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E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

Meditação, diz-me ele. Para me ajudar a manter no aqui e agora e relaxar e acalmar a mente. 

Medicação, diz-me o hospital. Para me deixar grogue em apenas dois dias, para baixar os níveis de ansiedade, de irritabilidade, de intolerância ao ruído, de desorientação constante. 

Um dia atrás do outro atrás do um, repito de mim para mim diariamente, seguindo a dica de quem está ausente desde o primeiro dia em que se fez necessário ser presente. 

Novamente a noite. As noites. Que não podem voltar a ser em branco, nem quando o estômago se revolta toda a noite e me vira do avesso. As noites que são demasiado longas, demasiado negras, demasiado sozinhas… 

“E agora, não está em nenhuma relação? Não? Pois, isso também não ajuda nada, não… ” dizem-me no hospital. Como se bastasse uma prescrição médica numa qualquer urgência psiquiátrica para ocupar esse lugar vazio. 

As noites. Sempre as noites, desde sempre as noites. Mas que agora preciso combater porque há horários estipulados numa rotina que não posso dar-me ao luxo de não cumprir. 

Sozinha. A noite. As noites. A meditação que não consigo manter. A medicação que não queria ter. 

Cansada destas noites. Cansada deste estado. Cansada disto em que me tornei. Diz-me ele que vou melhorar. Diz-me ele que em conjunto, 3 horas por semana e várias sms por dia, vamos conseguir ultrapassar e melhorar e ficar bem, demore o tempo que demorar. E diz-me, também, que não vai ser fácil nem vai ser rápido mas que vai estar lá sempre que eu precisar. Mesmo que seja apenas em 2 dias e 3 horas marcadas por semana e sempre que do lado de lá o telefone tocar porque preciso de luz. 

Sozinha. Mesmo que ele me diga que estou acompanhada. Sozinha. E a noite. As noites. E o silêncio. E a falta de luz. Sozinha. Comigo, a única pessoa com quem não sei estar, eu mesma assim. Neste estado que não sei aceitar. Não sei acalmar. Não sei melhorar. 

E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

E eu. Apenas. 

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