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24 horas de 48 para ficar em casa. 24 horas intermináveis. Onde passei por todos os estados de humor possíveis. Desde não ter vontade sequer de sair da cama a sentir-me invencível e capaz de tudo. Até regressar ao estado de não querer mexer-me, de não querer falar, de não querer comer, de não querer nada. Mesmo sabendo que não quero estar assim.

Gostava, realmente, de conseguir dar um murro na mesa e dizer a mim mesma o que me disseram há quase três anos, depois de três dias e meio em que simplesmente não falei: reage, porra! Não consigo. Porque, mesmo não querendo este estado para mim, não tenho o ânimo suficiente que é necessário para dar um murro na mesa. Não posso, também, esperar que alguém o faça por mim. Porque, ao contrário do que aconteceu há três anos, o murro na mesa vindo de fora não vai servir de absolutamente nada.

Há três anos reagi a esse murro na mesa. Hoje olho para trás e vejo-o de forma diferente do que vi na altura. Mas continuo a vê-lo como o impulso necessário à reacção de quem se estava a afundar a uma velocidade vertiginosa. Três dias. Três dias sem falar, sem soltar pouco mais do que monossílabos, sem articular duas palavras seguidas.

Três anos depois e sou obrigada a falar, nem que seja no trabalho. Mas fecham-me em casa, quebram-me a rotina, e volto a fechar-me no silêncio.

Vontade de sair da cama? Zero.

Vontade de fazer alguma coisa que me ocupe? Zero.

Vontade de falar? Zero.

Vontade de comer, seja o pequeno almoço, o almoço ou o jantar? Zero. É fazer as refeições básicas a custo porque “tem que ser”. As outras, aquelas que devia fazer a cada duas horas? Não aconteceram.

Vontade de ver gente? Zero. É obrigar-me a beber café na rua, na esplanada à porta de casa, para não estar completamente fechada e isolada do Mundo mas não querer estar ali porque tudo me incomoda. A luz. As pessoas. As vozes das conversas descontraídas de esplanada. Os carros. O vento. Tudo.

Vontade de reagir, no fundo? Zero.

“Sabes que isso é a Depressão, não sabes?”, há-de perguntar-me ele na sessão de quinta feira quando lhe fizer o resumo dos dias. Responder-lhe-ei que sim, sei. Mas que também sei que não sei dar a volta a isto.

Nunca quis isto para mim. Nunca procurei isto. Um isto que é mau demais, vazio demais, escuro demais, dorido demais. Até se tornar confortável demais…

Ou talvez não lhe responda, talvez não lhe conte nada, talvez lhe diga que as 48 horas em casa, quebra inesperada de rotina por indicação médica, não trouxeram qualquer dificuldade, não foram duras, não foram mais um pouco de afundamento no processo de me enterrar ainda mais no que é este Monstro.

De que me serve, neste momento, voltar a ser-lhe sincera, a contar-lhe tudo, se a resposta vai ser sempre a mesma, “sabes que isso é a Depressão”. Quando eu não quero ser só a Depressão. Já fui mais que isso. Já fui mais que isto! Mas neste momento não é a Depressão a ser isto tudo. Sou eu. Sou eu que não tenho força. Sou eu que não tenho ânimo. Sou eu que não tenho vontade de nada.

Sou eu que repito que nunca quis isto para mim. Sou eu que repito que não quero estar assim. Mas também sou eu que não consigo dar um murro na mesa e dizer a mim mesma: reage, porra!

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