Daily Archives: 21/09/2014

Ponto de Fuga

Diz a Wikipédia que um “ponto de fuga é um ente do plano de visão, que representa a intersecção aparente de duas, ou mais, retas paralelas, segundo um observador fixo. Todo o ponto de fuga situa-se na linha do horizonte.” É assim, dizem, que se cria a prespectiva.

Para mim, um ponto de fuga é aquele local, certo ou incerto, certo ou errado, onde posso refugiar-me com tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo para voltar. É aquele local onde posso estar e ser e sentir e ficar. E pôr as coisas em prespectiva.

Um ponto de fuga não serve, nunca poderia servir, para fugir aos problemas. Porque os problemas, esses, encontram-nos sempre, porque vão, estão, connosco sempre. Mas num ponto de fuga, com tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo, os problemas que vão, que estão, connosco começam a ser vistos por outra prespectiva. Aquela de quem tem tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo, para gerir e digerir tudo o nos rodeia.

Não tenho um ponto de fuga neste momento. Vou ter que o encontrar em mim, cá dentro. Bem no fundo de mim onde acho que não encontro respostas. Ou pelo menos as respostas que me pedem. Daquelas sem tempo, com pressa, com pressões, com prazo. Respostas sem prespectiva correcta ou corrigida. Quando tudo o que preciso é de tempo. Para mim. E um ponto de fuga. Também ele para mim.

#day34

Domingos em Belém lembram-me sempre passeios em família, com visita aos Pastéis de Belém, corridas pela relva, fotografias junto à fonte luminosa.

Mas os meus domingos em Belém em idade adulta são outros. São sempre a incerteza, se vou ter vaga ou não para fazer uma feira que agradeço pelos turistas mas que abonimo pelo ambiente, pela vizinhança, pela falta de critérios e até de coerência.

As manhãs dos meus domingos em Belém são sempre longas, de um humor nem sempre aconselhável. E hoje não foi excepção.

Mas os meus domingos em Belém também têm coisas boas. Têm o sentar na relva, o encostar às árvores e descontrair o suficiente para absorver da relva e das árvores todo um outro estado de espírito.
É deixar-me ficar ali, encostada às oliveiras, a tocar na relva, a olhar para o céu por entre os ramos. É encostar-me a um tronco retorcido pela idade e deixar-me levar pela música. É simplesmente estar ali, assim, quieta, por uns minutos. E {quase} tudo melhora nos meus domingos em Belém.

E é chegar ao final do dia e descobrir carimbos. Esculpidos em pedaços de madeira com motivos indianos. Carimbos tal como os que procurava há tanto tempo.

E se hoje de manhã jurava que não voltava a repetir os meus domingos em Belém, chego ao final do dia com vontade de voltar. Por um único motivo: carimbos. E só por isso hoje valeu a pena mais um domingo em Belém.
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E se eu chorar {parte 2}

E se eu chorar, outra vez, ainda, já não te peço que me abraces, nem que me relembres que a Lua olha sempre por mim.

Porque se eu chorar, outra vez, ainda, ninguém o vai saber. Irei chorar em silêncio, sem pedir que me segures nas mãos, ou me digas que estás aqui. Porque é um choro que é só meu agora. Que me pertence apenas a mim. Por todas as dores que ainda sinto. Aquelas que ninguém vê, que não deixam marcas tangíveis, mas que estão cá, em recuperação, a ser tratadas, desinfectadas, desinflamadas, à espera de cicatrização.

São lágrimas que só eu entendo, que já só eu sinto e sei a sua razão. Porque é um processo que é meu, mesmo quando não o é exclusivamente. São lágrimas que me assaltam mais depressa do que esperava que o fizessem. Que aparecem de surpresa, do nada. Do nada? Não. Do tudo. Porque a memória é um tudo e essa não se apaga. E é um tudo doloroso, de tirar o ar, de fazer contorcer de dores que só eu conheço, que só eu entendo, porque são apenas minhas.

Se eu chorar, outra vez, ainda, não me digas, não me digam, nada. Permitam-me ser assim. Sentir assim. Recuperar[-me] assim. Reencontrar-me assim. Porque chorar não resolve nada, não adianta nada, mas é assim que eu reajo, é assim que eu sinto, é assim que eu sou. É assim quem eu sou. Porque a vida não vem com manual de instruções, por muito que tanta gente acredite que sim, que todos devíamos reagir igual.

Se eu chorar, outra vez, ainda, sempre enquanto houver lágrimas para chorar, porque o motivo vai existir sempre, sempre enquanto houver lágrimas para chorar, deixem-me fazê-lo. Porque fico mais leve, mesmo que chorando pareça que bebi demais, me deixe com sentimentalismos e lamechices à flor da pele e uma dor de cabeça de ressaca.

Chorar não apaga o que já foi, que no fundo não foi, o que já foi e deixou de ser, não apaga nada, não traz nada nem ninguém de volta. Não refaz sonhos desfeitos. Não devolve o que nos roubaram. Chorar é apenas o aqui e agora, porque é aqui e agora que a memória me traz à flor da pele todas as dores dos últimos meses.

Se eu chorar, outra vez, ainda, as vezes que tiver que chorar, só preciso que mo permitam. Sem críticas. Sem penas. Sem palavras, até. Porque as lágrimas turvam-me a visão e até os ouvidos podem captar o que não foi dito. Por isso choro sozinha. Em silêncio. Para mim. Mas choro. Outra vez. Ainda. As vezes que tiver que chorar enquanto doer.