Category Archives: {#Capítulo1_2017}

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Sou Luz.

Sou Sombra.

Sou cor, sou a sua ausência. Sou cinzento, sou cor de rosa. Sou Amor, sou falta dele. Sou brisa, sou ventania. Sou vendaval. Sou furacão. Sou calmaria, sou tempestade. Sou Sol, sou Lua. Sou Universo, sou átomo. Sou tudo, sou nada. Sou inteira, mutilada. Plena, incompleta. Sou riso, sou lágrimas. Sou dor, sou prazer. Sou pequena, sou gigante. Sou poucochinha, sou imensa. Sou um pouco, sou bastante. Sou interesse, desinteresse. Curiosa, desinteressada. Sou Alma, sou Corpo. Sou carne, sou espírito. Sou sangue, exangue. Sou humor, sou terror. Sou tudo e sou nada.

Sou preto e sou branco. Sou homem, sou mulher. Avião, sardinha em lata. Céu azul, nuvem de cinzas. Sou fogo, sou água. Sou quente e sou gelo. Sou sorriso, rosto fechado. Sou toque, sou distância. Sou presente, sou ausência. Companhia, acompanhante. Sou sonho, pesadelo. Sou perto, sou distante. Sou aqui, sou além. Sou agora, sou mais tarde. Sou mais cedo, agora não. Sou aroma, sou sabor. Sou calor e sou Inverno. Sou, não sou. Fui, não vou. Sou presente, sou passado. Sou prenda, sou futuro. Sou só, acompanhada. Sou raiva, sou paz. Sou tumulto, sou ordem. Sou caos, sou controlada. Sou descontrolo, sou regrada. Organização, desorganizada. Tranquila, esfuziante. Euforia, apaziguada. Sou isto, sou aquilo. Sou o que sou e o que não sou.

Tudo e o seu contrário.

Sou Luz.

Sou Sombra.

Sou eu. Sou outra. A que não eu.

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Já tive melhores dias. 

Mas também já os tive piores. 

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De olhar para cima, as coisas boas: 15h30 e ela já lá está. 

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O processo de corte é libertador. Mesmo que acompanhado pela raiva e pelo ódio. A raiva e o ódio fazem parte do caminho. E acabarão por passar. A libertação fica.

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Não vejo cor. Não procuro cor. Não sou cor.

Um dia hei-de ver, hei-de de encontrar, hei-de ser. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.

O desequilíbrio é tão fácil. Tão simples. Chega a ser quase confortável. Quase desculpável? Talvez não. Mas está aqui. Tão acessível. Tão perto. Tão pronto. Tão meu. Tão Eu.

Corda bamba. Fio da navalha. Trapézio sem rede. Sei lá. Sei que não sei, não posso, não consigo, não quero voltar atrás. Não quero este registo negro que não me reconheço, não quero esta vontade de magoar por magoar, este ódio que se instalou em mim. Não quero. Não quero. Não quero. Mas sou, mas estou!, todo este registo desconhecido ou irreconhecível ou o que for. Desequilíbrio. Desequilíbrio. Desequilíbrio.

Falta de cor. Cores. Preto e branco mas não preto no branco. Sufoca-me.

Respiro sem dar conta, respiro sem respirar, respiro sem saber porquê, para quê. Movo-me, desloco-me, efectuo. Não faço nada. Fico estática em mim enquanto o corpo se move, se desloca, efectua. Um corpo mecanizado, autómato, automático. Por dentro imóvel. Sem vontade. Sem cor. Sem ar. Respiro sem ar. O que é isto? Já aqui estive? Não. Nunca foi assim. O ódio. Nunca fui assim. O ódio. Nunca quis assim. O ódio…

Que ódio é este? De onde vem? Serve para quê? O que faz? Não quero. Não sou assim. Não sou isto. Não sou ódio nem falta de cor nem imóvel num corpo automático que respira sem ar.

Um dia. A cor. O ar. O movimento. O Amor. Um dia. Um dia. Um dia. Entendo. Conheço. Reconheço. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já.

Isto é o quê?

Isto sou eu.

…e se um dia me despedir? Que diferença faz?

Nenhuma.

