#day293

O carro do jacarandá. Não veio de nenhum casamento, veio da feira.
E recordo-me do dia em que, no mesmo jardim, há uns anos e uns metros mais atrás, no final de um dia imenso de feira, o carro não estava lilás e sim rôxo das amoras que o vento trouxe dos ramos altos.
Rôxo o vidro, rôxo o carro. Com uma camada de algo que quase me atrevo a chamar de compota.
Directo para a lavagem automática mais próxima. Com cuidado, a visibilidade era demasiado reduzida. O limpa-parabrisas não foi suficiente para abrir caminho.

Hoje ficámos em tons de lilás. Sem necessidade de lavagem urgente. Sem compota. Sem riscos no caminho. Perfumado por fora. Decorado com toques daquilo que mexe cá dentro e que só eu entendo.

O carro do jacarandá, que já foi das amoras. E que me faz pensar. Que as escolhas que fazemos trazem, sempre, consequências. E é preciso escolher bem. Mesmo que seja apenas o local para estacionar. Porque, afinal, uns poucos metros podem fazer toda a diferença.

A cabeça não desliga, ao mesmo tempo que acompanha o duelo interno entre o que é e o que não é, o que podia ser mas não é, o que não podia ser mas é. Duelo entre escolher o estacionamento debaixo da amoreira e arriscar a reduzida visibilidade ou avançar poucos metros para acolher o perfume do jacarandá.11390162_10153088486283800_5439110448998497066_n

{comentários}

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.