Category Archives: {Me me me!}

{segredo}

Sabes qual é o segredo? É seres igual a ti própria, com todas as características que fazem de ti quem tu és. Não importa o que és mas sim quem és. E és tu, assim, sem mais,sem menos do tu simples tu.

O que é um rótulo se não uma etiqueta que aponta apenas partes do todo? És tão mais do que isso.

Lembra-te sempre: és tu tal como és. Há os que gostam e os que não gostam. Mas os que não gostam não fazem falta e tu sabes deixá-los ir. Sobram os que gostam.

E porque é que gostam? Porque tu és tu. Não serias tu se fosses outra. E não seria por ti que os que gostam ficam.

Não te esqueças. O segredo é seres tu.

No fundo, o segredo és tu. Só tu. Sem mais. Sem menos.

Só tu.

{do suicídio. Ou da pele que queima por dentro} 

Chester Bennington. Morte por suicídio aos 41 anos. Na data de aniversário de Chris Cornell, morte por suicídio aos 52 anos. 

É fácil ficar-se chocado com o suicídio de alguém. Muitos não entendem o porquê. Nem têm que entender. 

Suicídio não é egoísmo, como tantos dizem por aí. Suicídio é arrancar a pele que queima por dentro. A pele que prende à Depressão quem tenta sair dela. Quem luta todos os dias para sobreviver a essa pele que queima, que prende, que acaba por sufocar. 

Suicídio não é, como tantos dizem por aí, a solução fácil dos fracos. Primeiro porque não é fácil. É desespero puro. Segundo porque não é dos fracos. Os fracos são os que se movimentam por aí como se nada se passasse. Os outros, os suicidas, são os que desesperadamente lutam todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos, com toda a força que nem sabiam que tinham até precisarem dela. 

Suicídio não é desistir de lutar. Não é render-se à dor e ao desespero. Não é falta de coragem para enfrentar os problemas. 

Suicídio é a libertação. Da pele. Aquela que queima por dentro. Que prende. Que sufoca. 

Se é solução? Não sei. Sei, sim, que há momentos em que o desespero nos faz querer sair de nós próprios para deixarmos de sentir dor. Aquela dor que quem está de fora não sente, não vê, não entende e tantas vezes não aceita. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me queima por dentro como se fosse irrigada por ácido no lugar de sangue. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me prende e me condiciona os movimentos e me conduz a gestos de auto-agressão. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me sufoca e me faz querer gritar e chorar em vez de rir. 

Sim, posso ser considerada de suicida. A ideação suicida está instalada. Não, nunca tentei o suicídio. Mas as vozes……… 

Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão. Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão Major. Mas não é difícil viver/conviver com um suicida. Porque nós, os que temos ideação suicida, não vos dizemos nada sobre isso. 

Olhem mais vezes para o lado. Há sinais. Dêem-se ao trabalho de olhar para o lado, para o outro, com olhos de ver. Aquele colega de comportamento que oscila entre o estar quieto no seu canto e o ser demasiado extrovertido pode estar apenas à espera que alguém lhe agarre na mão e lhe diga “estou aqui contigo”. 

Não adianta fazer de conta que não se passa nada para depois receber a notícia em choque. 

Na verdade, simplesmente não adianta fazer de conta que não se passa nada. Porque passa tudo na cabeça de um suicida. 

E na minha já passou demasiado.

{#página171} 

“- Tia, estás diferente… 

– Diferente? Porquê? 

– Não sei… Estás mais velhota. 

– Hum… E estou diferente para melhor ou para pior? 

– Hum… Acho que é um bocadinho dos dois!” 

Há quem me diga que estou melhor. Que nos últimos meses fiz, fizemos, progressos. Digo-lhe sempre que estou diferente. Não gosto, não quero?, dizer que estou melhor. Por medo, talvez. Medo de voltar ao ponto que me levou até ele. É normal que possa acontecer, voltar a cair, diz-me ele enquanto vai repetindo que preciso de verbalizar que sim, que estou melhor. Respondo-lhe sempre que estou diferente. Que não consigo verbalizar o que ele me pede. Que tenho medo. E ele lá vai dizendo que, se voltar a cair, saberei melhor como voltar a levantar-me. Que será mais fácil. 

