Monthly Archives: July 2015

#day331

Onde há uns meses via tons de cinzento escuro e tempestades, hoje vejo cores e calmaria.

Porque em paz. Porque com certezas. Não sou eu que estou errada, sei-o hoje. Duvidei há 6 meses. Já não ponho essa hipótese.

Paz em mim. Paz comigo.

#day330

O dia 330 foi (e continua a ser) dedicado ao trabalho. Para desligar a cabeça, nada melhor do que esfolar-me a trabalhar. Uma bolha com mais de um cm que rebenta e esfola a pele por causa do uso de um cortador 228 vezes.

Porque, se não fosse isso, o que vai nesta cabeça iria doer muito mais. Porque aos 330 dias percebo, finalmente, que me esqueci do que achava ter aprendido aos
163. Mas, desta vez, fica o registo físico para que a memória não me traia novamente.

“E aprendi. Ou recordei. Ou reafirmei. O que quero mas, mais importante, o que decididamente não quero.”

Note to self: à primeira, qualquer um cai; à segunda, só cai quem quer.

Não, não vai haver uma terceira. Porque hoje sou eu quem diz “não estou para isto”. E mereço tão mais que isto. E sou tão mais importante que isto.

Por isso, siga. Em frente, sempre. E sem olhar para trás.

#day329

Hoje, dia de ressaca pós-navio.
Hoje, dia de assinalar uma década de um projecto que é meu.
Hoje, dia em que não me apetece muito mais para além de fazer ronha.

Amanhã, dia de regressar à normalidade =)

#day328

O Embarkation Day foi paixão à primeira vez.

Não me peçam para explicar porque é que é giro ser runner num posto de check in e ficar ali, horas a fio em pé, à espera que alguém precise de preencher um papel que a grande maioria já entregou. Ou distribuir o Health Questionnaire a quem vai chegando. Ou, como mais recentemente, apenas lê-lo, ainda que centenas de vezes, e aguardar as respostas ao mesmo tempo que se acompanha a fila de pessoas e malas.

Não me peçam para explicar porque é que é giro recolher passaportes logo após o posto de fronteira, sentindo o vento gelado de Inverno que entra por aquela porta que nos leva à Terra de Ninguém.
Ou, já em ambiente de temperatura condicionada nas entranhas do navio, etiquetar centenas de passaportes ao mesmo tempo que se sente o tremor dos motores que movimentam aquele edifício marítimo. Para, logo em seguida, partir naquele labirinto interior da Conference Room para a sala do Phone Operator para fazer a leitura digital dos documentos etiquetados e terminar colocando 900+ passaportes por ordem alfabética.

Podia dizer que é o almoço no Bistro com vista para o Tejo. Ou para os contentores da Gare, conforme posição de atracagem. Mas o almoço é sempre o mesmo: salmão fumado, carnes frias, fruta da época que tantas vezes está verde, pão de cereais, sumo de laranja ou maçã.
Ou pelas sobremesas, tantas vezes quase intragáveis porque a cultura gastronómica é tão diferente. Com clara excepção para o cheesecake de limão, daquele cheesecake americano que vai ao forno e que, para mim, é “O” cheesecake. Ou as mini tarteletes de morango que se desfazem na boca.
Podia até ser pelo Red Velvet Cupcake, o único que até hoje me convenceu. Ou as típicas bolachas americanas.

Podia tentar explicar tudo isto e justificar com o Bistro. Mas não…

Porque, ao fim de alguns anos de Embarkation Days esporádicos, vieram os Debarkation Days.

E também aqui vos peço para que não me tentem entender quando digo que gosto, muito, de acordar às 3 da manhã para entrar na Terra de Ninguém às 5 e abandonar o navio às 19h30 como em Maio. Ou acordar às 5h30 para orientar desembarcados a partir das 7h30. Sendo que, num caso ou noutro, até às 10h temos que nos manter ali, em pé, ao sol e já com um calor abrasador, de sorriso no rosto para indicar “Pink 1, this way please” ou “Brown 4, the last row to your right” e ver que, de repente, as centenas de malas que estavam atrás de nós alinhadas e ordenadas desapareceram porque os mais de 900 passageiros já estão de regresso a casa.