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Hoje? Hoje o ódio. Aquele mesmo ódio  que tinha prometido a mim mesma não sentir. Tinha-me prometido manter-te o respeito e até algum carinho pelo papel que tiveste. Mas hoje, hoje o ódio. 

O ódio que me faz andar na corda bamba, no fio da navalha, num separador de uma estrada movimentada a rasar carros em movimento. O ódio que me faz repetir para mim mesma que te matei em mim na noite de final de ano. O ódio que me faz desejar-te um feliz Ano Novo secretamente desejando que sintas um milésimo do que trago cá dentro. Do que me faz ser o que dizes que sou: instável. 

Antes instável que cobarde. Antes instável que fraca. Como tu. Que procuras soluções sem olhar os problemas de frente, sem os assumires como algo que precisa de ser trabalhado para ser resolvido. 

Antes o ódio. Antes o ódio directo e frontal que o silêncio cobarde de quem não olha os estragos que causou. Que se recusa a ver para não ter que se esforçar a reparar os danos. Antes o ódio que me faz mexer do que a cobardia de não sair da zona de conforto. 

Não, não quero isto para mim, este ódio que começa a consumir-me e a destruir-me ainda mais do que o teu silêncio cobarde, a tua indiferença também ela cobarde. Não quero andar no fio da navalha indiferente aos carros que passam a tão curta distância. Não quero perder o sono porque por dentro a inquietação não me deixa desligar. 

Não. 

Não quero o ódio. Mas hoje, hoje o ódio é tudo o que te tenho. E tenho pena também que nunca o venhas a saber. Porque se o soubesses terias, mais uma vez, a confirmação daquilo que tu próprio me disseste e que eu cheguei a duvidar: que acabas sempre por estragar tudo. E é isso que quero que recordes: as tuas falhas, os teus erros. E que convivas com elas diariamente para te pesarem o suficiente para perceberes que não, o problema não é eu ser instável, como tu me chamas. O problema é tu seres fraco. E consequentemente cobarde. 

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Ano Novo, vida nova, blá blá blá.

Ano Novo, livro novo. Páginas novas. Tanto para escrever. De preferência deixando no ano que acabou ontem os volumes anteriores. Trago comigo a continuação da história, que é minha, que é a minha. Deixo personagens para trás. Não lhes tenho lugar neste novo livro. Não lhes quero ter lugar neste novo livro.

Deixo que o vento da minha tempestade sacuda a árvore que sou. E que com esse vento da minha tempestade caiam os ramos e as folhas mais fracas. Que já não me servem. Que já não me São. E que há muito tempo já não me Estão.

Que seja o vento da minha tempestade a arrancar o que é mais fraco para evitar que me derrube. Não dói a ninguém mais do que a mim mesma. Mesmo que esse vento da minha tempestade provoque, por momentos, um furacão de palavras menos boas. Sentidas, todas elas. Que saia esse furacão de palavras em jeito de despedida no turbilhão do vento da minha tempestade, que saia tudo e arranque à força tudo o que não tem força nem coragem para se manter na árvore que sou. Que saia tudo. Só assim a minha tempestade não me derruba de vez.

Não adianta olhar para trás, para os volumes que lá ficaram. Talvez apenas como lembretes do que já passou. Nem memórias ou recordações lhe quero chamar. Apenas lembretes, um mero post-it que acaba por perder a aderência e que eventualmente se irá perder por aí. Trago comigo a história, que é a minha, trago comigo as tempestades e as calmarias. Recuso manter personagens que já foram principais e hoje são apenas sombras, ausências e silêncios.

E todas as histórias, como todas as árvores, preferem a luz, a presença e o canto das palavras ditas.

Ficam os vestígios, os danos que um dia talvez sarem, as marcas, os ramos partidos à força, as mágoas e os ressentimentos. Tudo isto um dia se transformará em cicatrizes que, como todas as cicatrizes, contarão a minha história.

Comece-se um novo livro em dia de Ano Novo depois de fechar um capítulo em noite de fim de ano. Porque, neste momento, acima de tudo estou eu. Apenas eu. E devo a mim mesma colocar-me, desta vez, em primeiro lugar. Doa o que doer a quem doer. Não irá certamente doer tanto como me tem doído a mim nos últimos 366 dias + 500 + 19 depois de 42.