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Não vejo cor. Não procuro cor. Não sou cor.

Um dia hei-de ver, hei-de de encontrar, hei-de ser. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.

O desequilíbrio é tão fácil. Tão simples. Chega a ser quase confortável. Quase desculpável? Talvez não. Mas está aqui. Tão acessível. Tão perto. Tão pronto. Tão meu. Tão Eu.

Corda bamba. Fio da navalha. Trapézio sem rede. Sei lá. Sei que não sei, não posso, não consigo, não quero voltar atrás. Não quero este registo negro que não me reconheço, não quero esta vontade de magoar por magoar, este ódio que se instalou em mim. Não quero. Não quero. Não quero. Mas sou, mas estou!, todo este registo desconhecido ou irreconhecível ou o que for. Desequilíbrio. Desequilíbrio. Desequilíbrio.

Falta de cor. Cores. Preto e branco mas não preto no branco. Sufoca-me.

Respiro sem dar conta, respiro sem respirar, respiro sem saber porquê, para quê. Movo-me, desloco-me, efectuo. Não faço nada. Fico estática em mim enquanto o corpo se move, se desloca, efectua. Um corpo mecanizado, autómato, automático. Por dentro imóvel. Sem vontade. Sem cor. Sem ar. Respiro sem ar. O que é isto? Já aqui estive? Não. Nunca foi assim. O ódio. Nunca fui assim. O ódio. Nunca quis assim. O ódio…

Que ódio é este? De onde vem? Serve para quê? O que faz? Não quero. Não sou assim. Não sou isto. Não sou ódio nem falta de cor nem imóvel num corpo automático que respira sem ar.

Um dia. A cor. O ar. O movimento. O Amor. Um dia. Um dia. Um dia. Entendo. Conheço. Reconheço. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.

Isto é o quê?

Isto sou eu.

…e se um dia me despedir? Que diferença faz?

Nenhuma.

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