#day382

Dou por mim a esquecer-me das cores.
Dou por mim envolta numa espécie de bruma sem cor.
Dou por mim numa fuga ao que me rodeia, escondendo-me do Mundo, escondendo-me dos outros, refugiando-me no trabalho.

Falta-me, vou percebendo, tudo o resto. Os outros, o Mundo, eu própria. A cor. As cores.

Falta-me, um bocadinho, a vontade de sair da bruma. Porque é mais fácil ficar por aqui. Sossegada. Quieta. Sem atrapalhar. Sem pesar a ninguém. Nunca o quis ser, um peso. E fui. Não quero ser mais.

Deixo-me ficar quieta. Em silêncio. Sem borboletas nem saltaricos nem cantorias nem cafés ou copos de vinho. Sem bolas de sabão nem conversas de horas sem rumo que falam de nada e tudo. Sem jantares, lanches ou almoços.

Deixo-me ficar. Em silêncio. Com uma vontade louca de pedir desculpa por nada e por tudo. Com uma vontade louca de dizer sim e de dizer não. Com uma vontade louca de distância do que não me faz bem e uma vontade louca de tocar, pele com pele, tudo o que me faz bem.

Dou por mim nesta bruma sem cor. Sem som. Sem toque. Sem pele.

Mas dou por mim, também, a deixar passar os dias. Um atrás do outro atrás do um. Porque, aprendi, o Tempo ajuda. Não cura. Mas atenua. E dissolve a bruma. E devolve a cor. As cores.

Não é tristeza. É, apenas, uma espécie de melancolia. E também isso irá passar.

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