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1994, 28 anos depois

E, esta tarde, em conversa fiz uma pequena viagem até ao Verão de 1994. Aquele Verão em que fui à praia duas vezes porque estava a passar férias em casa do meu pai com piscina à disposição no último piso do prédio. Praia cheia de gente para quê, se tinha a piscina?
Lembrei-me, também, daquela viagem às urgências de Santa Maria com o meu primeiro ataque de pânico, em que jurava que ia morrer. E lá, na urgência, sempre com o polícia atrás de mim porque o meu comportamento era “suspeito” (pudera! Para todos os efeitos estava a morrer!), a médica que me atende a primeira coisa que soube perguntar foi “então? O que é que meteste desta vez? Coca? Anfetaminas? Foi o quê?”
Simpática, portanto. Baseada no meu aspecto rebelde, apenas, e no comportamento de quem achava (mesmo!) que ia morrer. Passava largamente das 4h da manhã quando fui atendida. Perdi a conta ao número de murros e pontapés que dei naquelas paredes do corredor das urgências porque não sentia os pés e as mãos. E lembroo-me de arranhar os braços e a cara porque também não os sentia. Tudo era um formigueiro. E eu tinha que me sentir.

Não morri. Tinha um exame no dia seguinte e foi isso que fez disparar a ansiedade e disparatar para o ataque de pânico. Na consulta de urgência, depois daquela simpática pergunta, tudo passou e normalizou depois de responder “tenho um exame amanhã”. Deram-me um calmante de dose cavalar e alta. Eram 6h da manhã quando procurei por um táxi à porta do hospital. Táxis havia. Não havia era taxistas, que estavam mais preocupados em jogar à moeda (a dinheiro, claro) do que em apanhar passageiros. A falta que a Uber fazia naquele tempo e não sabíamos…

Fiz o exame. Não me lembro da nota. Mas, sendo um exame (prova global) de História do 10• ano, só pode ter corrido mal…🙄 não o suficiente para chumbar o ano, mas sei que História nunca foi o meu forte.

Começou assim aquele Verão de 1994. Em que a ansiedade e os ataques de pânico eram presença constante. Especialmente à noite, quando saía com a minha mãe para o meio da multidão. Ansiedade e ataques de pânico aos 17 anos em 1994? Quando ainda não se falava disso? Era todo um mundo novo desconhecido e assustador.

Mas depois havia a piscina. E foi lá, na piscina, que conheci aquele escocês de cabelo preto e olhos azuis por quem acabei por me apaixonar. E o resto do Verão foi tudo o que tinha que ser quando se tem 17 anos e uma piscina à disposição e as hormonas típicas da idade. E a rebeldia que me fez meter a mochila às costas e as Doc Martens nos pés uns meses mais tarde para cumprir as promessas desse Verão.

28 anos depois (como assim, 28 anos?), para variar não me esqueço de pormenor nenhum (a minha memória chega a ser assustadora…).
Gostava de saber dele (não, o Facebook não ajudou…🙄) e dos irmãos. Just because. Mas valem-me as memórias de um Verão adolescente com muito para contar.

E não, os ataques de pânico não me impediram de ir sozinha, de comboio aos 17 anos, até Bruxelas atrás de um escocês de cabelo preto e olhos azuis.

Se fosse hoje? Fazia tudo igual. Desde os murros e pontapés na urgência do hospital, passando pelo Verão na piscina até à viagem a Bruxelas. Mas desta vez (já) ia de avião.

Posso já não ter 17 anos no Cartão de Cidadão, mas não ando muito longe na minha cabeça.

Valem as memórias. E as histórias para contar. Essas ninguém mas tira. E isso é tão bom.

{#190.176.2022}

Sábado e o exame à porta. Dediquei-me ao estudo, claro. Não tanto quanto gostaria, mas com o cansaço acumulado e o calor abrasador não deu para muito mais. Testes vários, com avaliação positiva, mas queria mais. Queria melhor. Ainda tenho o dia de amanhã inteiro para rever pontos necessários e a noite de segunda feira para as últimas revisões. Vai correr bem. Vai ter que correr bem, não vai poder ser de outra forma.

Hoje queria muito um retorno por muito rápido que fosse em jeito de aconchego. Não aconteceu até agora, não vai acontecer hoje. Amanhã logo se vê.

Agora? Vou pegar nos manuais e vou continuar a estudar até não aguentar mais o sono. Amanhã será novo dia de estudo depois da consulta matinal. E depois logo se vê como será o dia.

