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Dia longo. Muito longo. Sem programa. Sem nada para fazer. A não ser existir e ver o tempo passar.

Confusão na minha cabeça. Grande. Sei exactamente o que quero. E sei, também, que de tudo o que quero o que posso ter é nada. Nada…

Respirar e ver o tempo passar é realmente existir? Às vezes parece que não. Parece que as pessoas se esquecem de nós em vida. E é uma sensação horrível… Sim, os meus dias neste momento são horríveis, sem objectivos, sem nada. Dizem-me que é porque estou doente. E estou, eu sei. Mas não tem que ser assim para sempre. Embora, neste caso, seja mesmo para sempre.

Dizem-me, também, que lá porque estou doente não significa que não possa ter uma vida dita normal. Ou, se calhar, só muito perto disso. Mas para isso é preciso ter acesso à medicação. Que ainda não tenho. Nem sei quando vou ter nem que diferença irá fazer. Assim como também não sei o que esperar da doença. Que ainda não trato por Tu porque ainda mal nos conhecemos. Ou, pelo menos, eu a ela. Porque, olhando para trás, é possível que ela já me conheça há algum tempo. Afinal, aqueles dias em 2016 em que mal podia andar porque não sentia pés e pernas, podem não ter sido uma crise de coluna… As dores de cabeça intensas e persistentes já existiam há vários anos e mesmo nessa altura se manifestavam de vez em quando.

Olhando para trás, percebo que a sombra da doença já pairava sobre mim. Afinal, não é doença que apareça subitamente, de um dia para o outro. Vai-se aproximando e ganhando terreno. Devagarinho. Quase em silêncio. Até que, por acaso, se percebe que já cá está, já se instalou, já deixou marcas.

Não. Ainda não a trato por Tu. E ainda não me atrevo, sequer, a pronunciar-lhe o nome, muito menos escrevê-lo. Se calhar ainda estou em negação. Talvez esteja. Mas já estou cansada. A suspeita apareceu em Junho do ano passado, sei que só quando houver diagnóstico fechado é que posso pronunciar-lhe o nome, mas já é falada em termos clínicos em todo o lado, em todas as especialidades médicas por onde tenho passado. E, no relatório médico, já lá está. Não como suspeita, mas como confirmação.

Faltam resultados de exames, falta fechar o diagnóstico, falta a medicação. E falta tanto para Outubro, data da consulta com o especialista. Sei que, a qualquer momento, me pode chamar. Mas nunca mais acontece. E, mais uma vez digo, estou cansada.

Nos últimos 12 meses e meio, trabalhei pouco mais de um mês e meio. Sei que não tenho condições para voltar ao trabalho tão cedo. Não enquanto não tiver medicação. E sei, também, que vai ser preciso haver alterações. Ajustes. Não voltarei a ser a mesma.

Engraçado…não voltarei a ser a mesma…mas não é apenas no trabalho. Toda eu serei uma nova pessoa depois disto. Quero muito acreditar que serei a mesma. Mas sei que não é verdade. Porque já sinto algumas limitações que, sei, terão tendência para aumentar e complicar. Mas eu já só queria voltar a ser eu. Mais nada…

Sei tão bem o que quero. Ou o que queria. Já não sei. Sei apenas que nada do que quero posso ter. Nem aquele porto de abrigo que surgiu há quase um ano e que se mantém firme. À distância de um clique… Não terei esse abraço. Esse toque. Esse cheiro. Esse beijo…

Sinto-me perdida. Em 7 dias da semana, e terminada a fisioterapia no Hospital, os meus planos resumem-se ao fim do dia às quartas feiras e as manhãs de Sábado com as aulas de Yoga. De resto? É existir de forma invisível e ver o tempo passar.

Se eu queria isto? Não. Se procurei isto? Não! Se estes dias vazios me fazem sentido? Nenhum. Se me fazem bem? Nem um pouco. Mas cá vou andando ao sabor do vento. À espera. Sempre à espera. E sem saber o que fazer ou como fazer para dar sentido a este tempo de espera.

Não me canso de repetir: estou cansada. Do quê? Nem eu sei. Mas estou cansada. De esperar, acima de tudo. E de não ver nada para a frente. É como se tivesse uma parede à minha frente que não me permite ver ou, sequer, imaginar como será o caminho adiante. Dizem-me que será diferente. Mas que é um caminho possível de se fazer. É uma questão de procurar novas formas de seguir. E conseguir. O quê? Nem eu sei…

Apetece-me chorar? Já nem sei. Porque sei que não consigo chorar. Sei que me apetece algo que tenha o mesmo efeito, mas que eu desconheço o que seja. E lá está de novo a parede à minha frente a não me deixar ver, ou sequer imaginar, como será quando tudo estiver estabilizado. Quando já não me apetecer chorar porque já encontrei algo que me alivia e conforta mas que eu não sei o que é. Que não me deixa ver, ou sequer imaginar, a diferença que a medicação pode fazer. Parede que, no fundo, não me deixa ver, ou sequer imaginar, absolutamente nada. Porque, neste momento, na minha cabeça a confusão é muito grande. E é muito alimentada de medo. De insegurança. De falta de chão.

Sinto falta de mim mesma. Mas já não sei por onde começar a procurá-la. Ou a procurar-me. Sei que ainda existo. Mesmo que apenas veja o tempo passar. Sei que ainda estou cá e faço questão de me manter cá. Mas sinto-me invisível. Esquecida. Invalidada. Remetida para um canto. Porque, para além de sentir falta de mim mesma, também sinto falta dos outros. Daqueles de quem gosto. Daqueles que gostam de mim. Eu continuo cá…perdida, mas cá.

Cansada. Muito. Ainda vou ter que esperar. Mas continuo cá. Existo. Pequenina, insignificante, invalidada, invisível. Esquecida… Mas continuo cá.

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