Letting Go

“Letting go is the hardest part” mas é necessário. É deixar ir o que já passou, o que foi não sendo, o que não foi sendo. Foi o que foi, não foi o que foi. Foi o que não foi. Há que deixar ir. Porque o peso do que está para trás torna difícil o caminho a percorrer para a frente.

E por isso hoje deixo ir. Como já tentei fazer antes, justificando-me num peso que não queria ser, que nunca quis ser, mas que sei que fui por muito que me dissessem, dissesses, que não.

Hoje não interessa o peso que sou ou que tenho, interessa deixar ir não por mais nada nem ninguém, não pelo que ficou para trás, mas por mim apenas e pelo que tenho pela frente. Porque há coisas que não são, simplesmente, para ser, e assim sendo há que deixar ir. Fica a memória, as memórias. As coisas boas, as menos boas, até mesmo as más e as muito más. Fazem parte de um livro de histórias, de um baú de memórias, que de vez em quando se irá abrir como todos os baús, como todos os livros. Mas sou grata por cada momento, incluindo os maus, até mesmo os muito maus, porque aconteceram. E com tudo isso, mal ou bem, à força ou não, cresci. Aprendi que tudo acontece por algum motivo. Mesmo que não se consiga perceber no imediato a razão. Mas tudo o que acontece por algum motivo põe-nos à prova. De um lado e de outro. E mostra-nos que podemos suportar muito mais do que aquilo que achamos possível. Com ou sem ajuda, com ou sem elevadores, com ou sem alavancas, com ou sem roldanas, com ou sem mãos que nos puxem. E neste momento sei que sozinha consigo seguir em frente. E por isso mesmo deixo ir o que até aqui foi mas não foi, ou não foi mas foi. Nunca sendo. Sendo sempre.

Vai. Deixa ir. Sê livre. Vive um dia após o outro. No aqui e agora. Digo-me tanto isto tantas vezes. E está na hora de pôr em prática aquilo que teorizo tanto. E, por isso mesmo, deixo ir. Deixo-me ir. Deixo-te ir. Corto a amarra que eu mesma teci, por acreditar que seria a minha tábua de salvação. E foi. No momento que tinha que ser. Hoje, hoje essa tábua já não flutua. Já não me permite manter-me à tona, embora também não me afunde. Porque já aprendi a manter-me à tona sozinha. Por isso, por isso chegou a hora de cortar o cordão, soltar a amarra, deixar ir aquela que foi a minha tábua de salvação. Porque até as tábuas de salvação, as nossas que não são na realidade nossas, têm outros caminhos a percorrer que não os nossos. E não podem estar ali sempre.

Por isso mesmo deixo ir. Com a certeza que o que tinha que acontecer aconteceu por algum motivo. Mesmo que não o entenda ainda, mesmo que só o venha a entender daqui a muito tempo, noutro espaço de outra vida que não aquela deste momento. Num outro presente, que hoje nada mais é que futuro. Nessa altura entenderei. Mas, para já, aceito e sou grata. Mesmo pelo que me fez chorar tanto, pelo que me magoou tanto, pelo que me fez sofrer como nunca pensei ser possível, mesmo por me ter mostrado, ainda que à força, que sou tão mais forte e resistente do que aquilo que pensava ser. Porque simplesmente aconteceu.

Por isso deixo ir. Deixo-te ir. Deixo-me ir. Por muito que seja “the hardest part”.

But then again, this too shall pass.

 

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