Daily Archives: 08/11/2014

365 dias, Alexandre

Parece que foi ontem, ao mesmo tempo parece que já foi há uma vida inteira. Mas ainda só passaram 365 dias. Ou já passaram 365 dias. Ainda não sei bem se é só ou se é já.

Não me lembro do último dia do ciclo de 365 dias que antecedeu este ciclo que termina hoje. Foi, muito provavelmente, uma sexta feira igual às outras, sem novidades, sem acontecimentos, sem nada para relatar. Mas lembro-me, tão bem, da noite. As minhas noites, que nunca são boas, por vezes parecem alertas. E essa noite, lembro-me tão bem, foi estranha. Passada em branco até ser de manhã. Inquieta com alguma coisa que nunca soube explicar, que ainda hoje não sei explicar. E recordo-me de pensar “mas que raio…eu estou bem, porque é que não consigo dormir? Que agitação é esta que tenho cá dentro?”.

Lembro-me de pensar nisto, e naquele sonho que tive umas semanas antes que me recuso a relatar novamente. E lembro-me também de outro pensamento que me assaltou uns dias antes e que não, não quero repetir nem recordar.

Que noite estranha aquela. Senti-a assim. Mas não imaginava que, à hora em que finalmente adormeci, já de dia, já manhã feita, tu já cá não estavas connosco. E tinha começado, poucas horas antes, o maior pesadelo dos teus pais e da tua irmã.

Nunca mais nada foi como era antes, Alexandre. E como poderia sê-lo? Não bastava tu já cá não estares. Tinhas que ter sido roubado de nós da forma atroz que todos sabemos. Porque, sempre o disse e tu sabes, Alexandre, o meu primeiro pensamento quando soube que já não te tínhamos foi que tinhas tido um acidente numa qualquer curva daquela estrada que eu detesto. Seria a única coisa lógica para a tua partida. E seria tão mais fácil de aceitar e encaixar.

Quando, finalmente, soube a razão de já não estares connosco, não entendi. Ainda hoje não entendo. Digo que sim, que já encaixo. Talvez. Mas continuo sem entender.

Sabes, sinto a tua falta. E sinto, também, a falta dos teus pais e da tua irmã que nunca mais foram, e dificilmente voltarão a ser, os mesmos que eram até ao 365º dia do ciclo anterior a este. Nenhum de nós voltará a ser. Mas eles menos ainda. E tenho saudades de todos. De quando os dias eram mais fáceis, independentemente dos problemas normais que se cruzam connosco. De quando via o teu pai rir e sorrir espontaneamente sem aquela tristeza no olhar. De quando a tua mãe era mais fácil de acarinhar, apesar daquela armadura que sempre teve. Hoje, a armadura que veste é muito mais impenetrável e por vezes mesmo intransponível ao ponto de não lhe conseguir chegar lá dentro, onde importa. E a tua irmã, a tua irmã continua sozinha, sem ti, e é outra pessoa que já não conheço, não reconheço.

Mas quero que saibas, Alexandre, que apesar de vos ter perdido a todos, de formas diferentes daquela que te levou de nós, os teus pais e a tua irmã continuam comigo. Ou melhor, eu continuo com eles. E lamento apenas a impotência que sinto, que vivo, por não poder tornar os dias deles mais fáceis. Ou apenas menos difíceis.

Os últimos 365 dias tiveram altos e baixos. E os baixos bastante baixos, como sabes. E eles estiveram sempre lá para mim. E fizeram com que esses meus dias muito maus fossem um pouco mais fáceis. Souberam como fazê-lo. Mas eu, Alexandre, não sei como melhorar os dias deles. E  gostava tanto que me dissesses como…

{sim, já me mentalizei que o portão não se vai abrir para tu entrares. Já consegui encaixar que não voltas. Já consegui fechar um ciclo de tantos ciclos. Já falo de ti em paz. Ou, pelo menos, mais tranquila. Mas não é por isso que me fazes menos falta. Que NOS fazes menos falta.}

365 dias que se encerram hoje.

Um ano amanhã. Já. Ainda. O que for.

Parece que foi ontem. Parece que foi há uma vida.

#day82

Pegar no telefone e ligar para ele.
Ele atende com aquele tom de voz meigo a que já me habituou.
Pergunta quem é. Digo-lhe olá chamando-o por aquele nome que só eu chamo.

E oiço, do outro lado, uma resposta com um sorriso anunciando a quem está por perto: “É A TIA CATARINA KOOKA!”

{e logo depois vem o outro microhomenzinho da minha vida, chama tiiiiia, diz olá, já conversa, diz que está bom mas não está a brincar. E manda beijinhos, muitos, tantos, todos. E diz “xau” e volta a encher o telefone de beijinhos.}

São estes dois, o mini e o micro, os homens da minha vida. Que à distância de um telefonema enchem de cor um dia de chuva ♥1466200_10152591798068800_5514417282082365859_n