Monthly Archives: December 2016

#day349 out of 365plus1 

Verbalizar. Tarefa da semana. Verbalizar. 

É mais fácil verbalizar quando se acredita. Quando se sabe que o que verbalizamos é, de facto, verdade. É real. 

Não verbalizo. Por muito que, interiormente, repita tantas vezes mesmo não acreditando e querendo acreditar, querendo que seja verdade, que seja real. Não verbalizo. 

Mas uma mentira repetida inúmeras vezes acaba por se tornar uma verdade, dizem. Não, uma mentira será sempre uma mentira por muito que a repita, por muito que a verbalize. 

Estou cansada de mentir a mim mesma. De dizer a mim mesma que sou mais do que isto, que sou melhor do que isto. Porque não sou. Porque isto é o que sou, quem sou. E por isso não verbalizo. 

Porque não acredito. Porque não sou. Porque sei que não sou. Porque, no fundo, sou isto. Mesmo querendo ser mais e melhor, sou apenas isto. 

Verbalizar. Tarefa da semana. Não concretizada. Mais uma vez. 

Não verbalizo. 

#day347 out of 365plus1 

Por vezes é preciso alguém que me chame de volta à Terra. Que umas vezes me diga para não racionalizar o que sinto e outras que não me deixe cair no medo obrigando-me e ajudando-me a racionalizar o terror que tantas vezes toma conta de mim. 

Por vezes é preciso alguém que me pegue nas mãos e me diga “vamos até onde puderes agora, mas eu sei que podes muito mais”. 

Por vezes é preciso alguém que me diga “eu acredito em ti e nas tuas capacidades” para que eu mesma comece a deixar de duvidar ainda que só um bocadinho. 

Por vezes é preciso alguém que olhe para lá do farrapo e veja quem sou por inteiro: perdida mas com vontade de encontrar o Norte. 

Por vezes é preciso alguém que me diga “estou aqui para o que precisares, sempre que precisares”. 

Por vezes é preciso alguém que seja e faça isto tudo. Mesmo que esse alguém seja um profissional preparado para trabalhar tudo o que trago cá dentro. 

Já não é só um profissional. É uma espécie de amigo que faz terapia. E que nos últimos quase 4 meses tem sido fundamental para que o meu caminho não seja totalmente às escuras. E hoje, mais uma vez mas especialmente hoje, duas horas de uma enorme violência emocional num caminho que, sendo meu, já sei que não percorro sozinha. Porque há uma luz para lá da escuridão, que é de presença e também farol para que não me perca. 

Ninguém entra na vida de ninguém por acaso. Mesmo que seja um profissional preparado para trabalhar tudo o que trago cá dentro. Mesmo que seja alguém que cumpre o papel profissional de trazer de volta à Terra quem está aterrorizada. 

Às vezes é preciso alguém. Que me acompanhe uma vez por semana sem pressa. Que me oiça activamente. Que me diga, todas as semanas, que sou muito mais e melhor do que me permito aceitar. 

Mesmo que seja um profissional. Mesmo que seja um técnico de saúde mental. 

#day346 out of 365plus1 

Um 

dia 

atrás 

do 

outro 

atrás 

do 

um. 

#day345 out of 365plus1 

……falta-me um bocado de mim…… 

#day344 out of 365plus1 

Fazes-me falta.

Se em 2008 foi fácil habituarmo-nos uma à outra, hoje não me é fácil habituar-me à tua ausência.

Foram quase 9 anos em que éramos uma só. Onde eu estivesse era certo que estarias também. Mesmo quando e onde não devias, ora em cima da máquina de costura, ora em cima dos tecidos em que estava a trabalhar.

Lembro-me tão bem das primeiras noites contigo. Fazias questão de dormir num cantinho da minha almofada e, de alguma forma, sentires-me ali. Fosse com uma patinha tua no meu pescoço ou a tua cauda na minha cara ou o teu nariz no meu cabelo. Tinhas sempre que estar a tocar-me, a sentir-me de alguma forma.

Lembro-me daquela tua fase, ainda eras tão pequenina, em que me acordavas com patadas na cara. Sempre me ri a contar isso embora gostasse mais quando me deixavas dormir.

Foste crescendo e a almofada deixou de ter espaço para as duas. Adoptaste a minha cintura como ninho de eleição e praticamente todas as noites era aí que começavas os teus sonos.

Era sempre comigo que dormias e nunca percebi como é que uma coisa tão pequena conseguia ocupar tanto espaço numa cama para dois. Mas a verdade é que era sempre eu quem tinha que se moldar à tua presença porque o meio da cama pertencia-te.

