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Eu não tenho tempo para perder Tempo. E o que é que faço? Perco o Tempo que não tenho tempo para perder… 

Cada vez mais difícil aceitar que o Tempo vai passando e eu vou ficando lá atrás, sem concretizar seja o que for. Planos já sei que não adianta fazer, corre sempre tudo ao contrário. Mas dou por mim a traçar pequenos esboços de metas-que-não-quero-chamar-planos e a ver que o relógio não pára. Não espera. E não me dá o tempo todo que preciso. Quero fazer acontecer, mas ainda é cedo. Cedo para mim. E ao mesmo tempo o Tempo que não tenho tempo para perder Tempo vai passando. E um dia hei-de perceber que já é tarde. Como já é. Para mim. 

Não faz sentido ser tarde quando ainda é cedo. Mas faz todo o sentido ser cedo quando já é tarde. Então deixo-me ir, deixo-me ficar. Deixo-me assim, agarrada a nada que não ilusões-que-não-quero-chamar-sonhos. E traço filmes na minha cabeça que só existem aí mesmo porque ainda é cedo e porque já é tarde. De que adianta acompanhar uma história que só existe na minha cabeça? Só aí poderia ser real, nem aí é real. 

É muito ténue a linha entre o real e o irreal. Tanto que tantas vezes me esqueço que o irreal não é, de facto, real. Memórias falsas… Tão demasiadamente reais. 

Não. Não tenho tempo para perder Tempo. Não. O Tempo que é o meu não é suficiente para ser cedo e tarde. Não. Não posso deixar-me transpôr a linha do irreal. 

Por muito que tente manter o foco, por muito que tente ver tudo definido, é tão fácil deixar-me levar pela visão turva das falsas memórias. E sei que, por serem falsas, irão doer quando conseguir aceitar que nada dessas memórias é meu… 

Não é fácil. Ninguém disse que seria. Mas também ninguém disse que o caminho, o meu, seria passar pela falta de tempo que não tenho tempo para perder Tempo e pela irrealidade de memórias que não existem. 

Mais um dia. Um dia atrás do outro atrás do um. Mais tempo. Menos Tempo. 

E eu…? Onde é que fico…? 

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