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Luz e sombra. 

Branco e preto. 

Positivo e negativo. 

Insisto em não ver. Em não querer ver. A luz, minha. O branco, meu. O positivo, que tenho. 

Mais facilmente aceito o meu lado escuro, a minha face negra, os meus pontos abaixo de zero. Os outros, os opostos do que vejo, não os reconheço. Não os sei reconhecer em mim. Não os sei aceitar. Não os quero assumir como opostos de sombra, de preto, de negativo. Prefiro mantê-los no cinza, ali no meio. Média. Mediana. 

Assumi-los seria exigir de mim mesma mais, muito mais, do que sei ser capaz de ser. Exigir de mim mesma o que nunca soube ser. O que nunca fui? Mediana, é só o que quero ser. Não menos que isso porque não sou apenas escuridão, não mais que isso porque não sou apenas luz. Cinza. Cinza sei ser. Cinza linear, médio, na proporção certa de preto e branco. 

Onde foi que me perdi no percurso de me ver e aceitar que, se calhar, também tenho luz, branco, positivo? Onde foi que deixei de acreditar que, se calhar, também posso pôr na balança aquilo que nunca lhe soube o peso por achar, apenas, que simplesmente faz parte e não tem que ser medido? Onde foi que passei a reconhecer qualidades apenas nos outros e nunca em mim mesma? Onde foi tudo isto que me tornei sem dar conta? 

Um dia, dizem-me, irei saber reconhecer aquilo que hoje insisto em não querer ver. Dizem-me que não querer ver faz parte. Que não querer ver é um processo interno de defesa. Dizem-me. Não querer ver, digo eu, é o resultado de todos os processos externos que me demonstraram ao longo do caminho que esse lado luz, branco, positivo, esse lado que insisto em não querer ver, esse lado que querem que me esforce por aceitar que existe, não querer ver, digo eu, é o resultado de todos esses processos externos que desde sempre me recordam que não sou mais que sombra, preto, negativo. 

Por isso cinza. Proporção certa de preto e branco, luz e sombra, positivo e negativo. Média. Mediana. Jogar pelo seguro. Não exigir de mim mesma o que não posso oferecer. A mim própria. 

Não. Não vejo. Não quero ver. Não sei sequer se saberei alguma vez ver. Sei, apenas, que me defendo ainda antes do ataque. Ergo muros, barreiras, visto a armadura, ponho a máscara, aguardo o embate. Sempre doerá menos quando voltar a falhar. A falhar comigo mesma. 

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