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#day101 out of 365plus1

Deixa o medo de lado.
Entrega e confia.
Confia, também, em ti própria. Acredita em ti.

Ansiedade é sofrer por antecipação. Não te esqueças do aqui e agora.

Recupera os rituais, as rotinas, os passos que te tranquilizam.

Recupera-te a ti própria e às tuas capacidades.  Todas elas.

Cabeça erguida. Costas direitas. Diafragma cheio. Respira.

E vai. Em frente.

Tudo vai correr bem. Hoje. Amanhã. Só por hoje, entrega e confia.

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#day99 out of 365plus1

Sexta feira e o telhado. Sem Lua. Não O telhado. Apenas o telhado. Sem Lua, um ou outro.
Com paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila. O comboio, dizem. Para quando paragem em Chelas e Marvila? Não de comboio, diz a voz dos altifalantes.

Comboio de perguntas que não faço e respostas que não chegam. Como poderiam chegar? Se há paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila…

Comboio de conflitos entre mim e a outra que não eu. Porque, mais uma vez, se perguntarem por mim dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

Não comprei bilhete para esta viagem. Mas embarquei e deixei-me ir. Sair do comboio em andamento não é impossível, apenas não é recomendado. Mesmo quando reduz a velocidade. Nunca soube qual o destino, o maquinista não revela e a voz nos altifalantes apenas repete que este é um comboio com paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila.

Nem no telhado me sei fora do comboio. Não neste telhado. Nem tampouco n’O telhado. Chego a pensar se algum dia o comboio irá, de facto, parar. Não numa qualquer estação ou apeadeiro, excepto Chelas e Marvila porque aí não pára de todo. Mas numa gare de facto. Ponto final de linha. Já pensei em accionar o travão de emergência e forçar a paragem, com todas as consequências que implica accionar do travão de emergência. Mas penso em fazê-lo antes do descarrilamento que se adivinha, tal a velocidade e as condições da via.

E dou por mim no telhado, não n’O telhado, a ver passar os comboios e continuando a viajar no meu. Sem Lua por hoje. Sem abrandamento de velocidade. Sem coragem para accionar o travão de emergência, continuando este conflito interno entre mim e a outra que não eu, aquela que sabe que accionar o travão de emergência é a solução para evitar o descarrilamento.

Hei-de ganhar coragem para o travão. Até porque, repete a voz do altifalante, este comboio tem paragem em todas estações e apeadeiros.

Excepto Chelas e Marvila.

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#day98 out of 365plus1

Voltar, sempre, onde sou bem recebida. Sempre com um sorriso, colectivo, que se percebe genuíno. Onde não sabem o meu nome mas onde o nome não é importante. Onde entro e já sabem o que quero e como gosto. Onde, quando chove, me tocam nas costas e me dizem que chatice que hoje não pode estar na esplanada como gosta. Ou quando faz sol uma mão no ombro partilha que finalmente está bom para ir saborear o seu café como gosta.

Voltar, sempre, ali. Onde ninguém sabe o meu nome, onde não sei o nome de ninguém. Onde ninguém sabe quem sou, onde ninguém me trata como só mais uma operação na máquina registadora.

Retribuo sempre os sorrisos. Mesmo de manhã cedo quando ainda o dia não começou para mim mas já corre apressado lá fora. Ou especialmente de manhã, depois de 14 minutos de comboio de rostos pesados e cinzentos, depois de 1200 metros em 12 minutos de corpos em rebanho pela avenida. Sim, especialmente de manhã retribuo os sorrisos que me recebem bem dispostos onde mostro o primeiro sorriso do dia.

Ali sinto-me bem. E imagino tantas vezes como seria qualquer pessoa ser sempre recebida assim em qualquer lado. Substituir um “o que vai ser?”  por um sorriso aberto e um sonoro mas aconchegante bom dia.

Ali esqueço-me,  por momentos, da rispidez de respostas automáticas de quem me conhece e sabe o meu nome. Mas que não sabe que o café é cheio. De quem sabe quem sou mas não sabe que o café é lá fora mesmo que chova. Ali esqueço-me do frio de ser só mais um número na passagem dos dias de quem se cruza comigo há tantos anos.

Ali volto sempre. Duas vezes por dia. 5 dias por semana.
Ali não quero voltar. Uma vez talvez. Mas a última. Porque o meu Tempo diz-me que é Tempo de sorrisos sinceros e não de frio inalcançável de números e episódios.

Mereço mais. Mereço muito mais. E por isso mesmo volto ali todos os dias. E por isso mesmo começo a afastar-me, a custo porque dói, de um cenário onde não tenho papel que não o de simples figurante.

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#day97 out of 365plus1

Sol. Em tons quentes de café. Que queima a pele e aconchega.
Tenho vontade do nascer do Sol da janela. Na estrada não posso dispensar-lhe a atenção que merece. Tenho vontade do nascer do Sol da janela. Não do vidro do carro, não da estação do comboio, não do telhado. Da janela. Daquela janela por onde nunca o vi nascer. Daquela janela aberta ao horizonte de sonhos que não ouso ter, de planos que não ouso fazer, de desejos que não ouso ter.

Sol. Em tons quentes de café. Do dia que começa ainda de noite. Do vento gélido da manhã. Das horas que passam como os dias: uma hora atrás da outra atrás da uma.