E se não for…? 

É, também, por isso que prefiro agarrar-me à opinião dos 7 anos do Miguel: estou diferente. Mesmo que seja para melhor e para pior em simultâneo. 

{#página127} 

Dia da Mãe 3.0

Mais um a tentar que seja só mais um dia igual aos outros. Mesmo não sendo. Porque há quem ainda diga que não o sou, não o fui, “se um dia fores”…

O Baltazar e eu fomos ali a um sítio que já começa a ser demasiado habitual. Uma urgência daquelas que recusei, recorri, voltei a recusar, voltei a recorrer, repito agora novamente. Passar de pulseiras amarelas a pulseira laranja. E medicação antes de sair da urgência. Não era isto que eu queria para o dia da Mãe…
Fomos só os dois. Porque sim. Porque o dia é meu. À minha maneira, por isso só meu. E do Baltazar. Porque não há, não chegou a haver, João… E, do outro João, o pai, descobrir que além de cobarde também é um canalha.

Fomos só os dois, mas do outro lado da linha os apoios de emergência. Desculpem se, desta vez, vos assustei. Também me assustei a mim.

E, ainda do dia da Mãe, uma mensagem de uma Mãe enorme para todas as Mães de todos os tipos.

Às mães de todos os tipos: Feliz Dia da Mãe!

Todas as mães se tornam mães em momentos diferentes.
(…)
Algumas destas mães têm o seu sonho interrompido na gravidez, e permanecem de colo vazio. Mas são mães.
(…)
Algumas vêem os seus filhos morrer antes delas: na gravidez, no parto, em recém nascidos, ou adultos, E são mães, nunca deixam de ser mães.
(…)”

Que podem completo aqui

{#página112} 

978 depois de 18. 996 depois de 42.
Ainda faz sentido escrever? 

Ainda faz sentido falar? 

Ainda faz sentido sentir? 

………ainda faz sentido sequer tudo isto………? 

{do eco} 

Acção -> Reacção. 

Só que não. Só que não… Claro que não! 

Pior que falar com uma parede. Porque até a parede devolve o eco. 

É como se falasse com um Buraco Negro. Que engole tudo à sua volta sem devolver eco ou reacção. Quem sabe um dia passe a Buraco Branco e vomite o que tem guardado. Não deverá ser bonito. Mas é preferível uma Reacção a um absoluto vazio de tudo. 

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14610 dias. Ou 39 anos + 365 dias. A véspera dos 40. (como assim, 40…?)

Absolutamente aconchegada com o mimo de hoje. Obrigada, tanto, a quem esteve presente na despedida dos 39. E obrigada também a quem não pode estar mas que marcou presença na mesma, por mensagem ou por telefone, só para me deixar mais um bocadinho de mimo. 

O dia de festa é só amanhã, mas hoje valeu por tanto mais que o dia certo. 

Muito obrigada. Mesmo. 

(como assim, 40 amanhã…?) 

{#página40} 

Como se sobrevive no fundo do poço, onde falta o ar, falta a luz, falta a cor? 

Já lá estive antes. Não me recordo como saí… Ou recordo-me. Até bem demais. Três dias em silêncio até que um murro na mesa me trouxe de volta. 

Não vai haver murro na mesa desta vez. Não há murro na mesa há muito tempo, desde o dia “já não posso fazer nada por ti”. Porque um cobarde é um cobarde é um cobarde. 

Há, sim, várias luzes de presença. Que me chamam, que tentam puxar por mim. Mas eu não sei, já, como voltar para cima. Como corresponder ao chamamento dessas luzes de presença. Onde está a energia, a força, para me trazer de volta à superfície. 

Dizem que faz parte. Dizem que sou forte. Dizem que vou conseguir. Digo que até lá, um dia atrás do outro atrás do um, o esforço para sobreviver é demasiado grande, demasiado doloroso, demasiado violento. 

Onde vou para encontrar essa tal de força que me dizem que tenho? Onde vou para respirar quando o ar não entra e a voz não sai? Onde vou para regressar à superfície? 