Podia tentar explicar que uma hora é mais do que suficiente para descansar os pés doridos de tantas horas em pé e com calor, é suficiente para sentar um bocadinho e ganhar novo fôlego para, às 11h, iniciar o Embarkation Day. E às 11h rumamos ao navio depois de nova passagem no posto de fronteira com pórticos de raio-x e detectores de metais, identificação entregue à entrada ao Conciérge do navio de apelido Fernandes natural de Mumbai.
É regressar às entranhas daquele monstro recheado de quartos que são cabines, suítes, salas de reuniões, halls com slot machines, lojas de roupa e jóias, um piano de cauda transparente e um quarteto de cordas, um deck twelve, o mais alto, com restaurante em cima do Tejo e piscinas para vários tamanhos.

É chegar a casa depois de 14 horas e meia ou apenas 10, moída, cansada, dorida, mas com um sorriso.

Podia tentar explicar porque é que, se já gostava do Embarkation Day, agora que vem antecedido pelo Debarkation ainda gosto mais. Mas há coisas que não se explicam. Sentem-se, apenas.

Posso, no entanto, garantir que não é pelo café. Americano. Que, mesmo em formato espresso, é impossível de beber. Nem tampouco pelo fato preto+camisa branca+lenço de seda ao pescoço que me deixam com ar de adulta séria mas que não sou eu. 11141182_10153166335573800_6918244566090493868_n

#day327

É tristeza. Uma espécie de desalento. Uma espécie de frustração. Por não entender, ainda hoje, o que há uns meses tanto questionei sem obter resposta.
Encerrei o capítulo assim, sem resposta e aceitei não saber. Decidi não querer saber. Decidi não querer mais.

Mas de repente a História retomou o seu curso como se aqueles meses, que foram três, não tivessem acontecido. Para, agora, novamente três meses depois, ter novamente as mesmas perguntas acrescidas de um punhado de outras novas.

É. É tristeza, sim. Desalento também. E sem dúvida que será frustração também. Porque me responsabilizo sempre, mesmo quando a responsabilidade não é minha. E as perguntas que faço questão de fazer novamente temo que novamente fiquem sem resposta.

Eu, que preciso de perceber. Tudo. Como funciona um automóvel ou como se faz crochet mesmo que não me vá ser preciso para nada esse conhecimento. E, acima de tudo, preciso de saber porquês.

Até lá, concentro-me no que me preenche, me faz bem, me acalma: o trabalho.

E sim, são estas as linhas com que me coso.11178066_10153164218048800_8488030171371612148_n

#day326

Há conversas cá em casa que, volta e meia, se repetem. A última, a de ontem, hoje não me largou todo o dia.
Ingenuamente cheguei a pensar, há uns tempos largos, que não seria necessário repetir porque o motivo dessas conversas estaria longe.

Não está, afinal. E ontem repetiram-se as perguntas. Especialmente a mais ouvida, “porquê isto?”, que nunca tinha tido resposta a não ser silêncio. Mas ontem teve. “Não sei”. E eu sei que não sabes. Acredito nisso. Porque nem eu sei. Nunca soube.

Acrescentei uma nova pergunta que me assaltou há uns dias, “desde quando?”. E a resposta, sincera, foi novamente “Não sei”. E acrescida de “vocês parece que têm uma barreira que vos separa”.

E temos. Desde sempre. Ou desde aquele momento em que nem tu nem eu sabemos identificar no Tempo.

Mas sei, eu, e tu também, que eu apenas reajo. Voltei a lembrar-te, uma vez mais, que o modo como ajo com os outros, sejam os outros quem forem, é apenas o reflexo da forma como os outros me tratam. Pela primeira vez concordaste.

Falámos do meu feitio. Que, sei, nem sempre é fácil. Especialmente em momentos de tempestade como agora. Em que rebento facilmente. “Acção -> reacção”, digo-te. E eu sei que me entendes. E me aceitas tal e qual assim, como sou.

