{dos sonhos}

Os sonhos trazem-nos mensagens, dizem. Dão-nos respostas. Ou apenas pistas. 

Esta noite sonhei contigo.

Não me lembro de alguma vez ter sonhado contigo. Não significa que nunca tenha acontecido, simplesmente não me lembro. Como não me lembro da maior parte dos meus sonhos. Mas esta noite sonhei contigo. E lembro-me. Bem demais. Ao ponto de revisitar esse sonho durante todo o dia, como se fosse um video em loop na minha cabeça.

Lembro-me de cada pormenor. De onde estávamos. Do que aconteceu. De como aconteceu. Do que veio pelo meio. De como terminou entretanto. Lembro-me de tudo.

…e, talvez por causa do sonho, lembrei-me todo o dia que não me lembro de te ver sorrir. Ou melhor, de te ver sorrir muitas vezes. Lembro-me de pequenos sorrisos, aqui e ali. Mas não me lembro do teu sorriso. Acredito que terás um sorriso como todos os sorrisos: bonito.

No meu sonho sorriste. Acabaste por sorrir, no fim de tanta confusão, de visitas inesperadas que não vieram por bem, que nos encontraram desprotegidos de todo o mal que existia lá fora, fora daquela casa que não reconheço, que não era minha nem era tua, mas era tua na mesma. Acabaste por sorrir, no fim de lutas pelo espaço que era nosso mesmo não sendo, naquele Tempo que era apenas dos dois.

…e, agora que penso nisso, não me lembro do som da tua gargalhada…

No meu sonho não riste. Não houve motivos para rir. Muito pelo contrário. Não sendo um pesadelo, não foi um sonho tranquilo. Não sei como lhe chamar, mas não lhe chamo pesadelo. Porque de início era o que era, éramos os dois a ser o que sempre fomos. Até que aquelas personagens, aqueles quase desconhecidos, nos abordaram numa casa que não era a tua, mas era tua na mesma.

Lembro-me de sentir. Nos sonhos também sentimos. Senti-me bem, como me sinto sempre contigo, para de seguida sentir medo. Terror. Não sei quem eram. Sabia no sonho. Sabia quem eram não sabendo. Sabia para o que estavam ali. Fugiam. Fugiam para se esconder, não para sobreviver. Fugiam de algo de mal que tinham feito fora daquelas paredes, para lá daquelas portas e janelas que abriram e passaram. Fugiam para se esconder ali. Ameaçando-nos quando nos encontraram. Ali, desprotegidos. Só os dois. Porque era só dos dois aquele espaço, aquele Tempo.

Lembro-me que me protegeste. Que me prometeste que tudo iria acabar bem. Porque sabias quem eram, conhecia-los de infância ou juventude, já não sei. Sabias como convencê-los a irem embora. Prometeste-me que não nos iriam fazer nada. Se ficássemos em silêncio, esquecer-nos-iam e depressa partiriam dali. “Vão ficar só mais uns minutos” disseste-me. Quis encará-los. Dizer-lhes que não tinham que estar ali. Que se fossem embora. E foi nessa altura que me disseste para não o fazer. Olhaste para mim e vi nos teus olhos que a razão pela qual não querias que lhes falasse nada mais era do que medo. Do que me pudessem fazer. Porque, sabias, era perigoso enfrentá-los. E vi, aí, nesse momento, que eu era para ti mais do que aquilo que sempre pensei que fosse.

Nos sonhos também sentimos. E também lemos os silêncios. E ouvimos os olhares. E senti. E li. E ouvi. Tudo o que até esse momento nunca me tinhas dito. Por algum motivo, era eu quem estava em perigo no meu sonho. Mas foste tu quem se desarmou. Por mim. Para mim. E aí, aí disseste-me aquilo que sempre quis que me dissesses. O sim em vez do não. Não que também nunca disseste, nem talvez. Apenas nunca disseste. Mas ali, no meu sonho, disseste-me tudo o que estava guardado. O que, disseste-me também, não querias ter admitido para ti próprio antes. E que foi ali, naquele momento, naquele medo, naquele terror, que ganhaste coragem para admitir para ti. E, como isso, já depois do perigo ter passado, admitiste para mim.

Lembro-me, ainda antes disso, de como me tocavas. De como mexias no meu cabelo. De como arrepiavas o meu braço. De como me olhavas. Como olhos que olham para além do que é visível. Como olhos que despem a alma.

Lembro-me, durante aqueles piores momentos, dos teus braços ao meu redor, como que a esconder-me. A proteger-me. Para que eles, aqueles que vieram, não me vissem, não me percebessem ali, não me fizessem seja o que for que sabias que fariam.

Lembro-me, depois de tudo isso, depois de admitires para ti, depois de admitires para mim, lembro-me da tua testa colada à minha e num sussurro dizeres-me que agora era o Tempo certo. Era agora, não antes. Nem depois.

…e lembro-me que nem nesse momento me lembro de ver o teu sorriso. Sei que sorrias. Mas sei que era mais forte o medo. Porque era medo que os teus olhos gritavam. Era medo que os teus lábios desenhavam. Medo por mim.

Os sonhos, dizem, trazem-nos mensagens. Dão-nos respostas. Ou apenas pistas.

Hoje, hoje não quero voltar a sonhar. Porque os sonhos, quando nos trazem mensagens, quando nos dão respostas ou apenas pistas, os sonhos não nos mentem como quando não passam de fantasias. E este sonho, este sonho em que esta noite sonhei contigo, este sonho foi apenas uma fantasia. Uma espécie de realização de um desejo. De uma vontade. Que não passa, não passará nunca, nunca poderá passar, de uma fantasia na minha cabeça.

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