Afogo-me todos os dias um pouco mais. Apago-me todos os dias um pouco mais. 

Como se sobrevive no fundo do poço, onde falta o ar, falta a luz, falta a cor? No fundo do poço onde estou eu, onde falto eu. 

{um cobarde é um cobarde é um cobarde} 

Um cobarde é um cobarde é um cobarde.

Um cobarde é o que diz a quem o quiser ouvir que não quer problemas, quer soluções. Esquecendo-se das consequências das soluções dos problemas.

Um cobarde é o que nega as consequências acreditando que são apenas danos colaterais quando, na realidade, são danos directos das soluções dos problemas.

Um cobarde é o que, depois de encontrada a solução, atira para debaixo do tapete as consequências e finge que não existem.

Um cobarde é um cobarde é um cobarde.

Alguém que lhe diga que não é por agora se dedicar ao voluntariado que a consciência lhe fica mais leve. Até porque um cobarde simplesmente não tem consciência para lhe pesar. E não serão as acções de voluntariado que agora apregoa que lhe vão trazer o que nunca teve: a dignidade de ser algo mais do que um cobarde.

Espalhe-se a palavra. Porque é sempre importante recordar a um cobarde que nunca passará disso mesmo, um cobarde. E a idade para se fazer homenzinho já vai longe.

Um cobarde é um cobarde é um cobarde. E nunca será mais que um cobarde.

{#página29} 

Um fim de semana. Um fim de semana apenas. Seria suficiente para fazer toda a diferença. 

Sem horários, sem pressas, sem pressões, sem preocupações que não apenas eu. Comigo. Com tempo, todo o tempo que o Tempo tem. 

Ritmo tranquilo. Lento porque sem pressa. Lento porque assim é o processo. De recuperação. De crescimento. De transformação. De entrega. De confiança. De reciprocidade. De dar e receber. Sobretudo receber. Talvez um pouco egoísta, mas receber. 

Um fim de semana. Um fim de semana apenas. Por não poder ser mais que o fim de semana. Porque lá fora ninguém espera por ninguém, ninguém espera por dias melhores de ninguém, porque há trabalho para fazer, horários para cumprir, rotinas para repetir. Sem tempo para perder Tempo. Mas sempre a perder Tempo. A adiar. Porque agora não dá, porque agora estou a trabalhar, porque agora está trânsito, porque agora chego tão tarde, porque agora o dia foi puxado, porque agora os outros primeiro, porque agora hoje é dia de consulta, porque agora está frio, porque agora está a chover, porque agora estou ocupada, porque agora, porque agora, porque agora. 

Quando? Quando eu? Não os outros. Não o trabalho. Não o trânsito, nem o frio, nem a chuva, nem já é tão tarde, nem o dia foi puxado. A consulta. Sim, dia de consulta é para mim. Por mim. Mas falta, nos outros dias, tudo aquilo que encontro ali uma vez por semana. Tudo e mais um pouco que não é dali, não é ali que encontro. De certa forma também é. Mas e o resto? E eu? 

Um fim de semana. Um fim de semana, não peço mais. Não posso pedir mais. Não posso querer mais. Um fim de semana apenas. Como um filme. Longa metragem sem intervalos nem pausas. Lento. Com todo o tempo que o Tempo pode ter num fim de semana. 2 dias. 2 noites. Eu. Apenas eu. Apenas por mim. Apenas para mim. 

Um fim de semana. Um fim de semana apenas. Um fim de semana. Terapêutico. Faria toda a diferença. 

{que sejas feliz}

Dizem que final de ano é altura para cortar com o que já não serve, com o que não é importante, com o que “não está”.
Seja, então!

Pode continuar a ser importante, mas se já não está é porque não quer estar. E não sou eu que vou manter o limbo.

Fica quem me Está, quem me É. Os Amigos. Os que têm acompanhado a minha caminhada, a minha luta. Os que me estenderam a mão quando mais precisei. Os que me acolheram como sou. Os que me sabem olhar e VER.
Não posso, nem quero, manter-me no limbo. Corto com o que, pela ausência, pelo silêncio que me grita, me faz mais mal que bem.

