Category Archives: {#Capítulo5_2017}

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Às vezes esqueço-me dele, o caracol que queria ter nome e não entendia porque tinha que ser tão lento. E esqueço-me, também, da tartaruga memória que baptizou o caracol de Rebelde e o ensinou da importância da lentidão.

Não vivo no país Dente-de-Leão, mas também eu poderia chamar-me Rebelde por não entender o porquê da lentidão no meu processo. Lentidão que tantas vezes me parece que retrocedo em vez de avançar. Talvez um dia a minha tartaruga chamada Memória me ensine o que me falta aprender. E é tanto. Talvez um dia me ensine a aceitar o que ela me repete tantas vezes. Talvez aí, nesse dia, eu caracol de nome Rebelde oiça a minha tartaruga de nome Memória com todo o tempo de quem não tem pressa em ficar bem porque já fiquei.

Ainda não li o livro. Não o tenho, como poderia ter lido? Mas preciso dele. A tartaruga Memória decerto terá muito para ensinar. Ao caracol Rebelde que queria ter nome e não entendia o porquê de ser tão lento e a mim que não sei ser muito mais do que alguém que simplesmente segue um dia atrás do outro atrás do um quase sem rumo definido por ter pressa em ficar bem.

Talvez um dia o livro chegue até mim. Talvez um dia a minha memória que não a tartaruga me ajude a não olhar para ela e ver fantasmas e experiências lá de trás de forma ainda dolorosa.

Talvez um dia tudo isto. A lentidão, o não ter nome, a memória, o peso que a coruja carrega que não a deixa voar. Talvez um dia.

Talvez um dia regresse a casa, ao país Dente-de-Leão, permitindo deixar voar para longe as sementes que já não me servem.

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Um dia retomo o foco. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já. 

Quem sabe nesse dia regressa o equilíbrio… Esse mesmo que agora não reconheço. 

E todos os dias um pouco mais cansada. E todos os dias um pouco mais de vontade de desistir… 

Um dia retomo o foco. 

Um dia. Que não hoje. 

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ideação | s. f.

derivação fem. sing. de idear

i·de·a·ção   (idear + -ção)

substantivo feminino

1. Acto ou efeito de idear.

2. Formação da ideia.

3. Conjunto de pensamentos recorrentes (ex.: ideação suicida).

ideação“, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

………ideação. Idear. Ideias. Todos os dias. A todas as horas. Recorrentemente.

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Olhar para cima. Custe o que custar. 

Porque Ela está lá sempre. 

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Até os bichos saem da toca. Para procurar alimento, para irem do ponto A ao ponto B, por curiosidade ou por necessidade. 

Não me incomodam os bichos que saem da toca, cruzo-me com eles, puxo conversa mesmo que não me respondam. Paro para os ver, para os observar. E seguimos por aí, cada um no seu caminho, acabando invariavelmente por regressarmos, ambos, à toca. 

Depois há os outros. Não necessariamente bichos. Mas que apresentam tendência para sair da toca apenas quando espicaçados. Quando algum factor exterior os obriga a dar sinais de vida. Não foi, hoje, a primeira vez. Espero que, comigo, seja a última. Porque se não me incomoda cruzar-me com bichos que espontaneamente saem da toca nos afazeres da sua natureza, os outros incomodam ao ponto de me sentir, novamente, agitada. Inquieta. Ansiosa? Talvez ansiosa. Insegura de certeza. 

Porque um cobarde é um cobarde é um cobarde. E só sai da toca quando espicaçado. Quando provocado. Como em Agosto. Como hoje. Ou quando os seus próprios interesses se sobrepõem ao equilíbrio de terceiros. Como tantas vezes, demasiadas vezes nos últimos anos. 

Não me incomodam os bichos. Gosto deles. Gosto quando nos cruzamos quando ambos saímos de livre vontade das respectivas tocas. 

Não gosto dos outros. Dos que saem da toca, do esconderijo, apenas quando provocados por factores exteriores e que me incomodam, me inquietam, me deixam novamente insegura quando ainda me sinto vulnerável. 

Não vai fazer estragos. Não…? Não sei. Sei que não o posso permitir. Porque, ao fim de tanto tempo, primeiro estou eu. Não o posso permitir porque a vulnerabilidade é ainda demasiado grande. E a linha, aquela linha que não quero atravessar, a linha é demasiado ténue. E não quero regressar onde já estive porque os outros se esconderam na toca quando mais precisei que saíssem sem serem espicaçados. 

O estrago ainda cá está. Marcado como a ferro quente. A ferida ainda longe de cicatrizar. Ainda infecta. Ainda demasiado dolorosa. E o timing está longe de ser o ideal. Mas talvez seja agora porque tem que ser agora. 

Não me incomodam os bichos. Não me assustam. Incomodam-me os outros. Assusta-me a agitação que chegou de repente e parece ter-se instalado mesmo quando os químicos a deveriam deixar ao largo. 

Não me incomodam os bichos. 

Incomodas-me tu. E só hoje percebi o quanto me incomodas. Ainda. 

{#página123} 

“A sério? Ninguém diria!” 

