#day42 out of 365plus1

É possível gerir afectos? Ou simplesmente se tem ou não se tem?
Haverá afectos escritos, temporariamente, a lápis e outros marcados a caneta num traço permanente?
Quem é que apaga afectos como que com uma borracha que apaga rascunhos?

É possível gerir afectos. Os que se recebem mas, acima de tudo, os que se entregam. Não se gerem afectos como quem poupa para que não falte. Não se gerem afectos como quem dá mais do que tem, porque assim já não seriam afectos. Não existem afectos a crédito.

É possível gerir os afectos que se distribuem. Umas vezes na medida certa que nos merecem. Outras muito aquém, acredito. Mas nunca a crédito.

Gosto de afectos. E distribuo-os na proporção que os sinto. Porque sinto demasiado, tantas vezes, e distribuo tudo o que tenho.

Entretanto aprendi. É preciso gerir afectos. Não distribuir tudo de uma só vez. Guardar comigo, para mim, a parcela maior quando não há disponibilidade para receber. Não se perdem, apesar de tudo. Conservam-se os afectos até poderem ser recebidos. Mesmo que nunca venham a ser recebidos, os afectos estão lá, guardados comigo, em mim. Ainda que se anestesiem com o Tempo, ainda que adormeçam enquanto os guardo. Mas estão lá. Porque uma vez existentes não são apagados com borracha como um rascunho.

Distribuo afectos a quem conheço de sempre e a quem nem o nome sei. Porque sim e porque só sei ser assim. Recebo-os também. Uns escritos temporariamente a lápis, outros a caneta num traço permanente. E tantas vezes os confundo. E tantas vezes me confundo. Que chego a acreditar que são permanentes os escritos a lápis. Que são temporários os traços de caneta.

E é precisamente por tantas vezes os confundir, me confundir, que me imponho a gestão de afectos.

É possível gerir afectos?

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