Aprendi muito contigo. Aprendi aquela coisa do amor incondicional, que não pede nada em troca nem guarda ressentimentos. Ficavas feliz quando eu entrava em casa, tivesse saído há 5 minutos ou há 5 dias.

Esperavas-me à porta de casa ainda antes de eu entrar no prédio. Muitas vezes bastava-te ouvires-me a estacionar o carro. Quando entrava já te ouvia a miar, a chamar por mim. E, se demorasse mais um bocadinho, não sossegavas até que finalmente entrasse em casa. E depois de me teres em casa tínhamos que ter sempre aqueles minutos só nossos, só nós as duas, contigo ao meu colo a ronronar.

Percebo esta noite o quanto me custa a minha cama vazia sem ti. Não ouvir o teu miado ao entrar no prédio. Não tropeçar em ti porque já não te enrolas nos meus pés quando ando pela casa. Ter o colo vazio de ti e do teu ronronar.

Ontem não tive tempo para encaixar tudo e acho que cheguei a casa meio anestesiada da anestesia que te deram antes daquela última injecção. Hoje revivo na minha cabeça cada segundo que passámos juntas naquele gabinete onde me despedi de ti. Onde te dei colo mais uma vez, mas já sem o teu ronronar, apenas um corpo trémulo quase sem forças. Disse-te que ias ficar bem, que para onde irias estarias melhor. Para não teres medo porque eu estava ali contigo. Pedi-te para ires tranquila, em paz. Disse-te para não te preocupares porque eu fico bem. Ficarei, com tempo. Olhei-te nos olhos, rocei o meu nariz no teu como fazíamos tantas vezes. Fiquei contigo até ao fim. Vi os teus olhos perderem o brilho. Vi o teu corpo a perder a pouca vida que ainda lhe restava. E de repente aquele corpo morto que ali estava já não eras tu. Já não estavas ali… Mas não deixaste, nunca, de ser linda.

Disse-te que te amo e pedi-te perdão. Perdão por ter falhado contigo e não ter conseguido tratar de ti como merecias. Perdão por te fazer passar pelo estado a que chegaste e que eu durante algum tempo, demasiado tempo, me recusei a aceitar que era mais grave do que queria admitir a mim própria. Porque admiti-lo seria, como acabou por ser, mais uma perda para a qual eu não estava preparada. Mais uma ausência para a qual eu não estou preparada.

Não sei como vai ser esta habituação à tua ausência. Sei, sim, que não será fácil. Já não está a ser. Mas prometo-te que vou ser forte, mesmo não te tendo comigo para me enroscar e aninhar e acalmar como sempre fazíamos nos meus dias menos bons, nos meus dias maus.

Era em ti, era contigo que reencontrava alguma serenidade. Que recuperava alguma força para aguentar as cacetadas destes quase 9 anos,mas sobretudo destes últimos 3.

Não sei como vai ser agora chegar a casa e não te ter. Procurar o teu calor na minha cama. Sentir o teu peso a doer-me na minha anca ou ter-te encaixada na curva da minha cintura.

Sei sim que não vou poder ir abaixo. Porque tu não estás comigo para me socorrer como sempre soubeste fazer.

Peço-te, novamente, que me perdoes por ter falhado contigo.

Hoje sinto-me novamente vazia. Porque fazes-me falta, Maria André. Muita. E irás fazer sempre.

#day343 out of 365plus1 

12 de Janeiro de 2008 – 8 de Dezembro de 2016. 

Fazes-me falta. 

#day342 out of 365plus1 

Às vezes esqueço-me que tudo são ciclos. Que tudo tem um princípio e um fim. Até os dias que começam às cores. 

Desculpa, gata. Sei que falhei contigo. Mas fico ao teu lado até ao fim. 

#day341 out of 365plus1 

Dor de cabeça. Frio. Calor. Calor. Calor. Calor. Lenços de papel, muitos. Riscos e rabiscos. Nariz entupido ou a correr. 

A mil. Eu. Outra vez. Novamente lá em cima. Muito lá em cima. Prefiro a média altura. 

Falta-me o chão, mas não estou sem chão. Falta-me aquela porta que não está aberta nem está fechada. Por onde não passa nada e onde em tempos passou tanto. “Vivendo e aprendendo”, dizem-me. Hoje sou eu quem já não quer uma porta. Hoje sou eu quem prefere uma parede. Não para o conforto do confronto ou o confronto do conforto da parede. Não foi assim há tanto tempo que o quis, que o procurei. Mas hoje prefiro uma parede porque dá mais feedback que uma porta que não está aberta nem está fechada. Uma parede permite a existência do eco. Sempre melhor que o silêncio. Porque o eco é presença. Porque o silêncio é ausência. 

