#day190 out of 365plus1

Quando conheceres o conforto das paredes, o conforto do confronto, saberás que não estou sempre a pensar nisso, que não estou sempre a falar nisso.
Quando conheceres a força do embate desse confronto que se torna conforto, saberás que é esse impacto que atenua o que o tempo ainda não apagou. Talvez nunca apague.

Há dois anos estava grávida. Há dois anos tinha dúvidas quando o meu corpo me gritava todas as certezas. Há dois anos não queria pensar na hipótese que o meu corpo já confirmava e que mesmo não querendo pensar ecoava na minha cabeça, estás grávida.

Hoje procuro o conforto desse confronto porque não posso fazer de conta, continuar a fazer de conta, que há dois anos nesta data não estava grávida.

Ainda hoje me dói. Todo o processo. Desde a primeira dúvida, até à certeza e tudo o que veio depois até hoje. Dói verbalizar, eu estive grávida, quando eu estava grávida, na minha gravidez. Dói por quase soar a falso de tão curta que foi. Mas existiu. Foi real. Aconteceu de facto. Existiu uma gravidez e tudo o que daí adveio. O bom. Que também o houve. O mau. O muito mau. Que não quero de novo mas que nem sempre é fácil de evitar. Que nem sempre é fácil desligar.

Não me digam, não me digas, para não estar sempre a pensar nisso. Porque não estou. Simplesmente a memória não se apaga.

Não me digam, não me digas, para não estar sempre a falar nisso. Porque não falo. Deixei de o fazer quando deixei de ter aqueles 50 minutos regulares, há um ano. E dói não poder falar. Porque é a falar que arrumo gavetas. Porque é a falar que alivio a pressão que trago comigo há demasiado tempo. Porque é a falar……

Não a falar sozinha. Não a falar com quem não conhece a história, a minha história, a história da minha gravidez. Não. É a falar com a única pessoa que poderia fazer a diferença. Mas não faz. Porque não está.

Quando conheceres o conforto das paredes, o conforto do confronto, saberás porque insisto em falar, em querer falar. Porque o tempo passa mas não apaga aquela gravidez de há dois anos. Porque o tempo passa mas a memória não se apaga. Porque o tempo passa. Apenas passa. Sem nenhum vestígio palpável, sem nenhum vestígio qualquer de que essa gravidez aconteceu.

Há dois anos, neste dia, neste exacto dia, eu estava grávida. E tenho que aprender a dizer sem dores que sim, eu estive grávida. E na minha gravidez não procurei nunca o conforto das paredes, o conforto do confronto…

…mas procuro-o hoje por me faltar o único conforto, sem confronto, que me falta.

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