E se eu chorar {parte 2}

E se eu chorar, outra vez, ainda, já não te peço que me abraces, nem que me relembres que a Lua olha sempre por mim.

Porque se eu chorar, outra vez, ainda, ninguém o vai saber. Irei chorar em silêncio, sem pedir que me segures nas mãos, ou me digas que estás aqui. Porque é um choro que é só meu agora. Que me pertence apenas a mim. Por todas as dores que ainda sinto. Aquelas que ninguém vê, que não deixam marcas tangíveis, mas que estão cá, em recuperação, a ser tratadas, desinfectadas, desinflamadas, à espera de cicatrização.

São lágrimas que só eu entendo, que já só eu sinto e sei a sua razão. Porque é um processo que é meu, mesmo quando não o é exclusivamente. São lágrimas que me assaltam mais depressa do que esperava que o fizessem. Que aparecem de surpresa, do nada. Do nada? Não. Do tudo. Porque a memória é um tudo e essa não se apaga. E é um tudo doloroso, de tirar o ar, de fazer contorcer de dores que só eu conheço, que só eu entendo, porque são apenas minhas.

Se eu chorar, outra vez, ainda, não me digas, não me digam, nada. Permitam-me ser assim. Sentir assim. Recuperar[-me] assim. Reencontrar-me assim. Porque chorar não resolve nada, não adianta nada, mas é assim que eu reajo, é assim que eu sinto, é assim que eu sou. É assim quem eu sou. Porque a vida não vem com manual de instruções, por muito que tanta gente acredite que sim, que todos devíamos reagir igual.

Se eu chorar, outra vez, ainda, sempre enquanto houver lágrimas para chorar, porque o motivo vai existir sempre, sempre enquanto houver lágrimas para chorar, deixem-me fazê-lo. Porque fico mais leve, mesmo que chorando pareça que bebi demais, me deixe com sentimentalismos e lamechices à flor da pele e uma dor de cabeça de ressaca.

Chorar não apaga o que já foi, que no fundo não foi, o que já foi e deixou de ser, não apaga nada, não traz nada nem ninguém de volta. Não refaz sonhos desfeitos. Não devolve o que nos roubaram. Chorar é apenas o aqui e agora, porque é aqui e agora que a memória me traz à flor da pele todas as dores dos últimos meses.

Se eu chorar, outra vez, ainda, as vezes que tiver que chorar, só preciso que mo permitam. Sem críticas. Sem penas. Sem palavras, até. Porque as lágrimas turvam-me a visão e até os ouvidos podem captar o que não foi dito. Por isso choro sozinha. Em silêncio. Para mim. Mas choro. Outra vez. Ainda. As vezes que tiver que chorar enquanto doer.

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