Category Archives: {#Capítulo7_2017}

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Percebo agora que muito do que digo, muito do que escrevo são as vozes em meu lugar. 

Cada vez menos sei o que sou, quem sou. Percebo, apenas, que sou mais do que isto. Tenho que ser mais do que isto. Não posso ser apenas as vozes na minha cabeça, a ideação, a Depressão. Não posso ser apenas isto. 

Não sei como, as vozes enganam-me, não sei como permito que as vozes falem no meu lugar. Sei, apenas, que as julgava caladas. Ou, pelo menos, mais silenciosas. 

Riscos na pele. Para sentir. Para deixar de sentir. São as vozes que mo dizem. Deixar de sentir. Quando já questiono tudo o que sinto, tudo o que alguma vez senti. 

Prefiro não sentir mais. Prefiro não sentir mais para não voltar a dar lugar às vozes que me prometem riscos na pele. 

Riscos na pele. Recordações à flor da pele. 

Não quero mais. Não quero mais disto. 

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Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses quando digo que me queima a pele. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses a fragilidade feita força que ainda hoje trago comigo. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses esses espasmos no meu corpo que procuro acalmar procurando o conforto do confronto com as paredes. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses que, às vezes, preciso que me amparem com força para não cair quando me falta a força e o ar entra descompassado e muito superficialmente. 

Nunca me ouviste chorar. 

Talvez se tivesses ouvido entendesses porque quero tantas vezes gritar de dor. 

Não. Nunca me ouviste chorar. E mesmo que tivesses ouvido nunca irias entender. Nada. 

Porque é a mim que a pele queima, é a mim que a fragilidade se faz força, é a mim que o corpo estremece a cada novo espasmo, é a mim que o confronto com as paredes traz algum conforto, é a mim que me amparam quando a força me foge no descompassado entrar superficial do pouco ar que entra, é a mim que a voz dói depois de gritar “porquê eu? Porquê?!”. 

Não. Nunca me ouviste chorar. Nunca irás ouvir-me chorar. Porque mesmo que ceda aos riscos na pele para acalmar a pele queimada, apenas me permito chorar como nunca me ouviste ali, entre aquelas 4 paredes onde ponho a descoberto tudo aquilo que teima em ainda consumir-me. 

Não. 

Nunca me ouviste chorar. 

Nunca irás ouvir. Mesmo que os riscos na pele se aprofundem e deixem marcas visíveis a qualquer um. 

Nunca me ouviste chorar. E eu chorarei todas as vezes que precisar. E tantas vezes em silêncio. Escondida. De mim e do Mundo. Mas nunca mais escondida de ti. Simplesmente porque não, nunca me ouviste chorar. 

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Não me toques. Porque se até o toque me queima a pele, não me toques. Porque se até o toque traz de volta os espamos pelo meu corpo, não me toques. Porque se até o toque me impede de respirar para não chorar, não me toques. 

Memórias inconscientes à flor da pele. 

Não me toques. 

Ou terás que encontrar coragem para não me deixares cair. 

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Memórias à flor da pele que queimam. Não as alimento, são elas que me consomem. Que me queimam a pele. Queimam a pele ao ponto de me recordar que os riscos na pele acalmam a dor. 

Não alimento o que me consome. Faço por conseguir sobreviver a tudo isto. Faço por conseguir respirar. Choro e tento deixar sair. Tenho que deixar sair. Tem que sair. Antes que me consuma por completo. Antes que regressem os riscos na pele. Antes que……… 

“Respira fundo. Com calma. Outra vez.”, diz-me ele, ao meu lado. Onde tem estado desde aquele primeiro dia de Agosto do ano passado. “Respira. Tens que regressar agora.” Tenho que regressar de uma viagem violenta e inesperada. Inesperada pela intensidade. Pela vontade de gritar. Porquê eu? Porquê comigo? Pela vontade de bater com os punhos fechados no chão. Pela vontade de me esvaziar da raiva que ainda sinto. 

