Monthly Archives: May 2016

#day133 out of 365plus1

Das coisas que se dizem tanto e que só prestei a devida atenção quando a minha mãe mo disse: “não podes esperar que os outros sejam como tu”. Para o bom e para o mau, não posso mesmo. Esqueço-me constantemente. Esquecia-me. Hoje faço questão de o repetir a mim mesma várias vezes ao dia. Especialmente naqueles momentos em que constato que, sendo eu, faria exactamente o contrário. Mais uma vez, para o bom e para o mau.

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#day132 out of 365plus1

Acção – reacção. Ou quando coisas mínimas, gestos simples quase insignificantes fazem a diferença. Toda a diferença. Mesmo que tudo se mantenha igual. Gestos simples que não dizem nada a tanta gente, absolutamente nada, a mim dizem-me muito ainda que esse muito pareça tão pouco. Não é. Não é tudo, não é imenso, mas já é alguma coisa.

E volto a saltaricar em bicos dos pés, sorrio a cantarolar, por dentro a bater palminhas e aos pulinhos de contente. Porque acção – reacção. E vejo-me novamente adolescente, com risinho nervoso típico da idade, aos pulinhos de contente.

Há dias inteiros que se ganham assim. Com pequeninos nadas. E regressam as borboletas que, não estando desaparecidas, estavam adormecidas. E regressa a dança na ponta dos ténis, o sorriso ao canto da boca e o brilhozinho nos olhos enquanto vou por aí a cantarolar e a saltaricar desarrumando as folhas à beira dos passeios.

Acção – reacção. Um nada que é tanto.

Amanhã volto a pôr os pés no chão.

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#day131 out of 365plus1

Sinto a tua falta. Ainda não to tinha dito hoje. Há algum tempo que não to digo. E ao mesmo tempo acho que todos os dias o digo a toda a gente menos a ti.

Sinto a tua falta e das conversas de parvos que tantas vezes tivemos, sem pés nem cabeça muitas das vezes. Mas que faziam sentido sempre. Quantos anos são já? Tantos e já tanto aconteceu e tanto mudou e outro tanto permanece igual. Menos as conversas de parvos sem pés nem cabeça. Agora são as conversas de adultos cordatos ou as desconversas sem sentido. E dessas, as desconversas sem sentido, não tenho saudades nenhumas.

Sinto a tua falta. Ainda não to tinha dito hoje. Não, já to tinha dito hoje. Como digo todos os dias. Não aos outros apenas mas também a ti. Todos os dias marco mais um dia em que senti a tua falta. E todos os dias, de alguma forma, to digo. Só a ti.

E hoje, hoje digo-o abertamente. Sinto a tua falta e das nossas conversas de parvos, sem pés nem cabeça muitas das vezes e sinto falta também das desconversas sem sentido por sabê-las importantes e outrora urgentes.

Sinto a tua falta, digo-o hoje abertamente. Naquela porta que arrisquei a abrir e que deixei entreaberta, ou que pelo menos julguei deixar. Digo-o hoje abertamente. Digo-to hoje abertamente. Sinto a tua falta.

…mas, como habitualmente, serei a primeira a negá-lo a quem mo perguntar.

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#day130 out of 365plus1

Ainda é cedo para fazer planos para o fim de semana? Não é terça, ainda é segunda, eu sei. Mas sinto-a como uma terça que se vai repetir amanhã, a verdadeira terça feira.

Chove lá fora, Maio mês de trovoadas e uma Primavera que não se instala. E eu penso em planos de fim de semana que ainda tarda e que, já sei, não adianta apressar nem planear.

Sábado ainda tão longe, domingo que já vem marcado em horário de madrugada, terça, quarta e quinta vai-se andando, sexta de Rainha pela manhã. Sábado ainda tão longe. Sábado que devia começar sexta e estender-se até domingo. Agenda em aberto e planos tantos. Ou tão poucos porque não são realmente planos, apenas desejos, vontades.

Trovoada lá fora, a chuva. E o sábado que não vem. O sábado que em tempos pode ser um qualquer dia da semana, sem planos, agendado em cima do joelho. O sábado que podia ser um qualquer dia da semana, mas planeado de véspera ao sabor das marés.

Ainda é cedo para fazer planos para o fim de semana? E para quê fazer planos se, já sei, não passam nunca de desejos, vontades que guardo comigo e não partilho? Talvez a indecisão, o nunca mais me resolver para dar um passo. O passo.

Não. Não é cedo para fazer planos. E decido não os fazer por já saber que não vale a pena. Sábado irá chegar. A seu tempo. No seu Tempo.