Continuará a ter um papel importante. Mas já não nas páginas que ainda hei-de escrever no meu livro. Continuará a ter um papel importante nas páginas já escritas, lidas e relidas e passadas, mesmo que não ainda ultrapassadas.

Se vai doer…? Vai. Muito. Como doeu o primeiro corte há quase 6 meses. Ou, se calhar, até vai doer mais. Mas quem quer saber, pergunta. Quem se preocupa, telefona. Silêncio, apenas silêncio ou pezinhos de lã. Já não me serve. Corto.

Corto contigo. Que sejas feliz. Quem sabe um dia nos cruzemos por aí. E talvez te diga bom dia. Ou talvez não te diga nada. Por muito que mantenhas para sempre em mim o papel que é teu.

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{*disclaimer* Lamechas mode: on} 

Não ofereço prendas nem presentes. Mas agradeço a quem tenho que agradecer pelos (meus) últimos meses. Seja com palavras minhas ou fazendo das palavras dos outros minhas. Como agora.

4 meses. Fez ontem 4 meses que conheci aquele que é, neste momento, a minha luz de presença, ou, como ele mesmo diz, o meu actual farol.

É conhecido lá em casa como “o fofinho” porque termina sempre as sessões com um abraço, daqueles apertados. É como se fosse um amigo que por acaso é terapeuta quando na realidade é o psicólogo que me acompanha há 4 meses.

Tenho muito a agradecer ao Nuno e à Associação ABC por me terem “acolhido” no momento certo. E tenho que agradecer, muito, ao Nuno pelo trabalho semanal que tem feito comigo.

Se há alturas em que é a doer? Há. Faz parte. Há, também, alturas ligeiras. E há, ainda, alturas assustadoras como na semana passada. Em que pela primeira vez percebi que até ele estava assustado. Também faz parte.

Mas, seja em que alturas for, o Nuno “leva-me a casa“. Chama-me de volta à Terra. Permite-me fugir quando estou em modo enguia escorregadia que escapa aos assuntos. E sabe fazer com que, mesmo em fuga, eu fale das coisas. Todas.

Agosto, era uma autêntica “broken soul”. Ainda não estou inteira, há muito trabalho ainda pela frente. E há a AABC. E há o Nuno. E há esta música em loop na minha cabeça hoje dirigida às sessões semanais de duas horas de “regresso a casa”.

Obrigada, AABC. Obrigada, Nuno.

Wrapped up, so consumed by all this hurt
If you ask me, don’t know where to start
Anger, love, confusion
Roads that go nowhere
I know there’s somewhere better
‘Cause you always take me there

Came to you with a broken faith
Gave me more than a hand to hold
Caught before I hit the ground
Tell me I’m safe, you’ve got me now

Would you take the wheel
If I lose control?
If I’m lying here
Will you take me home?
Could you take care of a broken soul?
Will you hold me now?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?

Hold the gun to my head, count 1, 2, 3
If it helps me walk away then it’s what I need
Every minute gets easier
The more you talk to me
You rationalize my darkest thoughts
Yeah, you set them free

Came to you with a broken faith
Gave me more than a hand to hold
Caught before I hit the ground
Tell me I’m safe, you’ve got me now

Would you take the wheel
If I lose control?
If I’m lying here
Will you take me home?
Could you take care of a broken soul?
Oh, will you hold me now?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?
Oh, will you take me home?

You say space will make it better
And time will make it heal
I won’t be lost forever
And soon I wouldn’t feel
Like I’m haunted, oh, falling

Would you take the wheel
If I lose control?
If I’m lying here
Will you take me home?
Could you take care of a broken soul?
Oh, will you hold me now?
Oh, will you take me home?

{Take Me Home . Jess Glynne}

#day344 out of 365plus1 

Fazes-me falta.

Se em 2008 foi fácil habituarmo-nos uma à outra, hoje não me é fácil habituar-me à tua ausência.

Foram quase 9 anos em que éramos uma só. Onde eu estivesse era certo que estarias também. Mesmo quando e onde não devias, ora em cima da máquina de costura, ora em cima dos tecidos em que estava a trabalhar.