{#32.334.2022}

Terça feira. Novamente um dia de trabalho cheio. Novamente uma noite interrompida. Novamente o retorno. Curto, rápido, mas retorno. É por continuar a haver retorno, por muito rápido e muito curto, que não desisto dos rituais.

E por isso, esta noite mantenho o hábito e o ritual. É importante para mim mantê-lo. Faz-me sentir bem. E faz-me sentido. E enquanto me fizer sentido, enquanto me fizer bem começar o dia com um bom dia e terminar com um boa noite, repito o ritual que dura desde o primeiro dia, há quatro anos.

Sim, gosto de sentir o que sinto. Acho que não me faz mal nenhum gostar disto. E não me faz mal o que isto é. É o que é, é certo, mas é bom.

Amanhã será mais um dia de rituais. E nem por isso será pior. Desde que haja retorno, por muito rápido e muito curto que possa ser. É bom e faz-me ganhar o dia saber que do outro lado há retorno. Sei que de vez em quando há silêncio, mas também sei que não é permanente e sei que se eu desaparecer, a minha ausência é notada. E saber isso é bom.

Sim, amanhã será um dia bom. E hoje também foi, mesmo com muito trabalho. E a noite, mesmo que venha a ser interrompida novamente, vai ser boa porque faço a minha parte: o ritual nocturno de desejar uma boa noite.

E é a isto que se resumem os meus dias: trabalho, rituais e retorno. Mas sempre, e acima de tudo, o retorno.

{#08.358.2021}

Ainda o frio. Claro que ainda o frio. Que faz com que não me sinta bem e desperta a hipocondríaca que há em mim.

Vai correr tudo bem. São ainda muitos dias até este frio imenso passar, mas vai correr tudo bem. E a hipocondríaca que há em mim vai ter que se acalmar.

Hoje não tive coragem ou sequer vontade de sair de casa depois do trabalho como costumo fazer. Tudo por causa do frio. Não devo sair no fim de semana também, embora tenha vontade de apanhar um pouco de Sol. Mas não tenho vontade do frio.

Não sei quando volto a sair. Vem aí novo confinamento que não deve tardar a começar e sair de casa vai ser coisa que não vai acontecer tão cedo. Até poder voltar a sair vou ter que aprender a lidar com a ansiedade do frio. Porque do que sinto mesmo falta é do Sol. E de calor qb, daquele calor que aconchega sem sufocar.

Está demasiado frio. A minha casa é demasiado fria. É uma combinação perigosa. Mas é com ela que agora tenho que lidar.

Vai correr tudo bem. Também ao frio vou sobreviver e, espera-se, sem danos de maior. Até lá, vou guardando as saudades do Sol.

{#115.252.2020}

Fim de formação, início de actividade nova. O friozinho na barriga de novos começos.

E é de novos começos que se trata. Novas experiências. Novos contactos e conhecimentos.

E, mais uma vez, o friozinho na barriga.

Gosto desse friozinho. Mas tenho saudades das borboletas. As borboletas na barriga da antecipação de encontros que agora não podem acontecer. Nem sei se alguma vez se irão repetir. Com muita pena minha…

São saudades que batem de vez em quando. Daqueles que trago comigo, em mim.

{#89.278.2020}

Estou cansada… Já não sei o que é dormir uma noite inteira. Tenho saudades de ver pessoas. De sair de casa. De beber um café.

Estou cansada. E ainda agora isto começou.

{#84.283.2020}

Não está fácil…

E a tendência é para piorar com as notícias que vão chegando.

Mas vai melhorar… Vai ter que melhorar.

{#81.286.2020}

Ninguém solta a mão de ninguém. Por favor.

Hoje foi um dia estranho. Falta-me a rotina do trabalho que, felizmente, tenho durante a semana, mesmo que em casa. Ao fim de semana, como sempre, faz-me falta fazer algo diferente. E agora ainda mais.

Não saí, embora a vontade fosse mais que muita. Mas não pode ser…

Preciso tanto de ver gente. De falar com gente. E não acontece. Não pode acontecer. Mas tem que acontecer. Nem que seja online, como acontece com o terapeuta fofinho como esta manhã.

Ninguém solta a mão de ninguém, por favor. Preciso que não soltem a minha…

{#74.293.2020}

Isolamento social. Vai ser um teste difícil à saúde mental de todos. Para mim não vai ser fácil. Já não está a ser.

E ainda agora começou…

{#258.108.2019}

Os domingos são, por norma, dia de recolhimento. Hoje, claro, não foi excepção.

