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APAV 8 meses depois {parte 3, a última}

Dos dias que contam: hoje, nota de alta. Hoje, última visita ao sítio onde não quero voltar. Mas onde precisei chegar.
Para reaprender a respirar sozinha. Para aprender a aceitar. Para aprender a compreender mesmo o que não tem explicação.

Foram 8 meses. De um apoio que precisei muito. E que, digo sempre, ainda bem que existe. Embora a sua existência se deva apenas e só a tudo o que de mau existe.

A APAV não apoia apenas casos de violência doméstica. Apoia qualquer tipo de vítima e de igual forma. E, aprendi, o que leva à existência da APAV não acontece só aos outros. Até porque os outros podemos ser nós um dia.

Não me identifico como vítima. Embora me digam que sim, não o sou. Sou, sim, familiar de vítima de crime violento. E também nestes casos a APAV está lá. E se sempre pensei que nunca iria precisar de recorrer aos seus serviços, porque como toda a gente sempre pensei que “isso só acontece aos outros”, descobri à força que os outros também somos nós. De um dia para o outro, quando menos se espera, passamos para o outro lado, para o lado “dos outros”. Onde nunca quisemos estar. Onde nunca pensámos que algum dia estaríamos.

Nunca tive problemas em pedir ajuda. Seja em que campo for. Porque ninguém caminha sozinho, porque ninguém sabe tudo, porque ninguém tem sempre resposta. Sempre que precisei de ajuda, pedi. E não me arrependo, em nada, de ter pedido a ajuda certa à instituição certa.

Sei que algumas pessoas me olharam de lado. Outras houve que me criticaram. Duramente. A umas e outras digo apenas o mesmo: fui onde tive que ir, onde precisei, muito, de ir.

Porque não soube, durante 7 meses, lidar com o que aconteceu. Não soube aceitar. Não soube entender. Não soube encaixar e arrumar. E deixei, também, de saber respirar. Tão simples quanto isso: respirar.

Elogio, muito, o trabalho da APAV e a disponibilidade imediata desde o primeiro telefonema. E que foi o que bastou. E a rapidez e prontidão com que me receberam. Bastou receber um telefonema da técnica responsável para ter o acompanhamento marcado para 24 horas depois. Acompanhamento semanal. Com horário de início, mas sempre sem horário para terminar.
Uma hora? Duas horas? Três horas quando foi preciso. E foram várias as vezes em que foi preciso. E foi ali, devagar, que me deixaram ser, me deixaram estar. Me deixaram falar, me deixaram chorar. Me deixaram estar em silêncio. Perguntar porquê. Perguntar “e agora?”. Perguntar apenas. As respostas foram todas dadas por mim. À medida que fui aprendendo a encaixar. A construir gavetas para arrumar assuntos doridos. E a cada nova sessão a certeza que respirava já um bocadinho melhor. E a cada nova sessão a certeza que já me doía menos abrir essas gavetas e enfrentar o que lá está guardado.

Hoje, 8 meses de APAV depois, 15 meses depois daquele dia de Novembro de 2013, respiro, abro gavetas e enfrento e aceito. Ou “aceito” porque há coisas que simplesmente temos que “aceitar” porque nada mais há a fazer. Mas respiro. Estou em paz. Tranquila. Já não fico à espera que o portão se abra. E já aceito que, quando abre, não chega quem eu gostaria de voltar a ver.

Hoje, recordei o primeiro dia de APAV. O quanto me doeu o primeiro passo para descer aquela rampa. O quanto me doeu tocar àquela campainha. O quanto eu não queria entrar naquele espaço. Porque achava que não pertencia ali, porque “só acontece aos outros”. O ar que não entrava à medida que me aproximava da porta. O peso que carregava dentro de mim por não conseguir chorar há 7 meses.
Entrei. Sentei-me. E chorei. Pela primeira vez, chorei. Falei. Fiquei em silêncio. Voltei a chorar. Voltei a falar. Duas horas e meia depois, ao sair, estava mais leve. O ar entrava. E tinha uma certeza: ali vou aprender a seguir em frente.