Pois não. Daquela porta para dentro, em cruzamentos esporádicos no corredor, sempre com um sorriso porque sim e por não saber cruzar-me, ali, de outra forma, não, ninguém diria. Mas daquela porta para fora, daquela porta para fora está o Mundo real, aquele onde não me encaixo, onde não me sinto bem, onde me perco mais do que me encontro, aquele Mundo que cada vez me diz menos, onde o ruído me desorienta, onde não vejo mais do que pressa e rotinas nos outros, confusão, desnorte, desnorte meu, claro, sem rumo, sem objectivos, sem propósito. Daquela porta para fora onde não vivo, sobrevivo. Daquela porta onde a minha cabeça me grita. E a vontade nula de voltar para casa e sem ter outro sítio para onde que não seja para casa. 
Não. Daquela porta para dentro ninguém diria. E preferia manter-me ali, daquela porta para dentro, mais tempo. Porque ali o tempo passa, porque ali a cabeça não tem tempo para me gritar, porque ali faço falta ainda que seja somente para ocupar mais um posto, porque ali tenho um objectivo, mesmo que seja apenas um, porque ali sei para onde fica o Norte, porque ali não estou em casa, em minha casa, onde revivo vezes sem conta todas as sombras, todos os ecos, todos os pesadelos em vigília, as noites em branco. 

Daquela porta para dentro. Daquela porta para fora. Duas realidades distintas. Duas de mim que sou tantas, que sou nenhuma, que sou nada. 

Ninguém diria. Daquela porta para dentro toda uma realidade alternativa. 

Ninguém diria. Daquela porta para fora toda uma realidade que me faz querer continuar a fugir. 

Não. De facto ninguém diria. Tirando, talvez, os olhos cheios de lágrimas dos zero aos 100 em menos de um nada temporal que não sei definir de tão veloz, de tão rápido. 

Não. Ninguém diria. De facto ninguém diria. 

Mas sim, essa que ninguém diria sou, de facto, eu. 

{#página122} 

Pode o céu ser cor de rosa? Pode. 

Podes tu ser uma árvore? Podes. 

Pode alguém dizer-te o que podes ou não ser? Não. 

Pode alguém dizer-te como podes ou não estar? Não. 

Pode alguém dizer-te o que podes ou não sentir? Não. 

Pode alguém dizer-te como podes ou não reagir? Não. 

Porque o céu é cor de rosa sempre que tu queiras. 

Porque tu és uma árvore sempre que tu queiras. 

Porque, sabes bem, tudo é possível ser o que for. Tu uma árvore, o céu cor de rosa. E ninguém te pode dizer que não, que não é assim porque a sua experiência dita diferente. Porque a tua experiência é tua, apenas. E é a tua experiência que te dita que sim, que é possível o céu ser cor de rosa e tu uma árvore mais ou menos robusta, mais ou menos forte, mais ou menos despida. 

O teu céu pode ser da cor que tu quiseres. E nunca te esqueças de continuar a ser árvore.

Tu. Só tu. Apenas tu. Diferente.

Única. 

Tu. 

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E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

Meditação, diz-me ele. Para me ajudar a manter no aqui e agora e relaxar e acalmar a mente. 

Medicação, diz-me o hospital. Para me deixar grogue em apenas dois dias, para baixar os níveis de ansiedade, de irritabilidade, de intolerância ao ruído, de desorientação constante. 

Um dia atrás do outro atrás do um, repito de mim para mim diariamente, seguindo a dica de quem está ausente desde o primeiro dia em que se fez necessário ser presente. 

Novamente a noite. As noites. Que não podem voltar a ser em branco, nem quando o estômago se revolta toda a noite e me vira do avesso. As noites que são demasiado longas, demasiado negras, demasiado sozinhas… 

“E agora, não está em nenhuma relação? Não? Pois, isso também não ajuda nada, não… ” dizem-me no hospital. Como se bastasse uma prescrição médica numa qualquer urgência psiquiátrica para ocupar esse lugar vazio. 

As noites. Sempre as noites, desde sempre as noites. Mas que agora preciso combater porque há horários estipulados numa rotina que não posso dar-me ao luxo de não cumprir. 

Sozinha. A noite. As noites. A meditação que não consigo manter. A medicação que não queria ter. 

Cansada destas noites. Cansada deste estado. Cansada disto em que me tornei. Diz-me ele que vou melhorar. Diz-me ele que em conjunto, 3 horas por semana e várias sms por dia, vamos conseguir ultrapassar e melhorar e ficar bem, demore o tempo que demorar. E diz-me, também, que não vai ser fácil nem vai ser rápido mas que vai estar lá sempre que eu precisar. Mesmo que seja apenas em 2 dias e 3 horas marcadas por semana e sempre que do lado de lá o telefone tocar porque preciso de luz. 

Sozinha. Mesmo que ele me diga que estou acompanhada. Sozinha. E a noite. As noites. E o silêncio. E a falta de luz. Sozinha. Comigo, a única pessoa com quem não sei estar, eu mesma assim. Neste estado que não sei aceitar. Não sei acalmar. Não sei melhorar. 

E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

E eu. Apenas.