Sei que nem toda a gente entende o meu feitio. E disse-te que há quem me pinte de forma mais negra do que na realidade sou, julgando que me conhece quando não conhece nada. Para quem o outro lado sempre foi o Mar da Tranquilidade enquanto eu nunca fui mais do que o Cabo das Tormentas.

Vi a tua desilusão, vi-te magoada quando me perguntaste “disse-te mesmo isso? Assim?” e te confirmei que sim, foi essa a comparação. Riste sarcástica, respiraste fundo e disseste-me, segura de ti, segura de mim, “as pessoas não te conhecem. Acham que sim, mas não te conhecem de todo”.
Desta vez fiquei eu em silêncio. Não soube o que responder. E percebi que ias continuar a falar. De mim. Para mim. Abertamente. “As pessoas têm medo da tua frontalidade. Porque tu és assim, frontal, desde pequenina. Sempre disseste tudo, apontaste erros e falhas. E ninguém gosta de ser confrontado com os seus erros. Mas tu sempre foste assim e continuas a ser. Não queiras ser de outra forma, porque esta és tu”.

E foi aí, foi aí, Mãe, que tantas peças se encaixaram, tanta coisa começou a fazer sentido.

Obrigada, Mãe. Por tudo. E, especialmente, por me aceitares como sou e me pedires para não ser de outra forma.11709851_10153162599093800_4446612950074340374_n

#day325

Cores? Quero-as todas. Mas há uma que supera todas as outras.

Seja nos lápis, seja no mundo lá fora.11693812_10153160564108800_5614566156236422988_n

#day324

{ainda em modo ventania. Hoje peço as palavras emprestadas. Porque “por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos”…}

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira11667256_10153158465128800_4336915795141401305_n

#day323

Dizem que faz bem. Ando desde Agosto a tentar resistir-lhes. O mau humor de hoje fez-me entregar os pontos.

O desenho é proporcional ao mau estado de espírito de hoje. Porque há quem tenha memória demasiado curta. E com tendência a achar-se com o Rei na barriga e que todos lhe devem subserviência.
Lamento. Para esse peditório já dei. Durante muitos anos. E há quem simplesmente não mude, não consiga ser melhor.

A não esquecer: voltar a pôr-me de parte para benefício de terceiros? Já chega.

Preciso, muito, de tempo para mim. Volto à velha questão dos outros. Tenho que estar sempre disponível para os outros. E de preferência com um sorriso. Os outros sempre em primeiro lugar. Porque se impõem, não porque eu quero. Mas quando preciso que esses outros me dêem o espaço que preciso, o tempo que preciso, quando preciso, não acontece. Nunca percebi realmente porquê. Mas é sempre assim. E ando há meses a dedicar o meu tempo aos outros, dispendendo tantas vezes do meu tempo que devia ser usado a trabalhar {quantas vezes……} ou a usufruir de tempo livre só para mim. Já chega. Importam-se que possa parar de estar aí para vocês, os outros, quando preciso mesmo muito de me dedicar unicamente a mim…?

Ainda assim, ao chegar ao final do dia, prefiro lembrar-me do que foi bom ao longo deste dia de tempestade.

Agora? Venha daí mais uma noitada de trabalho para compensar as muitas horas que me fizeram perder hoje.11665444_10153156527683800_2784652348167467906_n

#day322

São dois. São meus. Sempre. Para sempre. Os meus Tudo.

De férias em casa da tia. E só eles importam. Meus. Para sempre.

{note to self: nada mais importa que não estes meus Tudo. Refocus. Please refocus.}11659226_10153154420903800_2666292636118731823_n

#day321

Cada vez mais: os bichos e as crianças.
Cada vez menos: as pessoas de idade adulta.

Hoje de manhã o dia acordou azul. Mas rapidamente choveu. Grande parte da manhã.
Ainda assim agradeço a honestidade que pecou por tardia. E que, tardia ou não, me recordou que sim, eram apenas moinhos de vento. Só eu insisti em {querer} ver de outra forma. Mas também, em grande parte, porque foi de outra forma que esboçaram o que, afinal, eram apenas moinhos de vento.

