{#283.84.2020}

Não sei porque continuo a escrever todos os dias quando já não digo nada. Já lá vai o tempo em que o que escrevia era sentido. Não que agora não seja, mas antes não era apenas sentido. Era sofrido, dorido, e em muitos casos bastante sofrido e dorido. Era a escrever que exorcisava o que sentia, o que vivia, numa fase muito doída que já passou.

Hoje escrevo muito menos do que antes, apesar de continuar a fazê-lo todos os dias, sem excepção. É uma espécie de ritual. Uma rotina. Fecho sempre o dia a escrever, por muito pouco que diga.

Como hoje. Não digo nada, só digo que antes escrevia de forma muito mais sentida do que hoje. E às vezes sinto falta dessa forma de escrever. Mas depois lembro-me que, se escrevia dessa forma, era por não estar bem. Escrevo melhor quando não estou bem. Há quem lhe chame síndrome de artista, rótulo que entendo mas que não vejo como sendo meu. Porque não sou artista e respeito quem o seja, mas não tenho pretensões a isso.

Mas tenho saudades de jogar com as palavras. De dizer tudo quando parecia não dizer nada. Ou não dizer nada dizendo tudo.

Na verdade tenho saudades de sentir intensamente. Mas apenas coisas boas, não as outras, que dispenso e não procuro nem preciso. Mas sim, tenho saudades de sentir intensamente. Nos últimos meses apenas vou sentindo devagarinho, sem grande intensidade, porque os novos tempos assim o exigem. Não há nada que me faça reagir um bocadinho mais. Estou como que adormecida e a precisar de algo bom que me acorde. Para voltar a sentir. Porque parece que não sinto nada. Adormecida. Aborrecida. Estagnada.

Estou cansada deste estado latente. E pouco ou nada posso fazer para sair dele. Porque os meus dias são só trabalho e nada mais. E falta-me algo para conseguir voltar a escrever.

Não sei mesmo porque é que continuo a escrever todos os dias quando o que vou escrevendo são apenas lamentações de dias vazios. Mas não passo sem esse momento de palavras no éter, mesmo que também elas sejam vazias.

Um dia deixo de escrever. Não agora, não em breve porque continuo a precisar de deixar no éter alguma coisa, mas um dia.

Até lá, continuo sem saber porque continuo a escrever. Até lá, continuo a procurar algo que me faça sentir intensamente. Mas só procuro coisas boas de sentir, como algumas que guardo comigo.

Um dia. Um dia deixo de escrever. Mas não hoje. Não agora. Não já. Não ainda.

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