Category Archives: {Me me me!}

{da Depressão} 

Sim, é um bocadinho assim. 
Mais logo falarei um bocadinho disso que é a Depressão e que tanta gente acha que é uma questão meramente emocional. Não é. Existe também uma grande componente química na Depressão, seja a nível cerebral ou, oh espanto, hormonal. E quando os desequilíbrios químicos cerebrais e hormonais se juntam, nem sempre é necessário um desequilíbrio emocional para que a Depressão se instale. 
Anda toda a gente animada com os desafios do Facebook que servem para absolutamente zero, fico com vontade de vos desafiar também mas desta vez a algo que pode ser útil.

{da cobardia} 

​Existem os cobardes. E depois existes tu. COBARDE DE MERDA! Sim, tu que te recusas a enfrentar os problemas que TU próprio criaste, que preferes ESCONDER-TE e FUGIR e FINGIR que “no pasa nada”! 

COBARDE DE MERDA! Sim, TU que recusas uma conversa, UMA PORRA DE UMA SIMPLES CONVERSA que há MESES te peço para poder pôr um ponto final em PAZ! 

COBARDE DE MERDA! Sim, TU que “não queres problemas, queres soluções” e te RECUSAS a ser homenzinho e a ENCARAR um problema que TU PRÓPRIO contribuiste, e MUITO, para criar. TU que só queres saber de soluções mas que FOGES COBARDEMENTE quando a solução é tão simples. 

COBARDE DE MERDA! Problemas todos temos, blá blá blá Whiskas saquetas! Pois hoje EU tenho um problema GRANDE que se está a tornar GRAVE, e tenho a solução para ele. Mas TU, como COBARDE DE MERDA, ESCONDES-TE, FOGES, APAGAS-ME do teu mundo como se eu não existisse. 

EU é que estou no FUNDO DO POÇO e TU é que estás incomodado com isso?! TU é que foges, não sou eu quando tudo o que eu queria era NÃO TER CHEGADO a este ponto. E SIM, a cada dia que passa contribuis mais e mais para que me afunde mais um pouco quando me PROMETESTE que NÃO iria suportar tudo sozinha. E onde é que estás hoje? ESCONDIDO. Em FUGA. 

Nunca te imaginei cobarde. Afinal descubro-te um COBARDE DE MERDA! 

Não vai ser a tua atitude mesquinha, baixa, sem um pingo de integridade e absurdamente cobarde que me vai derrotar. Porque eu sou MAIS do que isto, este estado miserável que nunca procurei mas de onde irei sair à força de drogas se tiver que ser e com a força de quem me tem aquilo que TU desconheces: RESPEITO. Sou MUITO MAIS do que aquilo que tentaste que fosse. Sou muito mais que uma noite de copos. Sou muito mais do que um boneco com que se brinca só quando apetece. 

Já TU serás SEMPRE um COBARDE DE MERDA enquanto te mantiveres em fuga dos problemas que TU ajudaste a criar. Cresce! Enfrenta! Incomoda-te? Acredita, este estado miserável que nunca quis não te incomoda mais a ti do que a mim! 

COBARDE DE MERDA. E, percebi há relativamente pouco tempo, profundamente EGOÍSTA.

PS: apesar de tudo, não te desejo mal nenhum. Apenas desejo que NUNCA passes por isto. Mas depois lembro-me que os cobardes e egoístas são demasiado fracos para se permitirem SENTIR seja o que for com um mínimo de intensidade. Porque até SENTIR os assusta.

