Monthly Archives: August 2017

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De todas as perguntas que me possam fazer, apenas uma me custa responder. Pode ser uma simples pergunta de circunstância ou uma pergunta de quem quer realmente saber, sem filtros nem floreados. Apercebi-me há pouco tempo, quando hesitei na resposta, que me custa porque me pesa a responsabilidade da resposta. Porque filtros e floreados ou o politicamente correcto de conversas de circunstância já não fazem sentido, já não funcionam comigo. 

Entendo que me perguntem. Não espero que entendam quando respondo. Hesito primeiro, sempre. E acabo por dizê-lo. “Não sei…” Porque não sei como responder por não saber realmente o que responder. Porque não sei, de facto, a resposta a tão simples pergunta. “Como estás?” e a única resposta que encontro é que, de facto, não sei… 

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Fazem-me falta abraços. Afectos. O toque.

Só o toque me diz, me garante, que existo, sou real. Pele com pele. Pele de afectos que acalma a pele que queima por dentro, a minha.

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Para poder olhar em frente por vezes tenho que olhar para trás. Para trás de mim, para trás de tudo. 

Porque é lá atrás que está a resposta ao agora. E enquanto não conseguir olhar nos olhos do que está lá atrás, lá tão atrás, não conseguirei olhar apenas em frente. 

Está lá atrás. Muito, muito mais atrás do que os últimos 3 anos. Um dia aceito e resolvo. Um dia aceito-me. E resolvo-me. 

Não hoje. 

Não agora. 

Não ainda. 

Não já. 

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1 ano, 5 urgências psiquiátricas, 1 psicólogo, 1 psiquiatra, várias ausências que me moem e 365 dias de luta com muitos dias (e noites) de puro pesadelo depois, mantenho: cansam-me as vidas perfeitas. Já não me cansa que me digam que não devo expôr-me como me exponho porque quem o fazia optou pelo silêncio e/ou pela distância e ausência.

Cansa-me, isso sim, a luta constante. Diária. Hora a hora. Minuto a minuto. Cansa-me, isso sim, perceber que um ano depois e ainda continuo ali, no fundo de um poço que nunca pedi para mim. Dizem-me, diz-me ele, que ao fim deste praticamente um ano em que me acompanha semanalmente e duas vezes por semana há 6 meses, que estou melhor. Que fiz progressos. Grandes progressos, diz-me ele. Que estou diferente para melhor. Gostava de acreditar nele. Confio nele, mas não acredito quando me diz que fiz progressos. Porque não o sinto.

Ideação suicida cada vez mais presente. Vontade de auto mutilação cada vez mais intensa. Auto estima cada vez mais inexistente.

Cansa-me este estado. Do qual não sei como sair.

De resto, tudo o que escrevi há um ano podia ter sido escrito hoje. Quem sabe o que escreverei daqui a um ano. Quem sabe se, sequer, escreverei.

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“- Quando morreres, tia, vamos ter contigo ao cemitério. E levamos-te flores. E uma velinha. Boa ideia? Não. Uma velinha não, 2! Não… 5 velinhas. E uma lanterna para a chuva não as apagar. E quando morreres, tia, nós vamos ter muitas saudades tuas.” 

…………e fica a sensação que, aos 4 anos, a memória não dura para sempre. E com o tempo acaba por se apagar. Como as saudades. 

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“Salta…!”, sussurram-me as vozes.

Todos os dias ali passo. Todos os dias as oiço. Faço por não as ouvir, por não lhes dar importância. 

Não salto. Não quero saltar. Mas visto uma pele que me queima por dentro e que não posso despir. Por isso procuro riscos na pele, procuro o conforto das paredes que me confrontam. Ou o confronto com as paredes em busca de conforto. 

Não salto. Não quero saltar. Mas os riscos na pele……… 

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“- Isto um dia passa…” 

“- Não. Não passa. E sabes que não passa. Nem tem que passar. Tem, sim, que se tornar compatível com tudo o resto, contigo e com a tua vida. Mas não passa.”

…um antidepressivo, dois antipsicóticos permanentes, um antipsicótico em SOS, um antiepilético, um ansiolítico. Para quê? Se não passa nem vai passar… 

… “tornar compatível” é o novo objectivo. Quando não sou sequer compatível com a minha própria pele. 

“It’s funny how you’re the broken one but I’m the only one who needed saving”… 

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Distorção cognitiva. Ou quando a realidade aos meus olhos é diferente e alterada. 

Vejo o que sinto. Mesmo que esteja a ver mal. E sinto que em 5 apenas cabem 4. A mais? Estou eu. Por isso vou-me deixando ficar de lado. Inevitavelmente para trás. Porque o esforço não pode partir apenas de um dos lados. O meu. Estou cansada de me esforçar. Talvez a minha presença não seja assim tão necessária. Talvez a minha ausência não seja sequer sentida. 

Talvez. 

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Onde todos contam 4 eu insisto em contar 5.

Faltas tu ali… 

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“- Estou tão orgulhoso de ti. Muito orgulhoso mesmo.”

“- Tens sido muito corajosa. Tu és muito corajosa.”

“- Ainda estás em grande sofrimento. E isso não é nada bom.”

“- Tão bonito. Mesmo muito bonito. Mais um pouco e eu chorava também…”

A tentar juntar as peças de um vidro despedaçado. A tentar juntar as peças para tentar colá-las. O vidro nunca mais será o mesmo, nunca mais será igual. Algumas peças, inevitavelmente, ter-se-ão perdido. Nada voltará a estar inteiro como antes.

Isso é estar despedaçado. Mil fragmentos causados por um ou vários impactos. Mesmo sendo vários, há sempre um impacto mais forte que destrói por completo o vidro tal como se conhecia.

Tentar recuperar cada um dos fragmentos. Tentar juntar cada um dos muitos pedaços do que já não é. Tentar colar cada um dos demasiados fragmentos espalhados para longe.

Não. Há quem não faça ideia do que é isso de estar despedaçado.

E depois há quem vá distribuindo reforço positivo enquanto presta assistência a um vidro demasiado partido que por todos os meios tenta voltar a ser aquilo que nunca mais conseguirá ser: um vidro inteiro.

Não. Tu não fazes ideia do que é isso de estar despedaçado.

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Olha por mim. Olha por mim, por favor. Vivo num filme de terror, com um monstro dentro da minha cabeça. Olha por mim, por favor.

Não me deixes cair, não me deixes desistir. Não sei como, mas não me deixes cair.