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Um dia.

Um dia vou perceber onde é que errei, onde é que virei na curva errada, onde é que segui mal as indicações.

Um dia vou perceber. Vou perceber porque é que não posso ser simplesmente eu, como sou, quem sou, o que sou.

Um dia vou perceber porque é que não encaixo, não pertenço, não sou de. Não sou daqui, não sou dali, não sou de lado nenhum.

Um dia vou perceber porque estranho a imagem reflectida no espelho, que não reconheço, nunca reconheci. Que não me pertence. Que não sou eu.

Um dia vou perceber porque é que pouco ou nada disto faz sentido, quando eu sou mais de sentir do que fazer sentido.

Um dia vou perceber esta sensação permanente (perpétua?) de abandono, de desprotecção, de falta de lugar, de falta de pertença.

Um dia vou perceber.

Até lá continuo a tentar encaixar-me, a tentar pertencer, a tentar acertar, a tentar seguir as indicações certas.

Até lá continuo a tentar não ser eu, porque continuamente me recordam que não o posso ser. Que não posso ser como, quem, o que sou.

Até lá vou convivendo da forma mais pacífica possível com a imagem reflectida no espelho, mesmo que continue a saber que não sou eu. Que não me pertence. Que não reconheço.

Até lá continuo a tentar que tudo faça sentido, que nada faça sentir.

Porque sentir dá trabalho. Porque sentir assusta. Porque sentir é demasiado natural e espontâneo num dia a dia altamente artificial, programado, agendado, com horas marcadas até para simplesmente ser. Ser o quê…? Não sei. Se simplesmente não me deixam ser…

Um dia vou perceber o que raio faço aqui afinal. Para que serve tudo isto. O bom e, especialmente, o mau. Um dia vou perceber todo o sentido de tudo isto.

Até lá vou simplesmente sentindo. Mesmo que me recordem que não posso ser assim: alguém, que não sei quem, que simplesmente sente. O bom e, especialmente, o mau.

Um dia.

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