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Deves-me os últimos 3 anos da minha vida e todo o tempo que ainda tiver pela frente. 

Durante algum tempo achei que eu é que te devia alguma coisa. Pelo transtorno, pelo peso que acreditei ser para ti. Depois acreditei que quem devia alguma coisa a alguém eras tu a mim. Acreditei que me devias um pedido de desculpas. Hoje? Hoje um pedido de desculpas já não é suficiente. Hoje percebi que, afinal, me deves os últimos 3 anos e todo o tempo que ainda tiver pela frente, seja ele muito ou pouco. Porque tudo mudou para mim e nada voltará a ser como era. Porque tudo mudou para mim, apenas para mim. Para ti “o Sol continua a nascer e a pôr-se todos os dias”. 

Não te vou cobrar nada. Como fazê-lo? Como cobrar algo a alguém que se livra de um peso, que se livra de um problema como quem sacode a poeira dos ombros e não enfrenta as consequências? Seria impossível cobrar-te fosse o que fosse porque nunca assumiste o teu papel de devedor. Nunca assumiste os teus erros, refugiando-te sempre no teu perfil cobarde de quem age como se “não vendo é como se não existisse”. 

Não sabes nem queres saber as consequências da tua cobardia. Não sabes, não queres saber, nunca quiseste saber. Nunca te fez diferença. Porque, para ti, sempre foi mais fácil dizeres-me que sou instável. Que sempre fui. Sempre foi mais fácil descartar responsabilidades e deixares-me a enfrentar tudo sozinha. 

Sempre me disseram que eu sinto as coisas de maneira diferente. Nunca entendi porque o diziam porque, para mim, era simplesmente sentir. É ser mais Emoção do que Razão. É não esconder nem de mim nem de ninguém tudo o que vai cá dentro. E enfrentar. E lidar com isso da melhor forma que sei. Mas hoje entendo a diferença entre nós. Porque eu sou Emoção. Mas tu, tu não chegas sequer a ser Razão. És apenas cobarde. És apenas alguém que se desliga do que o incomoda, que não quer saber, que recusa a responsabilidade que de facto tem. 

Deves-me os últimos 3 anos da minha vida. Que poderiam ter sido tão diferentes. Que poderiam ter sido tão menos doridos do que foram. Têm sido. Continuam a ser. Vão continuar a ser até um dia sem data pré-definida. Deves-me todo o tempo que ainda tiver pela frente e que me irá sempre levar àquele momento em que a minha vida mudou para pior, em que eu mudei para muito pior, em que deixei de ser quem era para passar a estar doente e numa luta constante e dura para voltar a ser eu. 

Não sabes, porque não queres, porque te recusas a saber, porque te escondes, não sabes o que sou hoje. Para ti serei sempre instável, “sempre foste”, serei sempre um problema doentio porque conto os dias, porque falo do que me dói. Não sabes, recusas-te a saber, o estado a que cheguei também por tua causa. Também porque te recusaste a assumir a tua parte da responsabilidade. Para ti, o assunto morreu ali, “não posso fazer mais nada por ti”. Para mim o problema maior começou exactamente ali. Reforçado quando te recusaste, tantas vezes, a ajudar-me. E era tão fácil ajudares-me… 

Não sabes, recusas-te a saber, que o meu caminho é ainda longo. É duro. Difícil. Dorido. E, admito, instável. Cada vez mais instável ao ponto de não suportar o Mundo à minha volta, de não suportar o mínimo estímulo à minha volta. Não sabes o esforço que me é exigido diariamente para não perder o controlo. Para não perder a calma que não tenho. Para não perder o Norte de vez. O esforço que faço todos os dias para não ultrapassar aquela linha que é cada vez mais ténue e que separa o lado de cá do lado de lá. Sou Emoção prestes a perder a Razão. 

Não. Não sabes nada disto. Nem vais saber porque te recusas a fazê-lo. Porque, como sempre, te recusas a enfrentar as tuas responsabilidades. As tuas culpas. As consequências. 

Deves-me os últimos 3 anos da minha vida. E todo o tempo que ainda tiver pela frente. E não, um pedido de desculpas já não é suficiente. 

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