. Da Rute Reimão. Cujo trabalho conheço há anos, cujo trabalho gosto tanto. Mal vi a capa, percebi que era um livro Rute Reimão. E pensei “bolas…”

Juro que não procuro estas coisas, nem procuro histórias de grávidas, nem grávidas, nem bebés. Afasto-me até. Mas, na prateleira da papelaria de todos os dias, o livro do bebé da Rute Reimão. Ali. A olhar para mim.

E eu aqui. A olhar. A pegá-lo. A folheá-lo. A doer-me tudo por dentro. Com vontade de explodir. Vazia. E a pensar apenas “bolas…” e a fazer um esforço enorme para não chorar ali.

O livro? Um bocadinho dele .:.aqui.:.

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