Mas cada vez gosto menos de domingos. Prefiro mil vezes ter que sair de casa com horas marcadas para alguma coisa do que estar recolhida todo o dia, tendo que me obrigar a sair para um café para não dar o dia como totalmente perdido.

Nem que essa saída com horas marcadas aconteça ao sábado. Para conseguir valorizar o domingo.

Melhores domingos virão. Espero que no Outono que se aproxima seja melhor.

{#331.35}

Somatização. É o que me dói. E mói.

Tento não pensar. Tento não sentir. Mas não é fácil o que a ansiedade me traz.

Mas seja. Não me deixo ficar e sigo em frente, tantas vezes a grande custo. Mas sigo.

Talvez um dia deixe de somatizar. Até lá, um dia atrás do outro atrás do um.

{#219.147}

A ansiedade não mata. Mas mói. Quando acompanhada por um descontrolo hormonal que torna o ritmo cardíaco em algo irregular, é uma mistura explosiva para aumentar o desconforto.

Dá vontade de chorar. Sem motivo que não o facto de estar farta de ser controlada pela hormona em défice e a ansiedade em excesso.

Dá vontade de vomitar pelo mesmo motivo.

E é também o mesmo motivo que dá vontade de ficar fechada em casa, longe de tudo e todos.

Recorrer a urgência hospitalar é o limite. E as salas de espera dos hospitais são dos locais mais solitários que existem. Assim como a ansiedade que não sendo um lugar é algo extremamente solitário. É um processo passado a sós. Quem está por dentro entende a generalidade dos sintomas mas não as causas. E quem está por fora desconhece tudo o que esta realidade comporta.

Apetece-me chorar. Apetece-me vomitar o jantar que entrou a tanto custo. Apetece-me esconder do Mundo e ficar só eu, em casa, no meu quarto, na minha cama.

Sair de casa é uma tormenta. Seja para ir trabalhar, seja para ir só ao café. É sair da zona de conforto. É sair para onde estou exposta. A tudo.

Quero, mas não posso, ficar sossegada no meu canto enquanto tudo isto que somatizo se resolve. Até a ansiedade abrandar, até a hormona sintética fazer efeito.

Estou cansada. De não conseguir ser mais e melhor que isto.

Tão cansada disto tudo…

Até quando vou ter que lidar com a ansiedade?

{segredo}

Sabes qual é o segredo? É seres igual a ti própria, com todas as características que fazem de ti quem tu és. Não importa o que és mas sim quem és. E és tu, assim, sem mais,sem menos do tu simples tu.

O que é um rótulo se não uma etiqueta que aponta apenas partes do todo? És tão mais do que isso.

Lembra-te sempre: és tu tal como és. Há os que gostam e os que não gostam. Mas os que não gostam não fazem falta e tu sabes deixá-los ir. Sobram os que gostam.

E porque é que gostam? Porque tu és tu. Não serias tu se fosses outra. E não seria por ti que os que gostam ficam.

Não te esqueças. O segredo é seres tu.

No fundo, o segredo és tu. Só tu. Sem mais. Sem menos.

Só tu.

{do suicídio. Ou da pele que queima por dentro} 

Chester Bennington. Morte por suicídio aos 41 anos. Na data de aniversário de Chris Cornell, morte por suicídio aos 52 anos. 

É fácil ficar-se chocado com o suicídio de alguém. Muitos não entendem o porquê. Nem têm que entender. 

Suicídio não é egoísmo, como tantos dizem por aí. Suicídio é arrancar a pele que queima por dentro. A pele que prende à Depressão quem tenta sair dela. Quem luta todos os dias para sobreviver a essa pele que queima, que prende, que acaba por sufocar. 

Suicídio não é, como tantos dizem por aí, a solução fácil dos fracos. Primeiro porque não é fácil. É desespero puro. Segundo porque não é dos fracos. Os fracos são os que se movimentam por aí como se nada se passasse. Os outros, os suicidas, são os que desesperadamente lutam todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos, com toda a força que nem sabiam que tinham até precisarem dela. 

Suicídio não é desistir de lutar. Não é render-se à dor e ao desespero. Não é falta de coragem para enfrentar os problemas. 

Suicídio é a libertação. Da pele. Aquela que queima por dentro. Que prende. Que sufoca. 

