Monthly Archives: June 2017

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Vai valer a pena? 

Vai. 

Vai valer a pena. 

Vai valer a pena. 

Vai valer a pena. 

Vai valer a pena. 

Vai valer a pena. 

Vai valer a pena. 

Vai. 

Valer. 

A pena. 

Vai. 

Vai. 

Vai. 

Vai. 

Vai… 

…vai…

……vai…

………vai…

…………………

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Deves-me os últimos 3 anos da minha vida e todo o tempo que ainda tiver pela frente. 

Durante algum tempo achei que eu é que te devia alguma coisa. Pelo transtorno, pelo peso que acreditei ser para ti. Depois acreditei que quem devia alguma coisa a alguém eras tu a mim. Acreditei que me devias um pedido de desculpas. Hoje? Hoje um pedido de desculpas já não é suficiente. Hoje percebi que, afinal, me deves os últimos 3 anos e todo o tempo que ainda tiver pela frente, seja ele muito ou pouco. Porque tudo mudou para mim e nada voltará a ser como era. Porque tudo mudou para mim, apenas para mim. Para ti “o Sol continua a nascer e a pôr-se todos os dias”. 

Não te vou cobrar nada. Como fazê-lo? Como cobrar algo a alguém que se livra de um peso, que se livra de um problema como quem sacode a poeira dos ombros e não enfrenta as consequências? Seria impossível cobrar-te fosse o que fosse porque nunca assumiste o teu papel de devedor. Nunca assumiste os teus erros, refugiando-te sempre no teu perfil cobarde de quem age como se “não vendo é como se não existisse”. 

Não sabes nem queres saber as consequências da tua cobardia. Não sabes, não queres saber, nunca quiseste saber. Nunca te fez diferença. Porque, para ti, sempre foi mais fácil dizeres-me que sou instável. Que sempre fui. Sempre foi mais fácil descartar responsabilidades e deixares-me a enfrentar tudo sozinha. 

Sempre me disseram que eu sinto as coisas de maneira diferente. Nunca entendi porque o diziam porque, para mim, era simplesmente sentir. É ser mais Emoção do que Razão. É não esconder nem de mim nem de ninguém tudo o que vai cá dentro. E enfrentar. E lidar com isso da melhor forma que sei. Mas hoje entendo a diferença entre nós. Porque eu sou Emoção. Mas tu, tu não chegas sequer a ser Razão. És apenas cobarde. És apenas alguém que se desliga do que o incomoda, que não quer saber, que recusa a responsabilidade que de facto tem. 

Deves-me os últimos 3 anos da minha vida. Que poderiam ter sido tão diferentes. Que poderiam ter sido tão menos doridos do que foram. Têm sido. Continuam a ser. Vão continuar a ser até um dia sem data pré-definida. Deves-me todo o tempo que ainda tiver pela frente e que me irá sempre levar àquele momento em que a minha vida mudou para pior, em que eu mudei para muito pior, em que deixei de ser quem era para passar a estar doente e numa luta constante e dura para voltar a ser eu. 

Não sabes, porque não queres, porque te recusas a saber, porque te escondes, não sabes o que sou hoje. Para ti serei sempre instável, “sempre foste”, serei sempre um problema doentio porque conto os dias, porque falo do que me dói. Não sabes, recusas-te a saber, o estado a que cheguei também por tua causa. Também porque te recusaste a assumir a tua parte da responsabilidade. Para ti, o assunto morreu ali, “não posso fazer mais nada por ti”. Para mim o problema maior começou exactamente ali. Reforçado quando te recusaste, tantas vezes, a ajudar-me. E era tão fácil ajudares-me… 

Não sabes, recusas-te a saber, que o meu caminho é ainda longo. É duro. Difícil. Dorido. E, admito, instável. Cada vez mais instável ao ponto de não suportar o Mundo à minha volta, de não suportar o mínimo estímulo à minha volta. Não sabes o esforço que me é exigido diariamente para não perder o controlo. Para não perder a calma que não tenho. Para não perder o Norte de vez. O esforço que faço todos os dias para não ultrapassar aquela linha que é cada vez mais ténue e que separa o lado de cá do lado de lá. Sou Emoção prestes a perder a Razão. 