Dor de cabeça. Frio. Calor. Lenços de papel. A vertigem de lá em cima. A mil. Eu. 

Assim. 

#day340 out of 365plus1 

“Mas estás com pressa para começares a atender? Tem calma, rapariga! Tens tempo.” 

“Já merecias um bocado do lombo, já chega de costeletas.”

“E que tal? Estás a gostar da experiência?”

“Tu deves ter, quê?, trinta e poucos anos, não tens mais.”

“Fico contente por te ouvir assim, mais animada.”

“Não te esqueças, tu mereces isso e muito mais.”

…são coisas pequenas que são tão grandes. Que me são tão grandes. 

#day339 out of 365plus1 

“Ao fim de semana gostava que não fizesses nada, apenas tratasses de ti.”

Ainda não foi este fim de semana. Trabalhou-se, muito ainda que pouco se veja, para aqui.

#day337 out of 365plus1 

A espiral do carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas assusta-me. 

Hoje lá em cima, numa subida rápida em poucos dias ao topo do Mundo. E o medo da descida porque não se sobe para sempre e o lá em cima tem um limite. 

Vai correr bem. Vai correr tudo bem mesmo com cruzamentos inesperados que se confundem com atropelos e que me levam a tranquilidade, que ainda estava a conquistar passo a passo, para longe. 

Não vou dar parte fraca. 

Não vou desistir de acreditar que é possível manter-me lá em cima durante muito tempo. 

Não vou desistir de acreditar que é possível descer devagar e não tão fundo. 

Não vou desistir de acreditar na Luz e nas cores. 

Não vou desistir de me afastar da Sombra e do cinzento escuro. 

Assusta-me a espiral do carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. Mas não posso esquecer-me que é isto que também sou. E o caminho para ser melhor ainda agora começou. Ainda está tão longe do fim. E preciso que me dês a mão nesta viagem de carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. 

{sometimes I miss you} 

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que, se fui eu quem precisou de distância que sempre te disse temporária, não fui eu quem fechou a porta quando regressei.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que o tempo de dar parte fraca já passou. Já acabou ali atrás algures neste tempo que todos os dias passa um dia atrás do outro atrás do um. Lembro-me que prometi a mesma manter a distância que em tempos precisei por mim e que hoje queres por ti.

Nunca percebi o porquê “por ti e por mim”. Talvez nunca venha a perceber além do que interpreto, do que sinto, do que vi e não esqueço por tão intenso, tão real, tão absolutamente inesperado. Talvez nunca venha a perceber porque, sei-o, nunca mo irás explicar. Ou revelar. Assim como tudo o resto que te vejo esconder. Não só de mim, mas especialmente de ti.

Às vezes tenho saudades tuas. De conversar sem pressas, de saber de ti, dos teus, do que está bem e do que não está. De conversar sobre tudo e sobre nada. De quando me falavas de vinho, dos vinhos. Os tintos, os brancos, os verdes que são só uma região.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que prometi a mim mesma que não voltaria a dar um passo em frente no vazio, no nada. Prometi a mim mesma que não seria eu a dar esse passo. A fazer-me presente. Não quero. Porque quem quer saber pergunta. Porque quem quer saber telefona. E prometi a mim mesma que não serei eu a perguntar, a telefonar, a querer saber por muito que queira.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que estou zangada contigo. Tão zangada contigo. Dizem que faz parte do processo. E ao longo deste processo ainda não me tinha zangado contigo. E hoje estou zangada contigo. Muito. Tanto. Pela distância que é só tua. Pelo silêncio que é apenas teu. E porque, apesar da distância e do silêncio, que são apenas teus, não permites que corte de vez. Que corte o quê se na verdade não há nada para cortar? O que houve, porque existiu, não chegou a ser. E é isso o que me tem mantido ligada a um nada, tal como o que houve e hoje não existe.

Sim. Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que um dia atrás do outro atrás do um é um caminho a percorrer sozinha. Mesmo que tenhas dito o contrário.

Sim. Às vezes tenho. Saudades tuas.

Mais do que as que gostaria de admitir. A mim mas especialmente a ti.

Sim. Às vezes tenho.

Saudades tuas.

#day336 out of 365plus1 

Existem sempre 3 caminhos: o certo, o errado e o nosso. 

É por aí que sigo, pelo meu caminho. Sempre. Mesmo que doa.