Mas depois há isto: as crianças e os bichos. O Nuno que me acompanhou grande parte do dia como se fosse um guarda chuva mantendo-me seca. O Jungle, um cão de montanha dos Pirinéus com o seu tamanho imponente e doçura proporcional ao tamanho que encostou a sua testa à minha, aninhou o focinho no meu ombro, encheu-me de mimos e sussurrou ao meu ouvido “vais ficar bem, vai ficar tudo bem”.

Sim, há magia naquele jardim. Sim, cada vez mais os bichos e as crianças. Sim, perdi o Norte. Sim, vou reencontrá-lo em breve. Porque mereço melhor.11403356_10153152148833800_487555159713000251_n

#day320

A magia existe. Já o disse aqui tantas vezes. E já disse aqui também tantas vezes que o Jardim da Estrela está carregado dela.

Se dúvidas houvesse, hoje teriam acabado.

Um dia que amanheceu cinzento. Não apenas o céu mas eu mesma também em tom de cinza escuro depois de mais uma noite em branco a ouvir os sussurros dos meus demónios que insistem para que voe. A minha luta com eles. Os diálogos na minha cabeça que não chegam a ser diálogos, apenas monólogos, porque não chegam aos destinos. Adormecer, finalmente, perto da hora de acordar, sempre às voltas com o desassossego.

Sair de casa tão mais tarde do que era suposto porque o peso do desassossego e da noite agitada, em branco, me prendia os movimentos.

Seguir caminho a custo, acompanhando as nuvens cinzentas como eu, a ameaçar chuva como eu. Não conseguir falar a ninguém à chegada, porque o nó na garganta apertava e ameaçava desfazer-se em pranto.

Recusar as brincadeiras matinais habituais que começam ainda no café ao pequeno almoço. E dizer quase sem pensar, de olhos molhados, “hoje não, pára com isso ou mando-te à merda”. Sufocar o choro que quis rebentar ali e rematar com “só não te mando já à merda porque tenho memória” e perceber na troca de olhares que a mensagem foi recebida e entendida. Porque não me esqueço e sou grata, muito, por aquele abraço naquele dia em Belém em que tudo começou a terminar.

Evitar, a todo o custo, falar. Evitar, a todo o custo, levantar os olhos do chão para que não se visse a chuva que ameaçava cair.
Entrar no Jardim……

……entrar no Jardim e tudo começar a mudar. Montar a banca em piloto automático rapidamente. Depois de tudo pronto recolher-me para o meu nicho. Uma espécie de ninho na base de uma árvore. Aquela cuja espécie desconheço mas que já chamo de minha.

Sentar-me no chão, como sempre, encaixar-me, literalmente, naquele nicho e deixar-me ficar. E o céu a ficar azul e eu a perder o cinzento escuro. As nuvens que desapareceram e os meus olhos que secaram.

Regressar lentamente pelo peso do sono e já não do desassossego ao meu posto. E dar por mim, de repente, a alinhar nas brincadeiras que tinha recusado pouco tempo antes, retomando a normalidade.

É ali, sem dúvida, que me encontro. Que me liberto de tantos pesos, que acalmo desassossegos.
É ali que o céu passa de cinzento a azul, lá fora e cá dentro.

É ali que me alimento do que me traz paz. Que me escapou por momentos, dias, mas que faço questão de manter agora que está a regressar. É ali, também, o meu porto de abrigo.

E é moída e cansada que hoje me deito sem diálogos que são monólogos, sem fantasmas que se apresentam e sem demónios que me sussurram para que voe.

Hoje? Durmo em paz. Porque a magia existe.10568959_10153149863008800_4710281386355455737_n

{desassossego}

de·sas·sos·se·go |ê|
 substantivo masculino
 1. Inquietação.
 2. Perturbação de ânimo.

 "desassossego", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/desassossego

É aquela inquietação que tem vindo a subir de dia para dia, quando tudo o que queria era manter aquela Paz que fui conquistando. É aquela perturbação de ânimo que se tem vindo a sentir de dia para dia, quando tudo o que queria era manter-me positiva e tranquila ao fim de tantas tempestades.