Não. Não sabes nada disto. Nem vais saber porque te recusas a fazê-lo. Porque, como sempre, te recusas a enfrentar as tuas responsabilidades. As tuas culpas. As consequências. 

Deves-me os últimos 3 anos da minha vida. E todo o tempo que ainda tiver pela frente. E não, um pedido de desculpas já não é suficiente. 

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53. Avenida do Brasil. 

“- Então, como se sente?”

Aí é que está. Não sinto. 

“- Está apática, é isso? ”

Não. Não é nada disso. Cínica. É isso que estou. Não sinto. A não ser desprezo. Ou algo assim. Não há um mínimo de variação. Nem gosto nem desgosto, nem conforto nem desconforto. É-me igual. Seja o que for, é-me igual se sim ou se não ou se talvez quem sabe. 

Não sinto. Não me toca. Não mexe de maneira nenhuma. E entretanto é Junho. E não tarda é Julho. E Agosto. É-me igual. Sou eu sem Norte e a perder o pé. E sem sentir. E sem saber o que é isto de não sentir. E sem saber o que sou ou quem sou. Só sei o rótulo do Cartão de Doente. Se eu queria isso? Mas isso o quê, o rótulo ou o facto de realmente estar doente? Não, ainda não aceito o facto de que efectivamente estou doente. Ou será que sou? Não sei, dá-me igual. Há realmente diferença entre o ser e estar? Não interessa. Interessa apenas o rótulo que não quis para mim. Mas que já ninguém me tira. Aguente-se!

“- Mas era o que estava a precisar agora, não era?”

Era? Não sei. Sei lá! É-me igual. Não sinto. Não sei lidar com isto de não sentir e de me estar a borrifar para tudo e para todos. Não quero saber. E é Junho. E daqui a pouco Julho. A correr Agosto. Se precisava disto? Disto o quê? Cínica. É isso que estou. Que sou? Seja. O que for é-me igual. 

E continua a ser tão fácil, tão demasiado fácil acabar com isto tudo. Já não sinto. Não faz diferença. Nem faz sentido. Muito menos faz sentir! E agora percebo isso de uma forma mais fria. Mais distante. É tão fácil. Tão demasiado fácil. 

Não era suposto ser assim? Não sei. Se calhar era. Mas assim como nunca quis o rótulo de doente para mim também nunca quis o que me trouxe até aqui. Nunca quis os últimos 3 anos. E onde é que estou? Estou nesta coisa que não sei o que lhe chamar. Doença? Sei lá. Mas será que interessa assim tanto saber? Que diferença faz? É isto e pronto. Nem lá em cima, nem lá em baixo, nem um mínimo de oscilação, nem um mínimo de alteração. No fundo nem um mínimo de emoção. 

Não sei ser isto. Não sei sequer se tudo isto vale a pena. Não sei nada, no fundo. A não ser isto: eu não quis nada disto para mim. Mas, afinal, foi a isto que cheguei. 

Vale a pena tudo isto? Até quando…? 

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Razão vs Emoção. 

Sempre fui mais Emoção do que propriamente Razão. E é por isso que neste ponto de equilíbrio induzido não me reconheço. 

Não sei o que é ser Razão. Mas sei que neste momento escasseia a Emoção. 

Cinismo à flor da pele. À flor da pele onde há tão pouco tempo ainda estava a Emoção. Hoje nem Razão nem Emoção, apenas Cinismo. E um demasiado grande à-vontade nesse papel. 

Se o tal de equilíbrio é isto, se é isto a tal de estabilidade, então hoje mais do que nunca não sei mesmo quem sou. 

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Domingo. E recomeçar. Aprender o que não sei ser. 

Recomeçar. Respirar. Aprender. 

A ser. Não a estar. 

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“Tu és instável. Sempre foste…” 

E, agora, a estabilidade. Uma estabilidade induzida, estranha por não ser natural, diferente por ser química. Mas estabilidade. 

