Category Archives: {#Capítulo8_2017}

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“Salta…!”, sussurram-me as vozes.

Todos os dias ali passo. Todos os dias as oiço. Faço por não as ouvir, por não lhes dar importância. 

Não salto. Não quero saltar. Mas visto uma pele que me queima por dentro e que não posso despir. Por isso procuro riscos na pele, procuro o conforto das paredes que me confrontam. Ou o confronto com as paredes em busca de conforto. 

Não salto. Não quero saltar. Mas os riscos na pele……… 

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“- Isto um dia passa…” 

“- Não. Não passa. E sabes que não passa. Nem tem que passar. Tem, sim, que se tornar compatível com tudo o resto, contigo e com a tua vida. Mas não passa.”

…um antidepressivo, dois antipsicóticos permanentes, um antipsicótico em SOS, um antiepilético, um ansiolítico. Para quê? Se não passa nem vai passar… 

… “tornar compatível” é o novo objectivo. Quando não sou sequer compatível com a minha própria pele. 

“It’s funny how you’re the broken one but I’m the only one who needed saving”… 

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Distorção cognitiva. Ou quando a realidade aos meus olhos é diferente e alterada. 

Vejo o que sinto. Mesmo que esteja a ver mal. E sinto que em 5 apenas cabem 4. A mais? Estou eu. Por isso vou-me deixando ficar de lado. Inevitavelmente para trás. Porque o esforço não pode partir apenas de um dos lados. O meu. Estou cansada de me esforçar. Talvez a minha presença não seja assim tão necessária. Talvez a minha ausência não seja sequer sentida. 

Talvez. 

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Onde todos contam 4 eu insisto em contar 5.

Faltas tu ali… 

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“- Estou tão orgulhoso de ti. Muito orgulhoso mesmo.”

“- Tens sido muito corajosa. Tu és muito corajosa.”

“- Ainda estás em grande sofrimento. E isso não é nada bom.”

“- Tão bonito. Mesmo muito bonito. Mais um pouco e eu chorava também…”

A tentar juntar as peças de um vidro despedaçado. A tentar juntar as peças para tentar colá-las. O vidro nunca mais será o mesmo, nunca mais será igual. Algumas peças, inevitavelmente, ter-se-ão perdido. Nada voltará a estar inteiro como antes.

Isso é estar despedaçado. Mil fragmentos causados por um ou vários impactos. Mesmo sendo vários, há sempre um impacto mais forte que destrói por completo o vidro tal como se conhecia.

Tentar recuperar cada um dos fragmentos. Tentar juntar cada um dos muitos pedaços do que já não é. Tentar colar cada um dos demasiados fragmentos espalhados para longe.

Não. Há quem não faça ideia do que é isso de estar despedaçado.

E depois há quem vá distribuindo reforço positivo enquanto presta assistência a um vidro demasiado partido que por todos os meios tenta voltar a ser aquilo que nunca mais conseguirá ser: um vidro inteiro.

Não. Tu não fazes ideia do que é isso de estar despedaçado.

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Olha por mim. Olha por mim, por favor. Vivo num filme de terror, com um monstro dentro da minha cabeça. Olha por mim, por favor.

Não me deixes cair, não me deixes desistir. Não sei como, mas não me deixes cair.