Lembro-me tão bem das primeiras noites contigo. Fazias questão de dormir num cantinho da minha almofada e, de alguma forma, sentires-me ali. Fosse com uma patinha tua no meu pescoço ou a tua cauda na minha cara ou o teu nariz no meu cabelo. Tinhas sempre que estar a tocar-me, a sentir-me de alguma forma.

Lembro-me daquela tua fase, ainda eras tão pequenina, em que me acordavas com patadas na cara. Sempre me ri a contar isso embora gostasse mais quando me deixavas dormir.

Foste crescendo e a almofada deixou de ter espaço para as duas. Adoptaste a minha cintura como ninho de eleição e praticamente todas as noites era aí que começavas os teus sonos.

Era sempre comigo que dormias e nunca percebi como é que uma coisa tão pequena conseguia ocupar tanto espaço numa cama para dois. Mas a verdade é que era sempre eu quem tinha que se moldar à tua presença porque o meio da cama pertencia-te.

Aprendi muito contigo. Aprendi aquela coisa do amor incondicional, que não pede nada em troca nem guarda ressentimentos. Ficavas feliz quando eu entrava em casa, tivesse saído há 5 minutos ou há 5 dias.

Esperavas-me à porta de casa ainda antes de eu entrar no prédio. Muitas vezes bastava-te ouvires-me a estacionar o carro. Quando entrava já te ouvia a miar, a chamar por mim. E, se demorasse mais um bocadinho, não sossegavas até que finalmente entrasse em casa. E depois de me teres em casa tínhamos que ter sempre aqueles minutos só nossos, só nós as duas, contigo ao meu colo a ronronar.

Percebo esta noite o quanto me custa a minha cama vazia sem ti. Não ouvir o teu miado ao entrar no prédio. Não tropeçar em ti porque já não te enrolas nos meus pés quando ando pela casa. Ter o colo vazio de ti e do teu ronronar.

Ontem não tive tempo para encaixar tudo e acho que cheguei a casa meio anestesiada da anestesia que te deram antes daquela última injecção. Hoje revivo na minha cabeça cada segundo que passámos juntas naquele gabinete onde me despedi de ti. Onde te dei colo mais uma vez, mas já sem o teu ronronar, apenas um corpo trémulo quase sem forças. Disse-te que ias ficar bem, que para onde irias estarias melhor. Para não teres medo porque eu estava ali contigo. Pedi-te para ires tranquila, em paz. Disse-te para não te preocupares porque eu fico bem. Ficarei, com tempo. Olhei-te nos olhos, rocei o meu nariz no teu como fazíamos tantas vezes. Fiquei contigo até ao fim. Vi os teus olhos perderem o brilho. Vi o teu corpo a perder a pouca vida que ainda lhe restava. E de repente aquele corpo morto que ali estava já não eras tu. Já não estavas ali… Mas não deixaste, nunca, de ser linda.

Disse-te que te amo e pedi-te perdão. Perdão por ter falhado contigo e não ter conseguido tratar de ti como merecias. Perdão por te fazer passar pelo estado a que chegaste e que eu durante algum tempo, demasiado tempo, me recusei a aceitar que era mais grave do que queria admitir a mim própria. Porque admiti-lo seria, como acabou por ser, mais uma perda para a qual eu não estava preparada. Mais uma ausência para a qual eu não estou preparada.

Não sei como vai ser esta habituação à tua ausência. Sei, sim, que não será fácil. Já não está a ser. Mas prometo-te que vou ser forte, mesmo não te tendo comigo para me enroscar e aninhar e acalmar como sempre fazíamos nos meus dias menos bons, nos meus dias maus.

Era em ti, era contigo que reencontrava alguma serenidade. Que recuperava alguma força para aguentar as cacetadas destes quase 9 anos,mas sobretudo destes últimos 3.

Não sei como vai ser agora chegar a casa e não te ter. Procurar o teu calor na minha cama. Sentir o teu peso a doer-me na minha anca ou ter-te encaixada na curva da minha cintura.

Sei sim que não vou poder ir abaixo. Porque tu não estás comigo para me socorrer como sempre soubeste fazer.