“Regressa… Vá. Respira fundo. Respira com calma.”, ao mesmo tempo que me agarra, que me abraça com força e me diz que está ali comigo. “Olha para mim. Olha para mim… Eu estou aqui. Respira fundo. Olha para mim.”, vai repetindo com calma e com todo o tempo do Mundo para que eu regresse, para que aterre de mais uma viagem de terror. 

Trabalhar a memória. Aprender a lidar com ela. Aprender a aceitar a parte dorida da memória. Não me resta mais nada que não aceitar. 

Hei-de acabar por aprender. Hei-de acabar por aceitar. Até lá, hei-de regressar a estas viagens violentas a frio. Sem anestesia. Sem atenuantes. Mas com a certeza que me é repetida constantemente de que ele, que apenas faz o seu trabalho, vai lá estar para não me deixar cair. 

Porque a alternativa não pode ser opção. 

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Valorizo a memória. As memórias. É lá que tudo se mantém no depois. Independentemente do rumo, do caminho, do momento presente, a memória lembra-nos outros momentos, regista marcos no percurso. 

Precisamente pela importância da memória não fico indiferente a sorrisos de outros momentos perdidos no chão de uma qualquer rua. Como estes. Incomodou-me vê-los ali. Abandonados. Uma colecção inteira de sorrisos cúmplices, de marcos de percurso, de momentos que não se repetem. Incomodou-me e por isso mesmo os recolhi. Olhei-os e prometi-lhes, aos sorrisos gravados, que os haveria de entregar a quem deles tivesse memória. 

Sorri ao perceber que rapidamente os sorrisos gravados se reconheceram e sorriram também pelo meu encontro com um álbum de memórias que não se sabia sequer perdido. Que, percebi, nunca seria abandonado. 

Não importa realmente se estes sorrisos se mantêm cúmplices neste momento que é agora e não naquele tempo de memórias. Importa apenas que se criaram novos sorrisos e novas memórias. E isso, para mim, é o suficiente. 

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“Aceita a relatividade e a fugacidade de todas as coisas.”

Aceitar. Aceitar-me. 

Um dia. 

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As palavras no papel não me saem. “Deixa fluir, escreve sem objectivo. Acaba por sair alguma coisa.” 

Deixo fluir. E o pouco que sai resume-se a nada. Apenas me confirma que não vale a pena. Não vale a pena o esforço de avançar. De estar/ficar (ser?) melhor. 

É tão mais fácil simplesmente desistir. Porque continuar não me vai levar a lado nenhum e tudo continuará igual. E eu continuarei como sempre: sozinha e sem importância. 

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Julho, 4. 16 de 42.

1069 dias depois de 42 e revivo tudo novamente. 

Podia pedir para adormecer agora e acordar só quando Julho terminasse. Mas Agosto ainda me é difícil também. E Setembro é frágil. Posso regressar só em Outubro…? 

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Água em Pó. Estávamos em 1992, já vínhamos desde 1987. Não me recordo se a Água em Pó ia ao micro-ondas ou se bastava juntar água. Mas nunca mais me esqueci da Água em Pó.

Cruzámo-nos pela última vez lá para 1997. Ou terá sido ainda em 1996? Recordo-me desse encontro. Completamente ao acaso. Recordo-me, também, do que falámos. Ele a fazer melhoria de nota. Eu a ir à secretaria da escola. Lembro-me de o ter visto sorrir quando me viu. Sorri-lhe de volta e com gosto. Nunca mais nos cruzámos por aí.

Fui sabendo dele, por trás de ecrãs que não de computador. Fui, de certa forma, acompanhando-lhe o percurso. E sempre que sabia dele sorria com um misto de admiração e orgulho. Admiração não por me surpreender, muito pelo contrário, por sempre o ter sabido diferente e capaz. Orgulho exactamente pelo mesmo motivo.

Lembro-me várias vezes de aulas de matemática ou de biologia no 5° ano, quando dividiamos carteira. Ou melhor, mesas de grupo. Eram grupos de 4. Apenas me recordo dele. Lembro-me que conversavamos de outras coisas que não das aulas. Recordo algumas brincadeiras típicas de quem tinha 10 anos e começava agora a crescer devagar.