Se é solução? Não sei. Sei, sim, que há momentos em que o desespero nos faz querer sair de nós próprios para deixarmos de sentir dor. Aquela dor que quem está de fora não sente, não vê, não entende e tantas vezes não aceita. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me queima por dentro como se fosse irrigada por ácido no lugar de sangue. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me prende e me condiciona os movimentos e me conduz a gestos de auto-agressão. 

Sei, sim, que todos os dias a minha pele me sufoca e me faz querer gritar e chorar em vez de rir. 

Sim, posso ser considerada de suicida. A ideação suicida está instalada. Não, nunca tentei o suicídio. Mas as vozes……… 

Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão. Não é fácil viver/conviver com alguém que sofre de Depressão Major. Mas não é difícil viver/conviver com um suicida. Porque nós, os que temos ideação suicida, não vos dizemos nada sobre isso. 

Olhem mais vezes para o lado. Há sinais. Dêem-se ao trabalho de olhar para o lado, para o outro, com olhos de ver. Aquele colega de comportamento que oscila entre o estar quieto no seu canto e o ser demasiado extrovertido pode estar apenas à espera que alguém lhe agarre na mão e lhe diga “estou aqui contigo”. 

Não adianta fazer de conta que não se passa nada para depois receber a notícia em choque. 

Na verdade, simplesmente não adianta fazer de conta que não se passa nada. Porque passa tudo na cabeça de um suicida. 

E na minha já passou demasiado.

{#página171} 

“- Tia, estás diferente… 

– Diferente? Porquê? 

– Não sei… Estás mais velhota. 

– Hum… E estou diferente para melhor ou para pior? 

– Hum… Acho que é um bocadinho dos dois!” 

Há quem me diga que estou melhor. Que nos últimos meses fiz, fizemos, progressos. Digo-lhe sempre que estou diferente. Não gosto, não quero?, dizer que estou melhor. Por medo, talvez. Medo de voltar ao ponto que me levou até ele. É normal que possa acontecer, voltar a cair, diz-me ele enquanto vai repetindo que preciso de verbalizar que sim, que estou melhor. Respondo-lhe sempre que estou diferente. Que não consigo verbalizar o que ele me pede. Que tenho medo. E ele lá vai dizendo que, se voltar a cair, saberei melhor como voltar a levantar-me. Que será mais fácil. 

E se não for…? 

É, também, por isso que prefiro agarrar-me à opinião dos 7 anos do Miguel: estou diferente. Mesmo que seja para melhor e para pior em simultâneo. 

{#página127} 

Dia da Mãe 3.0

Mais um a tentar que seja só mais um dia igual aos outros. Mesmo não sendo. Porque há quem ainda diga que não o sou, não o fui, “se um dia fores”…

O Baltazar e eu fomos ali a um sítio que já começa a ser demasiado habitual. Uma urgência daquelas que recusei, recorri, voltei a recusar, voltei a recorrer, repito agora novamente. Passar de pulseiras amarelas a pulseira laranja. E medicação antes de sair da urgência. Não era isto que eu queria para o dia da Mãe…
Fomos só os dois. Porque sim. Porque o dia é meu. À minha maneira, por isso só meu. E do Baltazar. Porque não há, não chegou a haver, João… E, do outro João, o pai, descobrir que além de cobarde também é um canalha.

Fomos só os dois, mas do outro lado da linha os apoios de emergência. Desculpem se, desta vez, vos assustei. Também me assustei a mim.

E, ainda do dia da Mãe, uma mensagem de uma Mãe enorme para todas as Mães de todos os tipos.

Às mães de todos os tipos: Feliz Dia da Mãe!

Todas as mães se tornam mães em momentos diferentes.
(…)
Algumas destas mães têm o seu sonho interrompido na gravidez, e permanecem de colo vazio. Mas são mães.
(…)
Algumas vêem os seus filhos morrer antes delas: na gravidez, no parto, em recém nascidos, ou adultos, E são mães, nunca deixam de ser mães.
(…)”

Que podem completo aqui

{#página112} 

978 depois de 18. 996 depois de 42.
Ainda faz sentido escrever? 

Ainda faz sentido falar? 

Ainda faz sentido sentir? 

………ainda faz sentido sequer tudo isto………? 

{do eco} 

Acção -> Reacção. 

Só que não. Só que não… Claro que não! 

Pior que falar com uma parede. Porque até a parede devolve o eco. 

É como se falasse com um Buraco Negro. Que engole tudo à sua volta sem devolver eco ou reacção. Quem sabe um dia passe a Buraco Branco e vomite o que tem guardado. Não deverá ser bonito. Mas é preferível uma Reacção a um absoluto vazio de tudo.