Peço-te, novamente, que me perdoes por ter falhado contigo.

Hoje sinto-me novamente vazia. Porque fazes-me falta, Maria André. Muita. E irás fazer sempre.

{sometimes I miss you} 

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que, se fui eu quem precisou de distância que sempre te disse temporária, não fui eu quem fechou a porta quando regressei.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que o tempo de dar parte fraca já passou. Já acabou ali atrás algures neste tempo que todos os dias passa um dia atrás do outro atrás do um. Lembro-me que prometi a mesma manter a distância que em tempos precisei por mim e que hoje queres por ti.

Nunca percebi o porquê “por ti e por mim”. Talvez nunca venha a perceber além do que interpreto, do que sinto, do que vi e não esqueço por tão intenso, tão real, tão absolutamente inesperado. Talvez nunca venha a perceber porque, sei-o, nunca mo irás explicar. Ou revelar. Assim como tudo o resto que te vejo esconder. Não só de mim, mas especialmente de ti.

Às vezes tenho saudades tuas. De conversar sem pressas, de saber de ti, dos teus, do que está bem e do que não está. De conversar sobre tudo e sobre nada. De quando me falavas de vinho, dos vinhos. Os tintos, os brancos, os verdes que são só uma região.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que prometi a mim mesma que não voltaria a dar um passo em frente no vazio, no nada. Prometi a mim mesma que não seria eu a dar esse passo. A fazer-me presente. Não quero. Porque quem quer saber pergunta. Porque quem quer saber telefona. E prometi a mim mesma que não serei eu a perguntar, a telefonar, a querer saber por muito que queira.

Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que estou zangada contigo. Tão zangada contigo. Dizem que faz parte do processo. E ao longo deste processo ainda não me tinha zangado contigo. E hoje estou zangada contigo. Muito. Tanto. Pela distância que é só tua. Pelo silêncio que é apenas teu. E porque, apesar da distância e do silêncio, que são apenas teus, não permites que corte de vez. Que corte o quê se na verdade não há nada para cortar? O que houve, porque existiu, não chegou a ser. E é isso o que me tem mantido ligada a um nada, tal como o que houve e hoje não existe.

Sim. Às vezes tenho saudades tuas. Mas depois lembro-me que um dia atrás do outro atrás do um é um caminho a percorrer sozinha. Mesmo que tenhas dito o contrário.

Sim. Às vezes tenho. Saudades tuas.

Mais do que as que gostaria de admitir. A mim mas especialmente a ti.

Sim. Às vezes tenho.

Saudades tuas.

{da desvalorização das dores} 

Da desvalorização da dor na infância e adolescência com “isso são dores de crescimento” ou “perca peso que isso passa”: aos 39 anos, são 2 destas, por favor.

Não desvalorizem as queixas dos vossos miúdos. Se o médico desvalorizar com supostas dores de crescimento ou o peso um bocadinho acima, insistam. As queixas existem por algum motivo, a dor está lá e é preciso perceber a real causa.

Durante anos ouvi que a dor que tinha na anca era dor de crescimento. E que, se perdesse um bocadinho de peso, passava. Ou que “isso foi um mau jeito qualquer”.

Deixei de crescer. Perdi peso. Ganhei. Voltei a perder. E o mau estar sempre lá.

Hoje dizem-me: já passou, há muito tempo, o momento de tratar e prevenir um mal maior. Tenho comigo uma bomba relógio na anca direita e uma anca esquerda também em muito mau estado.

Não há nada a fazer à anca direita a não ser substitui-la. Colocar prótese. Mais tarde na esquerda também. Não avançamos já para a prótese porque, mais uma vez me dizem, sou demasiado jovem para este cenário e colocá-la já vai trazer problemas antes do tempo. Por enquanto é muita fisioterapia para tentar atenuar outro dos problemas da anca. Nunca menos de 20 a 30 sessões intensas. Daqui a 6 meses reavalia-se. Até lá é proteger ao máximo para que a bomba não detone.

Sim, já podia ter sido detectado o problema há muito tempo. Quando me queixei pela primeira vez com dores na anca. Não tinha mais de 10 anos. Mas estava a crescer. E estava um bocadinho acima do peso. Rodeada de médicos como cresci, nem um valorizou a dor.