Hoje saí com um sorriso. Despedi-me com um “não quero cá voltar” e um “muito obrigada por tudo”. Fechei aquela porta atrás de mim, subi a rampa, segui o meu caminho sem olhar para trás. E segura de que, mesmo não querendo lá voltar, sei que quem precisar tem ali um porto seguro para reaprender a viver, para reaprender a respirar, para recuperar o sorriso.

Muito obrigada a toda a equipa APAV. Aos técnicos, aos voluntários, aos funcionários, todos. O vosso trabalho É muito importante. E é feito de coração. Muito obrigada por estes 8 meses, mesmo que alguns bastante doridos. Muito obrigada por me reensinarem a respirar. Muito obrigada por tudo. E em jeito de agradecimento, será para a APAV que irei consignar o meu IRS daqui para a frente, não apenas este ano.


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#day177

Hoje é daqueles dias {noites?} em que a única coisa que queria era sair para beber um café com alguém disponível para me ouvir. Apenas isso: ouvir. E que, eventualmente, me emprestasse um ombro. E me aconchegasse num abraço. Apertado. Sincero.

Hoje é um daqueles dias estranhos. Não sendo um dia mau, não é um bom dia. Cheio de altos e baixos. Altos que me aconchegam por se traduzirem em entrega de algo que saiu das minhas mãos. E isso, essas coisas que saem das minhas mãos, cada vez me aconchegam mais.

Baixos por ser dia de remexer em feridas. Novas. Recentes, mas feridas ainda assim. E, ao remexer nessas feridas, perceber que chegou a altura de eliminar as reticências e passar ao ponto final.

…e por muito que repita para mim mesma que não, não me afectou, a verdade é exactamente o oposto.

Os pontos finais doem. Mais que as reticências. Especialmente quando, para serem colocados, se vomitam palavras sem filtros. Sem filtros mas sem pedras. Apenas com aquilo que pesa cá dentro e que, descobri hoje, afinal dói.

Mas, mesmo não sendo um bom dia, mesmo não sendo um happy day, contabilizo-o. Obrigando-me assim a manter este momento de parar e reflectir. Porque continua a fazer parte do meu processo que agora são vários. Porque apostei, confiei e caí e também disso é preciso recuperar. Um dia de cada vez.

E cada vez mais preciso deste momento de parar e reflectir para não me perder novamente e para me recordar que cada dia conta. E que não quero optar pelo caminho mais fácil que é deixar-me ficar naquele lugar escuro onde estive demasiado tempo no Verão passado e que visito de vez em quando.

Hoje é uma daquelas noites em que a única coisa que precisava era de um colo. Para deitar a cabeça e poder chorar o que dói colocar pontos finais.

E todos os dias, mesmo os maus, têm sempre algo de bom.10403320_10152818412838800_2968998072815484647_n

#day176

Desafios? Aceito-os todos. Mesmo que, por vezes, baixe os braços por um tempo.
Tempo apenas para poder olhar melhor e decidir qual o caminho certo, que não é necessariamente o mais fácil.
Baixo os braços. E muitas, demasiadas vezes, baixo a cabeça. Mas, invariavelmente, sigo caminho. O meu caminho.

Mas venham desafios. Mais. Maiores. Aceito-os todos. Mas especialmente aqueles que são uma aposta em mim.

Desiludir? Não é opção. Tal como desistir. E eu detesto desiludir no mesmo grau que detesto desistir.

“Dreams don’t work unless you do”… ♥10941118_10152816196923800_3654833463295136662_n

#day175

Beijos, beijinhos, beijocas. Abraços e abracinhos. Dos meus homenzinhos, ontem e hoje.

Lamento que haja quem não entenda, mas os meus sobrinhos em primeiro lugar e à frente de tudo. Sempre. Quem não entender, quem não aceitar, faça o favor de seguir o seu caminho que, obviamente, não coincide com o meu.

De resto, a vontade de falar continua lá longe. Mas ainda assim com sorrisos provocados por pessoas de palmo e meio que me preenchem e me aquecem. Os meus Dois. Como lhes chamo quando fazem sanduíche de tia.

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#day174

Há dias assim, a preto e branco com pontos de cor.
E cada vez me fecho mais, cada vez tenho menos vontade de falar.
Fecho-me no preto e branco dos dias sem grande vontade de deixar entrar a cor.