Inquietação que me corrói por dentro, que me amassa, que me faz voltar a não querer dormir. Porque, mesmo não querendo, acordou os fantasmas que vivem no interior da minha cabeça. E com os fantasmas vêm os demónios. Que me sussurram planos de vôo, que me dizem para os ouvir, que me incitam a criar asas. Que me fazem tremer novamente, porque sei que continuo a dar-lhes ouvidos mesmo que já saiba que daquelas vozes, que por vezes parecem doces, nada de bom vem.

Voa!, dizem-me. Mas eu não quero. Não o vôo destes demónios que me visitam quando a inquietação os acorda. Os fantasmas, esses, não me assustam. Apenas estão lá para me lembrar do que passou, do que foi, do que afinal não foi, do que podia ter sido mas afinal não. Esses, os fantasmas, não me sussurram, não me cantam, não me encantam. Mas os demónios…esses riem-se, divertidos. E dizem-me que voar é bom. E quanto mais alto melhor, dizem-me eles. Oiço-os tantas vezes, demasiadas vezes, a rirem ao meu ouvido, divertidos, e a garantirem-me que voar é bom. É libertador, dizem eles. Mas eu não quero. Não os quero ouvir. Mas oiço. E mesmo que não lhes faça a vontade, mesmo que não lhes obedeça, sinto-os muitas vezes a empurrarem-me. A puxarem-me do lado de fora do abismo. Para junto deles. E continuam a rir e a cantar.

Os demónios, mesmo quando estou junto ao chão, dizem-me para voar. Porque há tantas formas de voar. Mas eu não quero. Quero voltar a sentir-me de pés no chão, ainda que a cabeça seja um bocadinho de vento por vezes. É no chão que quero sentir cada um dos meus passos, cada um dos meus movimentos. Não quero conhecer a vertigem do vôo que os meus demónios me garantem ser tão boa. Não quero. Mas não consigo silenciá-los. Não agora. Já não.

E cresce a inquietação. E com ela regressam os diálogos na minha cabeça. Que não passam de monólogos, é certo. Porque nunca chegaram, nunca irão chegar, aos destinos. Os diálogos onde te digo, tantas vezes, que a culpa não é apenas minha, é também tua. É dos dois. Ou quando te digo, a ti, que acreditei demais, confiei demais, aceitei demais. E que, se calhar, sonhei demais.

Os diálogos, que nunca irão chegar aos destinos, aconchegam os meus fantasmas, alimentam os meus demónios. E o desassossego que trago, novamente, cá dentro, perturba o ânimo, tolda-me o pensamento, deixa-me com dúvidas quanto ao próximo passo. Se em frente, de pés no chão, se para cima com a vertigem do vôo. Não. Não. Não. Não quero a vertigem. Não quero o vôo. Não quero estar, novamente, à beira do abismo. Porque, desta vez, sei que é tão mais fácil saltar. E eu nunca gostei do caminho fácil. Mas oiço os demónios a rir, contentes, felizes, e quase acredito neles. Quase confio neles. Quase quero dar-lhes ouvidos.

Os fantasmas e os demónios regressam sempre que me falta a luz de presença. Que neste momento não sei onde está. Onde encontrá-la. Não encontro farol que me guie. Abre os olhos, dizem-me, e vê. Está mesmo aí. Mas o único farol que vislumbro está apagado. Nunca teve a luz que julguei que tinha, que acreditei que lhe tinha visto. Não passava, essa luz, de um reflexo do que eu mesma procurava. Não era luz própria, não era luz de presença. É, por isso mesmo, um farol em que não posso confiar, porque pela ausência de luz própria ora o vejo como um todo e o reconheço, ora fico na dúvida se sequer existe.

Falta-me a luz. Mas não a quero procurar. Arrisco-me a confundir-me novamente. E em vez de uma luz de presença que julgo ver, posso encontrar as luzes de uma pista de aterragem de um vôo que não desejo mas que os meus demónios me garantem ser tão bom.