Não desvalorizem as dores dos vossos miúdos. Especialmente quando se tornam demasiado presentes.

{do éter} 

Do Trabalho Para Casa semanal: “tens que descobrir quem és e onde pertences”.

E hoje percebo: sou palavras no éter. Nada mais que palavras no éter… Ou seja, nada. 

E, percebo, só ao éter pertenço. Ou seja, não pertenço a lado nenhum. 

E como tudo o que é éter, que é do éter, não deixo vazios, marcas, saudades. Não deixo nada. Apenas palavras no éter. 

{da Depressão} 

Sim, é um bocadinho assim. 
Mais logo falarei um bocadinho disso que é a Depressão e que tanta gente acha que é uma questão meramente emocional. Não é. Existe também uma grande componente química na Depressão, seja a nível cerebral ou, oh espanto, hormonal. E quando os desequilíbrios químicos cerebrais e hormonais se juntam, nem sempre é necessário um desequilíbrio emocional para que a Depressão se instale. 
Anda toda a gente animada com os desafios do Facebook que servem para absolutamente zero, fico com vontade de vos desafiar também mas desta vez a algo que pode ser útil.

{da cobardia} 

​Existem os cobardes. E depois existes tu. COBARDE DE MERDA! Sim, tu que te recusas a enfrentar os problemas que TU próprio criaste, que preferes ESCONDER-TE e FUGIR e FINGIR que “no pasa nada”! 

COBARDE DE MERDA! Sim, TU que recusas uma conversa, UMA PORRA DE UMA SIMPLES CONVERSA que há MESES te peço para poder pôr um ponto final em PAZ! 

COBARDE DE MERDA! Sim, TU que “não queres problemas, queres soluções” e te RECUSAS a ser homenzinho e a ENCARAR um problema que TU PRÓPRIO contribuiste, e MUITO, para criar. TU que só queres saber de soluções mas que FOGES COBARDEMENTE quando a solução é tão simples. 

COBARDE DE MERDA! Problemas todos temos, blá blá blá Whiskas saquetas! Pois hoje EU tenho um problema GRANDE que se está a tornar GRAVE, e tenho a solução para ele. Mas TU, como COBARDE DE MERDA, ESCONDES-TE, FOGES, APAGAS-ME do teu mundo como se eu não existisse. 

EU é que estou no FUNDO DO POÇO e TU é que estás incomodado com isso?! TU é que foges, não sou eu quando tudo o que eu queria era NÃO TER CHEGADO a este ponto. E SIM, a cada dia que passa contribuis mais e mais para que me afunde mais um pouco quando me PROMETESTE que NÃO iria suportar tudo sozinha. E onde é que estás hoje? ESCONDIDO. Em FUGA. 

Nunca te imaginei cobarde. Afinal descubro-te um COBARDE DE MERDA! 

Não vai ser a tua atitude mesquinha, baixa, sem um pingo de integridade e absurdamente cobarde que me vai derrotar. Porque eu sou MAIS do que isto, este estado miserável que nunca procurei mas de onde irei sair à força de drogas se tiver que ser e com a força de quem me tem aquilo que TU desconheces: RESPEITO. Sou MUITO MAIS do que aquilo que tentaste que fosse. Sou muito mais que uma noite de copos. Sou muito mais do que um boneco com que se brinca só quando apetece. 

Já TU serás SEMPRE um COBARDE DE MERDA enquanto te mantiveres em fuga dos problemas que TU ajudaste a criar. Cresce! Enfrenta! Incomoda-te? Acredita, este estado miserável que nunca quis não te incomoda mais a ti do que a mim! 

COBARDE DE MERDA. E, percebi há relativamente pouco tempo, profundamente EGOÍSTA.

PS: apesar de tudo, não te desejo mal nenhum. Apenas desejo que NUNCA passes por isto. Mas depois lembro-me que os cobardes e egoístas são demasiado fracos para se permitirem SENTIR seja o que for com um mínimo de intensidade. Porque até SENTIR os assusta.