E não, não é bom.10006945_10152812065753800_9044923761786006596_n

#day173

Voltar aqui sempre.
Voltar aqui porque me faz bem. Porque me é quase terapêutico. Porque me faz respirar. Porque me acalma. Porque me aquece mesmo em dias frios.

Voltar aqui um mês e meio depois. Voltar? Sempre. Quase como voltar a casa. Porque há coisas que não se explicam. Vivem-se. Sentem-se. São assim e pronto.

Voltar aqui. Já amanhã. E com o Amor como pano de fundo. Esse tal do A maiúsculo que é tão preciso, tão precioso.

Voltar aqui? Sempre.

#day172

Em modo “segue o teu caminho”, independentemente da margem do rio. Não há margem certa nem errada. Mas há pontes. Ou, quando não as há, há barcos. Ou braços para nadar. Seja como for, “segue o teu caminho”.
E, se for preciso, sabes que ninguém caminha sozinho.10155761_10152807159553800_8602206301962668539_n

#day171

Um ponto, dois pontos, três pontos…reticências. Ponto de interrogação, ainda. Em busca do ponto final.

E todos os pontos são como todos os dias: todos contam.1925088_10152805263958800_2299134181812869722_n

#day170

Em modo “Sing me Soft Kitty”.
{e também de volta do que me faz feliz: tecidos ♥ }

E um bocadinho à nora, confesso.10451679_10152803177768800_2242547511913830228_n

#day169

Habemus esquentador. Daqueles que duram uma vida e que, pelo que sei, já percorreu várias vidas.
Obrigada a quem ajudou a tentar encontrar um. Obrigada a quem me fez chegar esta maravilha. Prometo que vai ser muito bem estimado até ser substituído por um definitivo para que este “foguetão” regresse a casa ♥
Já está entregue e quase pronto a usar. Já só faltam dois fuínhos. Que são dois buaquínhos na paêde

Temos também uma Lua Cheia linda. A ver se me dedico novamente a ela para reencontrar o meu rumo.

Temos também respostas a perguntas. Respostas que me são tão importantes. E pelas quais sou tão grata.

Temos também, ou continuamos a ter, dúvidas e receios. Mas a seu tempo terei as respostas.

E temos mais um dia. Que já passou.1549441_10152800636143800_8879383997721939335_n

#day168

Ainda que a preto e branco, todos os dias contam.
Com ou sem histórias. Com ou sem História.

Dúvidas, medos, memórias. Tudo faz parte. Mas as dúvidas e os medos estão prestes a serem resolvidos. Ficam apenas as memórias.

E cada novo dia conta. Sempre.

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#day167

Belém. Relação de amor/ódio. Boas e más memórias. Bons e maus momentos.

Belém. Provavelmente a feira que mais me esgota. Emocionalmente mais do que fisicamente. Onde de todas as vezes juro a mim mesma que não volto. Mas acabo sempre por regressar mais cedo ou mais tarde. Para me esgotar. Para voltar a jurar que não regresso.

Dia estupidamente estranho este, de regresso depois de 3 meses e meio de ausência. Estupidamente dorido. E doído. E carregado de memórias menos boas num dia menos bom.

Dia dorido e doído, este. Em que me sinto minúscula, com necessidade de colo, sem vontade de falar. Sem vontade de ouvir. Sem vontade de sentir.

Mas, no meio de tudo isto, uma visita rápida e nova, pequena no tamanho mas enorme no coração e com gestos sem tamanho.

E isso, no meio do dia de hoje, valeu por tudo o resto e um not so happy day tornou-se um little bit happier.

{e são seis meses de algo que não se explica, seis meses depois de 42 dias que teimo em continuar a contar. Seis meses em que me interrogo se as memórias são apenas minhas. Se. Se. Se. Seis meses que são 184 dias que parecem ser 184 minutos.}10915337_10152795505098800_1076020490440392116_n (1)

{6 meses}

6 meses hoje.
184 dias.

E não há pormenor que não me lembre desse dia.
E não há dia em que não pense, não sinta, não reviva tudo.

Dói hoje como há 184 dias.

Quanto tempo demora o Tempo a fazer aquilo que o Tempo faz?

{and I always wonder if you still remember, you even think about it…}

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