Tenho saudades de estar novamente em paz……paz que deixei escapar não sei quando nem sei porquê. Que trazia comigo e acreditava estar tão sólida, mas que afinal me era tão frágil ainda. E o tempo passa e olho para trás, um ano, é o suficiente, e recordo tudo. A ansiedade que me consumia, que me fez perder o Norte e me levou a procurar não sei bem o quê e que encontrei não sei bem como. A dúvida que veio depois. A certeza. E tudo o resto que veio daí. E a dor. Acima de tudo a dor. Não quero nada disto para mim novamente. Mas os meus fantasmas estão cá para me recordar de tudo. E os meus demónios a insistirem comigo para voar. Acaba-se o desassossego, dizem-me eles. E eu quase acredito. E quase confio. E quase quero voar. Quase. Quase. Quase. Não quero! Não. Não quero. Não quero este vôo. Mas, ao mesmo tempo, não quero reviver datas. Não quero revisitar memórias. Não quero nada disto. Não quero chorar novamente, mesmo que os olhos se inundem ao mesmo tempo que escrevo o que não quero. Não quero sentir tudo de novo, mesmo que agora seja unicamente a memória a fazer-se sentir. Não quero reviver os dias de Julho. E os meus demónios insistem, voa! Voa e não sentirás nada nunca mais. Não quero voar! Mas também não quero o Verão. Não quero os dias 18, 20, 22, 25, 28, 31. Não quero nada disto. Sei as datas de cor, sem olhar para cábulas, recordo-as todas. Mas não quero voar.

Quero, novamente, a paz que já encontrei e que sei que existe. Falta-me a luz de presença. Falta-me a âncora para me manter no lugar, falta-me a mão para me manter à tona, falta-me a bússola para me mostrar o Norte. Não, o caminho não é voar. É manter os pés no chão enquanto dou um passo de cada vez. Mas, para isso, preciso de não me afundar novamente…

……e, só por isso, por estar prestes a descarrilar, digo baixinho para mim mesma: preciso de ajuda.

#day319

A precisar, muito, de soltar amarras. De largar o que foi e já não é. O que nunca foi. O que quase foi. O que nunca chegou a ser.

A precisar de silenciar os diálogos na minha cabeça, que são, na verdade, monólogos. Que gostaria que pudessem ser ou ter sido diálogos.

Soltar amarras, sim. Mas, ao mesmo tempo, largar a âncora para não me perder por aí novamente. Para não regressar a mares turbulentos de tempestades internas. Onde já estive, onde ameaço voltar. Não quero. Não quero este rumo. Preciso novamente encontrar o Norte. O meu Norte. O meu porto de abrigo. A minha Luz de Presença. Voltar a ter os pés no chão.

Por agora respiro. Inspiro. Expiro. Não custa, hoje. Custava há um ano. Custou durante tanto tempo.

Não custa. Custa, sim, o peso da memória. O peso dos dias que passam, que já passaram, que vão continuar a passar. Custa, sim. Custa lembrar-me todos os dias. Mesmo que não fale deles.

Solto amarras. Lanço a âncora. Mas preciso, também, de cordas que me mantenham à tona. Antes que precise delas, novamente, para me içarem.

Um dia de cada vez, novamente. Um dia. De cada vez.

Amanhã? Vai voltar a ser melhor que hoje. Que, ainda assim, foi apenas desassossegado, não exactamente mau.11666071_10153147001393800_445327065294432709_n

#day318

Já fui muito feliz aqui. Um dia volto a participar. Hoje ainda não foi o dia.

Mas foi dia de visita. Quase de médico, com muita pena minha. Precisava de mais tempo. Para isto e para tanto mais…para mim, por exemplo.11692480_10153145107813800_2189336864046784056_n

#day317

Como assim, já estamos na 2a metade do ano? Tempo, vai mais devagar…

{não adianta olhar para trás. Mas não posso – nunca – esquecer-me do “antes do final de Fevereiro” e do depois…*stay focused, please*}11228049_10153143328113800_7736444635539769656_n