{trocanterite} 

Em Maio falava da dor. Daquela física que se torna insuportável a cada movimento, a cada passo. Daquela dor, física, que se vai aguentando enquanto a vontade é de parar e chorar até que passe. Na altura lembrava-me do relatório de um raio-X de há três anos, quase tirado a ferros ao médico que me seguia na altura: sacroileíte. Achava eu, pelo seguimento dado na altura pelo médico, que seria uma simples inflamação ali na junção do sacro ilíaco. “Perca peso que isso passa”, disse-me. Aliás, para todo e qualquer problema que lhe apresentava a resposta era sempre a mesma: “perca peso que isso passa”. O mesmo médico que, ao olhar para os resultados das análises à tiróide alterados como sempre, de hipotiroidismo com tiroidite de Hashimoto (tiróide auto-imune), me disse simplesmente “não precisa de medicação nenhuma, isso está alterado, o que é que quer que eu lhe faça se isso é mesmo assim?”, sabendo eu há quase 20 anos que sim, é necessária medicação para compensar uma tiróide que não funciona e que é atacada pelo próprio sistema imunitário.
Escrevia eu em Maio sobre a dor. Presente há anos, ainda antes da primeira queixa a esse médico. Dor constante nas ancas, especialmente na direita, com episódios agudos e prolongados no tempo e de extrema dificuldade em andar, sentar, levantar e até dormir.

Há umas semanas, depois de mais um episódio agudo, voltei ao médico. Já não ao mesmo. Depois de tantos episódios com aquele, preferi fazer parte da estatística dos “sem médico”, tendo aquele sido atribuído como médico de família há relativamente pouco tempo antes do primeiro episódio de consultas que se resumiam sempre no mesmo: “perca peso que isso passa”.
Fui, finalmente, vista por alguém com olhos de ver. Que valorizou as queixas, que me ouviu, que me examinou para despistes, que avaliou o diagnóstico e pediu os exames que devia: raio-X às duas ancas + ecografia às partes moles da anca direita.

Hoje, dia de nova consulta. Outra médica. Apresentei os exames, resumi a história e vi, pela primeira vez, um profissional de saúde a mudar de cor.

Palavras estranhas sublinhadas no relatório e a primeira pergunta: “queres que te envie para ortopedia, não queres?”
A minha resposta foi obviamente que sim, como não? Seja lá o que for que o relatório diga eu quero ver isto tratado. Porque as dores são constantes há demasiado tempo…
“O mais certo é que te enviem logo para cirurgia. Isto já devia ter sido visto há muito tempo! Tu não tens idade para este tipo de lesões! Quem aparece em ortopedia com estas lesões são pessoas de, no mínimo, 70 anos! É raríssimo com a tua idade!”
Fez relatório de consulta e enviou pedido de consulta urgente para Ortopedia de Santa Maria. Garantiu-me que se perdesse peso obviamente que seria uma mais valia, até para a recuperação do pós-operatório. Mas sabe que Hashimoto e perda de peso não são compatíveis.
Agora é esperar uns meses mas “com a tua idade e com este cenário podes ter a certeza que vais ser chamada rapidamente”.

Trocanterite é palavra nova no meu dicionário. Acentuado processo de trocanterite é parte do diagnóstico.

Espessamento significativo das inserções tendinosas no grande trocanter.

Esclerose dos tectos acetabulares.

Esclerose das vertentes articulares sacro-ilíacas.

Diminuição dos espaços articulares.

Ou em português, como me disseram há três anos: “perca peso que isso passa”. Só que não.

Aos 39 anos tenho ancas de alguém com o dobro da minha idade. E, garanto, tenho dores que não desejo a ninguém.

Enquanto espero pela carta de Santa Maria, se houver algum especialista na sala que se queira pronunciar, agradeço. Muito. Nem que seja sobre dicas de como aguentar as dores, ou aliviá-las, até ser finalmente vista por um especialista. Os químicos não resultam, já experimentei.

Já tinha tantos motivos para gostar do outro médico. Hoje junto-lhe mais um… (e sim, tenho muita vontade de apresentar queixa na Ordem, embora provavelmente não resolva nada).

{“há pessoas que estão pior do que tu”}

Dizer a alguém, que está a passar por um momento menos bom, que “há pessoas que estão pior que tu” , pode ser bem intencionado. Não duvido que seja na grande parte das vezes.
Não deixa, ainda assim, de ser das piores coisas que se podem dizer. Dizer a alguém, que está na merda, que “há pessoas que estão pior que tu”, é desvalorizar o sofrimento do outro, é pintá-lo como egoísta que só pensa nas próprias dores quando no mundo lá fora há tragédias tão maiores todos os dias (que as há), é simplesmente anular o outro e o seu direito a sentir e a gerir da melhor maneira que pode e/ou sabe o que sente e como sente.

