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Sonhar uma primeira gravidez é perturbador. Sonhei-a pela primeira vez aos 16 anos culminando num parto peculiar. Nunca mais me esqueci desse sonho, de todos os pormenores desde o sítio onde estava aos cheiro do parto. Não sei se um parto tem algum cheiro específico, aquele teve apesar de se tratar de um sonho e ainda hoje o recordo.

Sonhar uma segunda gravidez depois do que foi a primeira, tão curta e ao mesmo tempo eterna, tão minha e apesar disso tão inválida para tanta gente, sonhar uma segunda gravidez é doloroso. Perturbador. Rouba-me o ar. Gela-me o peito. Molha-me os olhos. Faz-me querer soltar a voz e perguntar mil vezes porquê este sonho. Este sonho agora, depois de 3 anos a tentar deixar ir o que não foi, mas foi. O que foi mas não chegou a ser. O que foi não sendo. O que não sendo foi. Porquê?

Dizem que os sonhos são, muitas vezes, reflexo do que desejamos, muitas vezes de forma não consciente. Se o desejo…? Não sei. Sei, sim, que não desejo repetir 42 dias apenas. Não desejo repetir nada daqueles 42 dias, especialmente os últimos 10. Não desejo repetir os últimos 3 anos. 3 anos e 1 mês hoje. A ironia……

Se me lembro do que sonhei aos 16 anos, também me lembro do que sonhei esta noite. 6 meses de gravidez. Uma barriga que não tive. Redonda. Perfeita. Recordo-me da sensação de lhe tocar. De a afagar. Mais o toque na minha barriga do que o palpar da minha mão. Já senti muitas barrigas, sei o que é sentir de fora. Não aconteceu senti-la de dentro. Tirando esta noite. Esta noite fiquei a saber como é sentir quando tocamos o nosso bebé. Fiquei a saber como reage o nosso corpo. E como reage também o nosso bebé.

É estranho descrever tudo isto. Como se fosse real. Mas a verdade é que tenho saudades da barriga que nunca tive.

Sonhar a segunda gravidez é perturbador, especialmente depois do que foi a primeira. Mas pode ser pacífico se não incluirmos elementos estranhos a essa gravidez. Como, por exemplo, o pai do meu filho que não chegou a ser. A querer fazer-se presente agora, depois de mais de um ano de silêncio absoluto e ausência. Mais preocupado com a minha segunda gravidez por causa do que foi a primeira do que eu que aos 6 meses sabia estar tudo bem. Preocupado em querer saber quem era o pai e porque é que não era ele. Preocupado em querer saber se eu estava bem.

Elemento estranho num sonho já de si perturbador. Porque é isso que somos hoje: dois estranhos com uma gravidez em comum. E o sonho foi ainda mais perturbador só pela imposta presença de alguém que hoje já não conheço.

Tenho saudades da barriga que não tive. Mas que hoje, de alguma forma, pude sentir no esplendor dos meus 6 meses de gravidez. Mesmo que nunca venha a passar de um sonho, hoje senti a minha barriga. Por fora. É, mais importante, por dentro.

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