Daily Archives: 01/05/2016

#day122 out of 365plus1

Pode um dia ser tão cheio de contrastes? Pode. Como o de hoje. Mesmo que o comboio tenho partido e eu ficado. Porque hesito. Porque demoro a resolver-me.

Talvez. Talvez hesite em dar o primeiro passo, a medo. Hesito. Como hoje hesitei. Hesito mas acabo sempre por dar esse primeiro passo. Como hoje dei. E voltei a hesitar. Mas resolvi-me a abrir a porta, como abro tantas vezes. Hesitei antes. Hesitei depois. Porque do outro lado da porta não sei se o que vejo é a realidade ou fruto da minha imaginação. Não sei se os caminhos que vejo são os meus ou apenas ilusórios.

Hesito. Hesitei. Porque sempre que abro a porta não sei por onde seguir. Se posso sequer seguir. Os sinais estão lá, do outro lado, todos eles. Conheço-os um a um. Mas nem sempre os sei ler.

Hesito. Hesitei. O comboio foi e eu fiquei. Porque não era naquela direcção que eu queria ir. Hesitei. Apanhei o seguinte. Na direcção oposta à que queria. E a porta ali ficou, entreaberta. Os sinais li-os todos. E hesitei. Resolvi-me por outra margem.

Apesar de tudo, foi mais um dia que passou.
Não ri. Chorei. Mas, e o mais importante, sorri. Ainda que um sorriso pequenino e tímido. Quase imperceptível. Quase sem hesitar.

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{do dia da Mãe}

No último dia da Mãe escrevia isto.

Desde o primeiro dia que oiço dizer que o tempo ajuda. Que acalma a dor, porque é dor o que realmente se sente. Que tudo fica melhor. Que tudo fica mais tranquilo.

Talvez. Talvez ainda não tenha passado esse tal tempo no meu Tempo. Talvez esse tal tempo seja um conceito relativo. Ou talvez nem sequer exista.

Não procuro a memória. As memórias. Estão todas cá. Intactas. Intensas. Todas elas.

Procuro, isso sim, encaixar e avançar. De certa forma tenho conseguido. Com altos e baixos, baixos que já não são tão baixos como noutros tempos. Com avanços e retrocessos. Faz parte, penso eu. Sei que tenho ainda muita coisa para arrumar nesta gaveta. Gaveta que não fecha por estar demasiado desarrumada, desorganizada.

Sei que há coisas que oiço, que me dizem, que são inocentes, sem intenção de magoar, são coisas simplesmente banais. Dizerem-me “tens sorte porque não tens que ir a correr para casa tratar dos filhos”. Não lhe chamaria sorte. Preferia mil vezes perder o pôr do Sol na praia por ter ido a correr para casa tratar do meu filho.
Ouvir no escritório, a um domingo, pedirem desculpa à colega do lado “por lhe ter estragado o dia da Mãe. Eu sei que ela não tem filhos e você tem as miúdas”, sendo que “ela” sou eu e estava ali, presente. “eu não ligo nenhuma ao dia da Mãe, mas você tem as miúdas” e os olhos cedem às lágrimas, o ar não entra, e digo entre dentes que adorava não ligar nenhuma ao dia da Mãe e antes que o choro fique incontrolável vou lá abaixo e já venho e espero pelo elevador com as lágrimas a escorrer e desço do quinto andar a chorar compulsivamente como há muito tempo não acontecia.

O tempo ajuda, o tempo acalma. Mas esse tempo ainda não chegou ao meu tempo e o resto do dia de escritório é passado a tentar secar os olhos, a tentar respirar, enquanto se preparam papéis de última hora de um navio inesperado. E a tarde é passada na esplanada, ao Sol, sozinha, com os óculos escuros a esconder os meus olhos que teimam em não secar.

O tempo ajuda. Mas se há um ano doeu, hoje doeu ainda mais. E dói. E sei que continuará a doer. Especialmente enquanto a gaveta continuar entreaberta por estar desarrumada. Um dia talvez acalme.

Porque tenho sorte em não ter que ir a correr para casa para tratar dos filhos e em vez disso posso dar-me ao luxo de ir ver o pôr do Sol na praia depois de um dia longo de trabalho. Porque podem chamar-me de última hora no dia da Mãe porque até nem tenho filhos. Ou então é tudo isto mas ao contrário.

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