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Dois dias em casa no fim de semana. Meio dia de trabalho. Mais dois dias e meio em casa por indicação do médico. Quando tudo o que preciso é estar ocupada, não é isto que preciso.

Se por um lado existe a vontade de me isolar, por outro lado tenho um Monstro Invisível a viver na minha cabeça que se manifesta com especial violência quando estou em casa, isolada do Mundo.

Não é isto que preciso. Prefiro mil vezes oito horas diárias ao telefone, chegar a casa com as cordas vocais cansadas, ter a cabeça ocupada com apólices, sinistros, indemnizações, reembolsos, peritagens, contestações, reclamações, processos, participações, questões, fazer o melhor que sei, o melhor que posso, ser útil a outros atrás de um telefone, dar respostas a problemas, informar soluções…

Problemas versus Soluções……onde é que já ouvi isto?

Prefiro mil vezes mergulhar a casa no trabalho que me magoa os ouvidos em chamadas sem condições de rede ou com demasiado ruído de fundo, no trabalho que às vezes ainda me confunde os procedimentos porque agora já estou a atender um processo mas ainda agora estava a tratar de há 5 processos atrás.

Prefiro mil vezes pessoas rudes, arrogantes, mal educadas e acima de tudo mal informadas e pouco esclarecidas a gritar do outro lado, umas vezes com razão, demasiadas vezes sem ela, prefiro mil vezes essas vozes que nos insultam por fazermos o nosso trabalho com as informações que temos para dar, essas vozes que descarregam as frustrações por telefone e no final pedem desculpa e agradecem ou simplesmente criticam e atacam. Prefiro mil vezes essas vozes. De pessoas que não conheço. Que não me são nada mais do que clientes, terceiros, lesados, sinistrados. Não me são nada, mas são vozes que não vivem dentro da minha cabeça.

Não. Mais dois dias e meio em casa não é o que preciso neste momento. Porque se durante oito horas por dia nos dias de trabalho me é possível a qualquer momento carregar num botão e fazer uma pausa e calar as vozes que me chegam do outro lado da linha, o mesmo não é possível com as vozes que vivem na minha cabeça.

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