Ainda lhe oiço a voz ao longe na memória. Há muito tempo, tanto tempo, 20 anos?, 21?, que não o oiço de viva voz, mas ainda o oiço na memória dos 10 anos a dizer-me, na aula de biologia, ou ainda se chamava Ciências da Natureza?, a dizer-me depois de me olhar nos olhos “tens olhos de cobra…tens olhos de serpente!”. Nunca lhe perguntei o que significa ter olhos de cobra, mas nunca o esqueci.

Água em Pó em 1992, filmes de película rodados no terraço de um prédio vizinho, jogos de futebol e uma bola, dele, que ficou no telhado do pavilhão A depois de um chuto mal medido dado por mim. Jogos de basket. Visitas de estudo. Festas de aniversário. Segredos guardados aos 12 anos. Experiências prometidas aos 15 numa aula de Físico-química em que, mais uma vez, partilhavamos carteira mas não concretizadas.

Ele sempre muito mais seguro e decidido do que eu. Mais crescido, ainda que apenas 29 dias nos separassem no calendário dos aniversários.

Recordo-lhe a voz. E a cicatriz no queixo. E o ar trocista de quem tenta convencer da chegada do anti-cristo alguém que o parou na rua para lhe testemunhar um qualquer deus.

1997. Ou seria ainda 1996? Não interessa. São 20 anos bem medidos num total de 30. Já não há Água em Pó. Já não há espectáculo multimédia de uma exposição universal que não visitámos mas recriámos.

20 anos depois, “olá, Catarina”. E voltou a Água em Pó. Voltaram as memórias todas que nunca se apagaram e algumas, muitas, que nem sequer adormeceram. Deste lado do ecrã sorri. Quero acreditar que do lado de lá ele sorriu também. Deste lado do ecrã tanta coisa mudou, do lado de lá também. Deste lado do ecrã tanta coisa se mantém igual, ali no eixo 10-15 anos onde éramos mais presentes, também no eixo 15-20 onde a distância natural de quem percorre caminhos distantes acaba por ditar as regras. Do lado de lá do ecrã acredito que ainda será possível encontrar aquele miúdo da cicatriz.

Sabia que lhe sentia a falta. De saber dele na primeira pessoa. Ainda lhe sinto a falta da voz que sei manter-se igual à voz que ecoa na minha memória. Não sabia, não tinha noção, que ele foi, muito provavelmente, o meu melhor amigo do final da infância e início da adolescência. Nunca lho disse. Como poderia tê-lo feito se só hoje o percebi?

“Olá, Catarina. Estás Boa?” e eu ali, sem poder dispensar muitos minutos do meu primeiro dia de trabalho depois das férias e a viajar 30 anos para trás.

Fazia-me falta. E percebo hoje que ele sempre foi um dos ramos da minha árvore. E se há um ano cortei um ramo que não me deixava crescer, hoje recupero, mesmo que atrás de um ecrã, um ramo que me acompanhou quando ambos começámos a crescer. Devagar.

A ti, André, brindo com água. Com Água em Pó. E tu saberás porquê. Obrigada por voltares a sorrir-me com o teu ar trocista. Obrigada por me voltares. Tinha saudades tuas.

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Dia 2 de Julho, o dia do meio. Aquele que não já não pertence à primeira metade do ano nem chega a tempo da segunda metade. Um dia que não pertence a lado nenhum ou um dia especial porque único e diferente? 

Ou simplesmente só mais um dia atrás do outro atrás do um. 

Último dia de férias, segundo dia do mês que me assusta. Felizmente amanhã retoma-se a rotina dos dias ocupados, de cabeça sem tempo para pensar. Ainda que as memórias, essas, as sinta por inteiro na pele. 

Dia 2 de Julho. O dia do meio. O dia que não pertence a lado nenhum. Como eu. 

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Julho. E tudo, novamente, à flor da pele……… 

Tenho medo de Julho…