Dizer a alguém, que não consegue a determinado momento reagir da forma que todos acham que deve reagir, que “há pessoas que estão pior que tu, e isso já passou e tens que dar a volta por cima” é uma tentativa de apagar pedaços da história individual de cada um, como se não tivessem existido, como se não tivessem acontecido, como se não fizessem parte do processo de crescimento de cada um.

Dizer a alguém, que não esquece por muito que lute para não se lembrar, que “há pessoas que estão pior do que tu” é exactamente o mesmo que dizerem, como há dois anos me disseram, que “se não aconteceu não é para ser falado”.

Quando alguém está a passar por um momento menos bom, acreditem: não procuram que lhe digam frases feitas nem bonitas. Não procuram que lhe digam absolutamente nada. Procuram, sim, quem os oiça. Sem julgamentos, sem cobranças, sem respostas prontas em forma de clichés. Procuram simplesmente quem lhes permita ser, estar e sentir. Procuram, acima de tudo, espaço para se isolarem se assim o quiserem, um ombro para chorar se assim o entenderem, um abraço para se fortalecerem se assim o precisarem, e silêncio para falarem se assim o fizerem.

Não. Dizer a alguém que está na merda que “há pessoas que estão pior que tu” não é ajudar. É exactamente o oposto.

Se querem realmente ajudar alguém que não está bem, não digam nada. Ou digam apenas “estou aqui se me quiseres aqui”, e estejam lá realmente. Só assim conseguem que o outro, o tal que está na merda, que chora, que tenta por todos os meios atenuar a dor que vocês não vêm mas que existe, só assim conseguem que o outro sinta que, afinal, há quem respeite o seu sofrimento, a sua dor. Mesmo que não a entenda. Porque não tem que entender. Apenas respeitar.

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{little did I know}

Little did I know back then.

Faz dois anos que escrevi isto. Não imaginava na altura todos os alarmes e todas as surpresas que me esperavam. Que, afinal, fui eu que de certa forma os pedi.

Little did I know back then.

E hoje leio e releio e percebo que já há dois anos era como hoje. Tanto que aconteceu e tão pouco que mudou. Não tinha noção na altura. Ou talvez tivesse e apenas achasse que não. Aliás, disse-o quando escrevi, mantenho dois anos depois: sou totó o suficiente para não perceber.

Hoje? Hoje acho que percebo. Porque, lá está, tanto que aconteceu e tão pouco que mudou.

As borboletas que fazem flutuar dois palmos acima do chão. Não me lembrava de ter escrito isto há dois anos. Mas têm sido uma constante ao longo de todos estes meses. Sempre pelo mesmo motivo. Sempre.

………e confesso-me tão mas tão totó hoje como há dois anos. Mas hoje totó com mais dois anos de experiência.

{E não, não sou apenas eu a ver e a perceber, pois não? Ou a não ver e a não perceber, sei lá eu…}

{alguém que me mande ir dormir}

Vá, alguém que me mande ir dormir, por favor.
Que me conte uma história. Que me cante uma cantiga de embalar. Que me leia um poema. Ou um excerto de um livro.
Que me faça um desenho. Colorido ou a preto e branco, não importa.

…o mundo lá fora é feio. E começo a ficar cansada dele.

Alguém que me mande ir dormir, por favor. Aconchegada na minha nuvem. Em noite de arco-íris.

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{fica difícil não ter medo}

Do medo:

fica difícil não ter medo. Fica difícil não ter medo quando chegas à estação do comboio e percebes que as ruas à volta estão cortadas pela Equipa de Prevenção e Reacção Imediata da PSP. O acesso ao metro também está cortado.
Ainda não entraste na estação e tens, na tua entrada, 2 PSP de metralhadora. Entras e encontras outros dois. Sobes ao primeiro piso e várias equipas duplas percorrem o átrio. Todos de metralhadora, coletes à prova de bala.