Sem oscilações de humor, sem variações, sem reacções. Não sei o que é isso da estabilidade. E por isso não sei o que fazer com esta nova realidade. Não lhe conheço os truques, não sei o que acontece a seguir. Sei, apenas, que não sei o que fazer com esta estabilidade. 

Se até há bem pouco tempo vivia no carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas, hoje vivo numa espécie de flat line, sem altos e baixos, sem diferenças, sem curvas apertadas. 

Dizem-me, diz-me ele, que é uma boa oportunidade para ver o mundo de outra forma, de me ver a mim mesma de outra forma. Mas o mundo continua a ser um lugar feio e eu continuo a ser diferente. 

Não sei viver numa flat line. Não sei viver sem sentir. Não sei viver sem emoções. Não entendo esta indiferença constante que sinto. E não gosto de sentir desta forma: indiferente. Sinto apenas que pouco ou nada me incomoda, pouco ou nada me afecta, que está tudo bem assim como está e que nada me perturba. Sinto tudo isto sabendo que nada disto é verdadeiro, é tudo quimicamente induzido. 

E pergunto-me se é isto a tal estabilidade que se fala por aí, a tal estabilidade que me dizem não ter. Porque se é isto, se é esta flat line sem oscilações, sem variações e demasiado rígida e linear, se é isto essa tal estabilidade eu não gosto. Porque não sei ser assim. Não sei ser uma flat line. Não sei ser linear. Não sei ser rígida. Não sei ser está tudo bem. 

Não sei ser nada disto. Mas vou ter que aprender a sê-lo. Vai ser toda uma aprendizagem a começar do zero. Todo um recomeço. Sem manual de instruções, com mais perguntas do que respostas. E com a sensação que esta estabilidade talvez me seja necessária, mas não sou eu. 

Até que ponto posso deixar de ser eu para ser outra? Sair da zona de conforto, mesmo que tantas vezes seja um lugar escuro, para uma linha rígida sem variações. É esse o caminho? Parece ser. Dizem-me, diz-me ele, que sim, que é este o caminho se quero melhorar. Mas mais uma vez a dúvida: melhorar para ser melhor ou para estar melhor? Porque continuo a confundir ser com estar. E não sei se sou ou estou, não sei o que sou ou o que estou. 

Estabilidade quimicamente induzida. E toda uma nova realidade sem oscilações para conhecer. 

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Dizem-me que posso ser outra que não eu. 

E se eu não souber ser essa outra que não sou eu? 

E se eu conseguir ser outra? Não deixo de ser eu…? 

Talvez o vento me traga as respostas. 

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Da mediana linear. Rígida. Toda uma espécie de estabilidade que não conheço. Onde não me reconheço. Digo que não sinto. Que já não sinto. E minto a mim mesma porque sinto na mesma, apenas de uma forma que não conheço. 

Se preferia não sentir? Talvez. 

Se é medo? Talvez. Só não sei se é medo de sentir ou medo do que sinto. Ou, se calhar, de ambos. 

Respostas cínicas. Uma espécie de armadura? Uma máscara? Não sei. Não conheço nada disto. E não me reconheço nisto. 

Talvez essa mediana linear, rígida, seja uma coisa boa. Não sentir como antes, com tudo à flor da pele, com a intensidade com que sempre senti. Talvez seja uma coisa boa, essa rigidez. E até esse cinismo das respostas que me saem sem pensar. 

Talvez. Talvez. Talvez. Talvez seja melhor assim. Talvez seja a isto que chamam normalidade. Vou encaixando e tentando aprender todos os dias um pouco mais. Todos os dias uma nova prova dessa normalidade que, dizem-me, é possível. 

Talvez. 

Não sei o que esta normalidade, esta mediana linear, rígida, me irão trazer. E sim, tenho medo. Mas não posso permitir que o medo me condicione ainda mais do que já tem condicionado. 

Vai correr bem. Apenas tenho que aprender o que é isto da mediana linear, rígida, esta espécie de normalidade. Toda uma nova aprendizagem, toda uma nova construção do Eu. Que não sei quem sou, mas que, dizem-me, posso ser diferente. 

Que seja para melhor. Que seja para melhorar.