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Hoje? Hoje o ódio. Aquele mesmo ódio  que tinha prometido a mim mesma não sentir. Tinha-me prometido manter-te o respeito e até algum carinho pelo papel que tiveste. Mas hoje, hoje o ódio. 

O ódio que me faz andar na corda bamba, no fio da navalha, num separador de uma estrada movimentada a rasar carros em movimento. O ódio que me faz repetir para mim mesma que te matei em mim na noite de final de ano. O ódio que me faz desejar-te um feliz Ano Novo secretamente desejando que sintas um milésimo do que trago cá dentro. Do que me faz ser o que dizes que sou: instável. 

Antes instável que cobarde. Antes instável que fraca. Como tu. Que procuras soluções sem olhar os problemas de frente, sem os assumires como algo que precisa de ser trabalhado para ser resolvido. 

Antes o ódio. Antes o ódio directo e frontal que o silêncio cobarde de quem não olha os estragos que causou. Que se recusa a ver para não ter que se esforçar a reparar os danos. Antes o ódio que me faz mexer do que a cobardia de não sair da zona de conforto. 

Não, não quero isto para mim, este ódio que começa a consumir-me e a destruir-me ainda mais do que o teu silêncio cobarde, a tua indiferença também ela cobarde. Não quero andar no fio da navalha indiferente aos carros que passam a tão curta distância. Não quero perder o sono porque por dentro a inquietação não me deixa desligar. 

Não. 

Não quero o ódio. Mas hoje, hoje o ódio é tudo o que te tenho. E tenho pena também que nunca o venhas a saber. Porque se o soubesses terias, mais uma vez, a confirmação daquilo que tu próprio me disseste e que eu cheguei a duvidar: que acabas sempre por estragar tudo. E é isso que quero que recordes: as tuas falhas, os teus erros. E que convivas com elas diariamente para te pesarem o suficiente para perceberes que não, o problema não é eu ser instável, como tu me chamas. O problema é tu seres fraco. E consequentemente cobarde. 

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