#day89 out of 365plus1

Da importância de me chamar Mafalda. Mesmo que não seja esse o meu nome. Mafalda de Quino, essa mesma.

Escrever, ou como tantas vezes lhe chamo “debitar para o éter”, é-me essencial. Faz parte de mim, de quem sou, do que sou, de como sou. Escrevo de mim para mim, não de mim para alguém. Mesmo que, quando o que escrevo, possa ser uma mensagem mais ou menos directa. Mesmo aí é para mim que escrevo, para não deixar nada por dizer ainda que sejam mensagens que, invariavelmente, não chegam ao destino. Ou precisamente por saber que não irão chegar ao destino como um postal que se extraviou.

Escrevo para mim. Releio algumas coisas que vou escrevendo, não agora no imediato. Mais tarde quando o tempo me diz que é Tempo de me reencontrar. E ao reler-me olho para trás, para o que já foi e percebo que o momento já não é o mesmo. E analiso o que o éter me guarda.

Escrevo sem outro propósito que não ser apenas eu. Assim, contestatária tantas vezes, adolescente outras tantas e ainda uma mão cheia de outras coisas e outra mão cheia de coisa nenhuma de fácil definição.

Escrevo. E quando escrevo digo tudo. Até quando pareço não dizer nada. Quantas vezes já te disse que gosto de ti sem o dizer realmente? Quantas vezes já me assumi completamente perdida e sem rumo mostrando uma segurança inabalável? Quantas vezes pedi ajuda dizendo que tudo corre bem?

Escrevo para mim, não mais. E também por isso protesto e reclamo de tanta coisa que tantas vezes não têm importância nenhuma. Faço-o nas vezes daquelas coisas que são realmente importantes e que guardo para mim por não terem lugar aqui, nas palavras debitadas no éter cujo primeiro destinatário sou eu sabendo que existe uma espécie de linhas cruzadas onde destinatários se cruzam com remetentes que se cruzam com outros destinatários.

O que escrevo sou eu. Não será nunca um livro, como já me têm pedido. O que escrevo sou eu. Sem interesse, literário ou o que for. O que escrevo sou eu. Com todos os protestos e celebrações. O que escrevo sou eu. Com tudo o que sinto, da forma como sinto. E sinto sempre intensamente. O que escrevo sou eu. E para não me perder de mim como já antes me perdi continuo a escrever. Para mim.

Não contabilizo leitores. Não os procuro sequer. Sei que existem. Desconheço números. Não procuro nada que não seja o que trago cá dentro no momento em que o éter e eu nos encontramos. Não procuro nada que não seja o poder ser eu.

Não procuro leitores. Não os contabilizo. Não tenho pretensões literárias. Não preciso de críticos de conteúdo. Não preciso que se preocupem com o que escrevo, ou como o escrevo ou sobre o que escrevo.

Preciso que se preocupem, sim, no dia em que deixar de escrever.

Porque é a escrever que me liberto, é a escrever que me encontro, é a escrever que me apaziguo.

E é a escrever que, tantas vezes, recupero o sorriso que momentaneamente se perdeu em palavras que ficaram por dizer. E por isso escrevo. Escrevo-as. Tantas vezes como um postal extraviado que nunca chegará ao destino mas que foi enviado no tempo que era Tempo de enviar.

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