Por agora terça feira que ainda é segunda. A chuva lá fora. Maio mês de trovoada. E a Primavera que não se instala.

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#day129 out of 365plus1

Quantas vezes tenho vontade de dizer “faz-me um desenho”…? Seja para descodificar o que os olhos vêem, seja para descobrir o que não vejo os olhos dizerem.

Desisti de fazer desenhos usando palavras. Ou se calhar digo isso a mim mesma, continuando a desenhar jogos de palavras com frases que nem sempre parecem encaixar. E por aí vou seguindo a ler paredes de estações de Metro, em linhas que efectuam paragens em todas as estações mas onde não existem apeadeiros.

Tudo isto são desenhos em palavras. As estações, os apeadeiros, as paragens com excepção, a viagem de ida e sempre de volta.

Não. Não desisti de fazer desenhos usando palavras. São os desenhos que melhor sei fazer, ainda que arrisque unir pontos a lápis sobre o papel dando forma a riscos que aparentam, de início, não fazer sentido. Tal como as palavras. Onde nada parece fazer sentido, onde todas desenham o que trago comigo.

Um dia digo “faz-me um desenho”. Nesse dia espero saber escrevê-lo. Nesse dia espero saber lê-lo.

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#day128 out of 365plus1

Com que traços se riscam os dias?

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#day127 out of 365plus1

Fazes-me falta no Tempo que me falta.

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#day126 out of 365plus1

Não entrava ali há vários anos. Uma mão cheia deles, se as contas da memória não me falham. Não entrava ali porque a última vez foi uma espécie de choque. Sabendo que não seria mais o mesmo, nunca imaginei a diferença tão grande. Da luz natural que tinha, intensificada pelo branco das paredes altas, passou a um sítio cinzento escuro com apontamentos de rosa velho. A caixa de luz ao canto perdeu a vida do acrílico azul sendo agora só mais uma caixa de luz, branca, ao canto. A vista para a cozinha, através das janelas em arco, está cortada a vinil branco.

Reconheci-lhe, no entanto, os sofás pretos que se mantêm no mesmo sítio ao fim de tantos anos, tamanha mudança. Os candeeiros são os mesmos em formato de cogumelos, brancos, a preencher o vazio daquele pé direito. O chão de ardósia. As escadas onde tantas vezes tropecei, hoje não foi excepção tantos anos depois. As garrafeiras também lá estão. Os arcos de tijolo, as paredes escavadas.

Ainda olho para ali como olhava há 7 anos. Como olhei há 10 quando as obras finalmente terminaram. Ainda olho para ali e vejo pedaços de mim espalhados um pouco por aqui e por ali, mesmo não lhe reconhecendo as cores, sentindo a falta da luz natural, do branco das paredes, das flores tatuadas mais tarde na coluna do meio. As mesmas flores dos vinis das janelas e da porta, que já lá não estão mas que continuam comigo em cartões de identidade.

Ainda não é fácil voltar ali e encaixar. E aceitar que o tempo passa e tudo muda. E que já não posso dizer que ali me sinto em casa. Mesmo sabendo que, apesar de tudo, deixei um pedaço de mim ali.

Fica mais fácil quando percebo, ao entrar, que ainda lá está uma cara conhecida. Que me reconheceu tanto tempo depois. Que me recebeu com um sorriso e um abraço. Que partilhou o percurso dos últimos quase 7 anos de trabalho ali, já depois daquilo que era um bocadinho meu, e que me fez sentir como se tivesse voltado a casa.

Gosto de saber que o tempo passa e algumas coisas não mudam. E que há pessoas que não se esquecem de nós.

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#day125 out of 365plus1

De que cor se pintam os dias?

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#day124 out of 365plus1

Sem carro. Por tempo indeterminado.
Ligeiramente sem norte.

Mas entrego e confio.

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#day123 out of 365plus1

Estes, também todos eles partiram à semelhança do comboio de ontem. Novamente fiquei. Segui mais tarde, depois de um dia corrido e de pele queimada do Sol.

Lembrei-me da porta que ontem abri. A que hesitei em abrir. A que não hesito em deixar assim, entreaberta. Mas que ainda não me resolvi em abrir ou fechar de vez.

Madrugada, Sol, manhã, vento, tarde, calor, gente, tanta gente e eu ali mas longe. Junto à porta.

Cansada, sim. Mas hoje tranquila. Tranquila nessa porta entreaberta. Desassossegada noutra que já há muito tempo fiz questão de fechar, trancar, perder a chave mas cuja campainha tocou. Toque que me fez recordar porque a fechei há tanto tempo.