O silêncio. Que me grita. O silêncio. A ausência de sinal, a luz de presença extinta, o ponto de uma fuga impossível, os pirilampos fora de época, as bolas de sabão que não formam. O silêncio. Novamente o silêncio que me grita e que eu teimo em fazer de conta que não oiço. Porque é silêncio, apenas. É a ausência numa presença constante que pesa e pisa e passa e volta para ser, de novo, ausência.

A distância que de tão curta é intransponível. Sem barreiras que a aumentem, com uma muralha que se quer fazer passar por fortaleza e que não passa de um fosso. Sem pontes, sejam móveis, levadiças, pênseis ou em arco. Sem pontos de acesso. Apenas um fosso. Em silêncio. Que me grita. Que me pesa na permanência da ausência. Que me afasta numa tão curta distância.

O Sol. Que chega de manhã cedo em tons de café. Cheio. Intenso. Sem açúcar. Que me queima o rosto envolto no vento gélido. Que me queima os lábios ao toque do plástico.

O Sol. Que quero voltar a ver nascer à janela que não me responde. A mesma do fosso. A mesma do silêncio.

O Sol. Que vou vendo nascer do vidro do carro. Na estação do comboio. Mas não da janela.

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#day96 out of 365plus1

Hoje: insegurança, ansiedade, desnorte, medo.

Acima de tudo o medo.

Não posso permitir que nada disto me vença. Mas acima de tudo o medo. Tudo o resto é uma espiral.

Parar. Respirar. Refocar. Acima de tudo respirar. Porque acima de tudo o medo.

E sorrir mesmo que a vontade seja nula.

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#day95 out of 365plus1

April showers bring May flowers.

Cinzento, novamente o cinzento. Daquele que não é preto no branco nem branco no preto.

Let it go.

Presa a “isto” com lastro que não consigo soltar. Como uma âncora. Como uma amarra. E não, não quero mais. Quero o cinzento definido, na proporção certa de preto no branco e de branco no preto. É isso o que quero.

Be the one.

Soltar o lastro, levantar âncora, desfazer amarras e seguir. Não é possível começar de novo? Não é possível começar de novo. Como não é possível apagar os erros. Nem as asneiras. Mas é possível seguir o caminho que é meu. Unicamente meu. E que é um caminho para seguir sozinha.

Para quê fazer de conta que não é sozinha? Para quê fazer de conta que há lugar para não estar sozinha? Não há. E é sozinha que me encontro, me aceito, me conheço. Para quê criar fantasias sem nexo quando já sei, de antemão, que o meu percurso é este, desta forma?

Não importa as vezes que me renda. Não importa a força de acreditar. Não importa a vontade de querer.

Nada disso importa e é por isso entrego os pontos, baixo os braços e simplesmente sigo. Umas vezes no preto, outras vezes no branco. Nunca no cinzento definido de proporções certas de preto no branco e de branco no preto. Porque o meu caminho é outro. Sozinha.

{e ainda assim, por muito que por vezes a vontade seja quase nula, ainda vou sorrindo por haver sítios onde me fazem sentir especial. Mesmo não o sendo e sabendo-o desde sempre.}

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#day94 out of 365plus1

“What Maisie Knew”.

Ou quando o cinzento também é cor.

Ou, ainda, quando me lembro que sim, afinal sorris. E ris também. Ou sorrias e rias e brincavas e fazias piadas comigo, sobre mim. E eu ria também, sentada no chão e confirmava as piadas que fazias e acrescentava-lhes pormenores.

O cinzento também é cor.

Não sei porque me fui lembrar agora. Mas lembro-me dessas conversas sem nexo de piadas fáceis porque óbvias. E de rir em conjunto por ser tão simples. Eram outros tempos. Outras vidas. Sim, eram outras vidas porque tanta coisa aconteceu. E tudo mudou quando no ar ficou a promessa que nada iria mudar.

O cinzento também é cor.

Mudei eu, certamente. Mudou tudo. Mudei ficando a mesma. Mas mudou tudo.

O cinzento também é cor.

E às vezes sinto falta de tudo isso que mudou.

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#day93 out of 365plus1

Faz-me falta. O pleno da Primavera. O nascer do Sol da janela. O pôr do Sol com sabor a mar. A chuva que me lava a alma mesmo que molhando o corpo. A troca de palavras sem nexo ou grande sentido à mesa porque não é obrigatório mais nada que não apenas viver o momento. Rir com aditivos, sentada no chão perdendo a conta. E lembro-me tão bem que não ria sozinha. Não sorria sozinha. Não sorri sozinha.

Faz-me falta. O pleno da Primavera. Quando me reencontro e renasço. E sorrio e riu. Sem aditivos mas sempre sentada no chão.

Faz-me falta. Essa mesa. Esse chão. Esse mar. Essa janela.

Faz-me falta. Não deixarás de fazer.

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#day92 out of 365plus1

2192 dias a Sul.

3 duodécimos.

Contagem sem contar. Sem pensar.

Parar de vez em quando.

E, novamente, aquela vontade de perguntas e respostas. Sem as perguntas. Sem as respostas.

2192 dias a Sul.

20 duodécimos.

Contar sem contagem. E a pensar.

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