Fica difícil não ter medo. Já me habituei à presença das EPIR à saída da estação de manhã. E não todos os dias. Já as encontrei na plataforma. Não liguei.

Hoje ligo.

Fica difícil não ter medo.

Um Cais é como um aeroporto. Claro que é. É, no fundo, um porto. Uma porta de entrada e de saída. Fica difícil não ter medo quando olhas para o lado e vês uma EPIR a chegar. Quatro motos. Caras inicialmente tapadas. Coletes. Metralhadoras. 2 elementos entram no terminal com aquele que tu sabes que é o responsável máximo de segurança. O mesmo que te deu formação de procedimentos no terminal nem há dois meses. A teoria arrepia. A prática congela. E assusta. Os outros dois elementos da EPIR mantêm-se. Ao pé de ti. Armados de metralhadora. Coletes à prova de bala. Acabam por entrar no terminal mais tarde.

Fica. Fica difícil não ter medo. Mas seja aqui, Bruxelas, Paris, Istambul, onde for, o medo não pode condicionar movimentos. Não pode condicionar rotinas.

Amanhã há, de novo, Cais pela manhã e comboio de manhã e ao final do dia. Fica difícil não ter medo. Mas é preciso continuar a rotina.

{demasiadamente ingénua}

Sim, eu sou ingénua. Muito ingénua. Demasiado ingénua. Ao ponto de acreditar que não é possível as pessoas serem tão más como acabam por se revelar. Ao ponto de acreditar que não é possível alguém se mover apenas por maldade, doa a quem doer. Doa a quem doer. Seja quem for. Mesmo que sejam os próprios filhos.

Sim, sou tão demasiadamente ingénua que acredito, piamente, que não é possível carregar-se tanta maldade. Jogar com a maldade. Usar a maldade.

Sim, sou assim tão ingénua. Ainda assim, apesar de me tirarem do sério, apesar de barafustar, apesar de vomitar palavras de algo que não quero chamar raiva, apesar de tudo isso a única coisa que consigo desejar a quem carrega tanta maldade é isto: mais Amor. Porque sou ingénua, tão demasiadamente ingénua, que acredito que um dia irão perceber o que é isso do Amor. Aquele do A maiúsculo.

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{coexistência pacífica}

Numa espécie de “coexistência pacífica”. Que é o mesmo que dizer que eu te ignoro, assim como tu me ignoras. Ou, pelo menos, eu faço de conta. Como sempre, como desde sempre, faço de conta. Que não é nada. Que não se passa nada. Que te ignoro. Fazer de conta. Faço de conta. Há tanto tempo. Há tantos meses.

Coexistimos assim. Pacificamente. Não sei, sinceramente, porquê. Porquê manter esta falsa ligação, já que eu te ignoro assim como tu me ignoras. Ou, pelo menos, faço de conta.
Não sei porque insisto nisto. Em manter isto. Assim, à distância, a esta distância. Incomoda-me ver-me obrigada a fazer de conta que te ignoro, sabendo que me ignoras também. Não, não presumo. Sei. Porque tu mo disseste.

Andamos nisto. Há meses. No que é não sendo. No que não é sendo. No que nunca foi. No que nunca será.

Incomoda-me. Muito.
Incomoda-me ainda mais ter medo de deixar de ignorar, por receio de reacções que não entendo porque não fazem sentido.
Incomoda-me. Comparar o antes e o depois. Ou o antes e o agora.
Incomoda-me.

Não lhe quero chamar paz podre. Porque não é paz e muito menos podre, porque na verdade nunca foi guerra sequer. Mas incomoda-me. Continuo a fazer de conta também aqui. Faço de continua que não me incomoda fazer de conta que te ignoro.

Um dia, quem sabe, deixo de me incomodar. Ou deixo, eu, de fazer de conta que ignoro. Ou deixo, apenas, de fazer de conta.

Um dia. E tudo será o que tiver que ser, sabendo que não é possível ser como já foi.

Um dia.

Até lá, faço de conta.

Gulen-tasawwuf

{17 de Fevereiro de 2015}

Final do ano é altura de balanço. Não farei hoje o balanço deste ano que foi tão cheio de tudo, bom e mau.