Aqui não hesito. E entre uma porta entreaberta e uma porta trancada, irei sempre à porta que me permitir passagem: a entreaberta.

Madrugada, Sol, manhã, vento, tarde, calor, gente, tanta gente. E eu ali e a querer estar longe. Junto à minha porta.

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#day122 out of 365plus1

Pode um dia ser tão cheio de contrastes? Pode. Como o de hoje. Mesmo que o comboio tenho partido e eu ficado. Porque hesito. Porque demoro a resolver-me.

Talvez. Talvez hesite em dar o primeiro passo, a medo. Hesito. Como hoje hesitei. Hesito mas acabo sempre por dar esse primeiro passo. Como hoje dei. E voltei a hesitar. Mas resolvi-me a abrir a porta, como abro tantas vezes. Hesitei antes. Hesitei depois. Porque do outro lado da porta não sei se o que vejo é a realidade ou fruto da minha imaginação. Não sei se os caminhos que vejo são os meus ou apenas ilusórios.

Hesito. Hesitei. Porque sempre que abro a porta não sei por onde seguir. Se posso sequer seguir. Os sinais estão lá, do outro lado, todos eles. Conheço-os um a um. Mas nem sempre os sei ler.

Hesito. Hesitei. O comboio foi e eu fiquei. Porque não era naquela direcção que eu queria ir. Hesitei. Apanhei o seguinte. Na direcção oposta à que queria. E a porta ali ficou, entreaberta. Os sinais li-os todos. E hesitei. Resolvi-me por outra margem.

Apesar de tudo, foi mais um dia que passou.
Não ri. Chorei. Mas, e o mais importante, sorri. Ainda que um sorriso pequenino e tímido. Quase imperceptível. Quase sem hesitar.

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{do dia da Mãe}

No último dia da Mãe escrevia isto.

Desde o primeiro dia que oiço dizer que o tempo ajuda. Que acalma a dor, porque é dor o que realmente se sente. Que tudo fica melhor. Que tudo fica mais tranquilo.

Talvez. Talvez ainda não tenha passado esse tal tempo no meu Tempo. Talvez esse tal tempo seja um conceito relativo. Ou talvez nem sequer exista.

Não procuro a memória. As memórias. Estão todas cá. Intactas. Intensas. Todas elas.

Procuro, isso sim, encaixar e avançar. De certa forma tenho conseguido. Com altos e baixos, baixos que já não são tão baixos como noutros tempos. Com avanços e retrocessos. Faz parte, penso eu. Sei que tenho ainda muita coisa para arrumar nesta gaveta. Gaveta que não fecha por estar demasiado desarrumada, desorganizada.

Sei que há coisas que oiço, que me dizem, que são inocentes, sem intenção de magoar, são coisas simplesmente banais. Dizerem-me “tens sorte porque não tens que ir a correr para casa tratar dos filhos”. Não lhe chamaria sorte. Preferia mil vezes perder o pôr do Sol na praia por ter ido a correr para casa tratar do meu filho.
Ouvir no escritório, a um domingo, pedirem desculpa à colega do lado “por lhe ter estragado o dia da Mãe. Eu sei que ela não tem filhos e você tem as miúdas”, sendo que “ela” sou eu e estava ali, presente. “eu não ligo nenhuma ao dia da Mãe, mas você tem as miúdas” e os olhos cedem às lágrimas, o ar não entra, e digo entre dentes que adorava não ligar nenhuma ao dia da Mãe e antes que o choro fique incontrolável vou lá abaixo e já venho e espero pelo elevador com as lágrimas a escorrer e desço do quinto andar a chorar compulsivamente como há muito tempo não acontecia.

O tempo ajuda, o tempo acalma. Mas esse tempo ainda não chegou ao meu tempo e o resto do dia de escritório é passado a tentar secar os olhos, a tentar respirar, enquanto se preparam papéis de última hora de um navio inesperado. E a tarde é passada na esplanada, ao Sol, sozinha, com os óculos escuros a esconder os meus olhos que teimam em não secar.

O tempo ajuda. Mas se há um ano doeu, hoje doeu ainda mais. E dói. E sei que continuará a doer. Especialmente enquanto a gaveta continuar entreaberta por estar desarrumada. Um dia talvez acalme.

Porque tenho sorte em não ter que ir a correr para casa para tratar dos filhos e em vez disso posso dar-me ao luxo de ir ver o pôr do Sol na praia depois de um dia longo de trabalho. Porque podem chamar-me de última hora no dia da Mãe porque até nem tenho filhos. Ou então é tudo isto mas ao contrário.

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