#day294 {que na verdade é #day295}

Há quem tenha uma facilidade grande em fazer amizade com arrumadores de carros. Ainda não percebi porquê, mas eu tenho. Não com todos, mas com a maioria. E gosto disso. Porque os trato bem, porque me tratam bem. Porque nos tratamos de igual para igual. E acho que o que me leva a fazer essas amizades são os sorrisos com que me recebem, mesmo que seja a primeira vez. Os outros, os que não me sorriem, dificilmente lhes aceito o lugar que me indicam, a menos que não haja mesmo alternativa. Mas ficamos por aí.

Não que com os outros haja cafés e convívios, não é amizade por aí. Mas há outras coisas. Eu dou-lhes sorrisos e simpatia (e por vezes algumas moedas) e em troca o Alexandre chamava-me à janela do escritório no Príncipe Real quando vinha a EMEL e levava a chave do carro para colocar o ticket. Ou, quando chegava atrasada, dizia-me “não se preocupe, Doutora, o patrão ainda não chegou”.

Já o Zé António carrega-me os sacos do supermercado, ou troca-me lâmpadas do carro, “mas venha comigo à loja que eles fazem mais barato por ser para mim”. Também troca filtros do ar, “venha comigo à loja”, muda-me o carro de sítio porque ficou em segunda fila e ele ficou com a chave. Ou simplesmente me diz “olá, já não a via há tanto tempo. Está tudo bem?” ou quando desaparece uns dias faz questão de dizer com um sorriso “olhe que o arrumador não morreu!”. E também me oferece garrafas de vinho “ofereceram-me, mas eu não quero beber. Acho que vai gostar”.

Ou o Lotzi, um ex-militar húngaro que pouco faltou para me pedir directamente em casamento mas que fez passar a mensagem, mesmo tendo idade para ser meu pai. E que me contou aventuras de quando estava no activo. E que me disse “nõ mete moeda, Pequenina, eu tomar conta. Eles de Emel todos da meu país. Nõ mete moeda, Pequenina”.

O Sr. Paulo, que na realidade se chama Amílcar, que faço questão de tratar por senhor, que nos recebe a horas impróprias no Jardim da Estrela. Que noutros tempos nos dizia “a vocês não peço moedas porque sei que estão aqui para ganhar a vida”. Hoje lá vai pedindo, mas só de vez em quando. Mas que ao domingo pergunta sempre como correu o sábado e dá-me o feedback do seu dia de arrumador. E tanto ao sábado como ao domingo remata com “então vá, boa feira para vocês!”

Há ainda aquele outro rapaz que ao fim de dois anos ainda não lhe descobri o nome. Mas que sempre que me vê o carro me sorri. E se há lugar prontamente o indica. Se não há encolhe os ombros e pede desculpa. Hoje havia, logo ali. E enquanto eu arrumava as coisas na mala, apressada para a consulta, vi-o de volta do carro. “Não se assuste, estava só a pôr-lhe as borrachas dos frisos do tejadilho para baixo. Tem que pôr ali um bocadinho de cola.” Ou simplesmente tirar as borrachas, não estão lá a fazer nada, respondi-lhe a rir. “Tem razão”, riu ele também.

Gosto de pessoas assim, como o Alexandre, o Zé António, o Lotzi, o Sr. Paulo que é Amílcar e o “rapaz sem nome”. Que me recebem bem, com ou sem moedas em troca. Porque tantas vezes não há moedas para troca. Mas quando há não me incomoda dar-lhes. Simplesmente porque sou bem recebida.

E, numa nota completamente diferente, há os patos. E a minha cada vez maior aproximação à bicharada. E hoje fui surpreendida por uma dúzia de patos que quero ver crescer. Mesmo sabendo que o destino lhes será acompanhado de arroz. Mas enquanto não chega a hora vou conhecendo e talvez lhes dê nome. Para já penso em algo tão básico quanto Patinhas, Donald, Gastão, Margarida, Huguinho, Zezinho, Luisinho, Peninha, Patacôncio, Donalda, Biquinho e falta-me um habitante de Patópolis para nomear os doze. Quem sabe o Smelly, o gato, se lembre de alguém ♥11427231_10153092608283800_5191945595856473786_n

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