Daily Archives: 03/04/2017

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O medo. A vertigem do medo. É onde estou. 

Estou e sou. Sempre fui. Sempre fui medo e tudo o que o medo implica. Mas nunca me deixei parar por ele. Apesar do medo, sempre fui avançando. Fui andando. Fui alcançando. Fui conseguindo. 

Mas hoje… Hoje, novamente, como sempre, o medo. Não aquele medo de impedir que o ar entre. Não aquele medo de tremer as pernas. Não aquele medo que faz gelar o estômago. O outro…… 

O outro medo. O medo de não ser capaz de continuar, de não ser capaz de conseguir, de não ser capaz de aguentar tudo a conta-gotas. Sempre fui mais de enxurrada do que pingo a pingo. E de enxurrada vou suportando e aguentando os embates mesmo que, na altura, acredite que não aguento mais. Não sei não ter pressa. Digo-me tantas vezes que não tenho pressa, mas tenho. Não sei ir a passo. Não sei digerir gota a gota. E esse gota a gota, pingo a pingo, esse passo lento, ritmado, que me assusta.

Tenho medo. Não tenho medo de o dizer. Mas tenho medo de não ser mais do que medo. 

Se estou assustada? Muito. Deixem-me assim, sossegada no meu canto. Mesmo que não faça desaparecer esse medo. Mesmo que o medo faça parte do meu processo. Mesmo que o medo faça, já, parte de quem sou. 

Tenho medo. Estou assustada. Mas não me deixo ficar sossegada no meu canto. Todos os dias avanço. Todas as semanas recuo. E o medo. Sempre o medo. 

E se um dia eu não souber ou não conseguir regressar……? 

Sim. Tenho medo. Porque a linha é demasiado fina e tão fácil de ultrapassar… Sei que tenho quem esteja na outra ponta do fio, pronto para me atirar a bóia de salvação. Sei que tenho quem me acenda a luz de presença, pronto para me fazer regressar. Mas não tenho quem me segure na mão durante a vertigem do medo. 

E é na vertigem do medo que estou.