O Facebook já fez o resumo do ano.

O WordPress acabou de me enviar os números do blog ao longo do ano. E diz-me que o dia mais atarefado por lá, em termos de visitas, foi dia 17 de Fevereiro. 100 visitas num só dia. E recorda-me o WordPress que o dia 17 de Fevereiro foi, também, o #day182.

Foi o dia em que percebi que o limite, o meu limite, era ali. Que já não aguentava muito mais. Foi o dia em que bati no fundo com todas as forças que ainda tinha na altura.

Foi o dia de lançar apelos, pedidos de ajuda. Ainda que não completamente explícitos, foram pedidos de ajuda. Nem sempre entendidos como tal, percebi isso. Mas era atingir o limite e pedir ajuda porque a dor pesa e mói e corrói e destrói.

Foi pedir ajuda e receber a resposta “não posso fazer mais nada”, quando podias tudo. Devias? Não sei. Mas podias. Nunca dizeres-me “não posso fazer mais nada”…

Não sei onde encontrei o rumo para chegar ao dia seguinte. E ao outro. E ao outro. Sei apenas que cheguei. E sei também como, poucos dias depois, o meu pedido de ajuda foi, de certa forma, ouvido e atendido. E tudo mudou a partir daí.

Não tinha, ainda, lido o #day182. Aconteceu hoje porque o WordPress mo recordou. Li. Reli. E doeu-me reler-me. E doeu-me reencontrar aquela que eu era há 10 meses. E doeu-me a dor dela. A dor de quem atingiu o limite e esteve prestes a desistir. De vez.

Digo tantas vezes que podia não estar cá. E, ao ler o que escrevi naquele dia 17 de Fevereiro e ao lembrar-me de cada um desses dias de Fevereiro antes e depois de dia 17, sei que não estaria se naquela manhã de sábado não tivesse recebido a mensagem que recebi, a ajuda que pedi.

Sim. Podia hoje não estar cá. Mas estou. E ainda bem que estou! E estou grata, tanto, por estar.

Não. Não quero regressar a 17 de Fevereiro de 2015. Mas preciso, tantas vezes, de olhar para trás e confirmar de onde vi e onde já cheguei.

Obrigada a quem, ao longo deste caminho, se mantém ao meu lado. Foi duro. Mas estou cá. Quando podia não estar cá.

{21 anos}

um ano escrevia sobre há 21 anos.

21 anos já. Como se tivesse sido ontem, lembro-me de tudo. Até dos bilhetes que na véspera tinham ficado esquecidos em casa dos meus tios.

Mantenho o que dizia há um ano. Hoje faria tudo novamente. Mudaria do comboio para o avião. Voaria e faria de conta que a aterragem não custa nada. Custa sempre, por muito que se antecipe a aterragem. Por muito que nos preparemos para ela.

21 anos depois já não tenho DocMartens nos pés nem a mochila às costas. Mas mantenho os sonhos de amores adolescentes e acredito naquela magia que faz da distância uma barreira que não existe.

21 anos depois e pouca coisa mudou. Quando é que parte o próximo vôo?

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{de voar}

Lembro-me da primeira viagem de avião. Um vôo de duas horas e pouco com destino à Alemanha. Lembro-me do medo, do pânico de voar.
Lembro-me de, muitos anos antes, ter trocado 2 horas e pouco de avião por 27 horas de comboio rumo a Bruxelas ao sabor de um Amor adolescente, uma paixão de Verão que o comboio, em detrimento do avião, permitiu prolongar até ao Inverno.

Sempre tive medo de voar. Mas a ida à Alemanha não permitia trocar o vôo pelo deslizar dos carris e não podia deixar passar a oportunidade que, sabia, era única.

Recordo a ansiedade galopante nas semanas que antecederam o vôo. As noites mal passadas pouco antes da data da partida. Recordo o medo, que não sabia explicar apenas, sabia que sentia.

Muita gente tentava acalmar-me, dizendo que era seguro, até mais seguro que o comboio, e que “lá em cima não sentes nada, não dás por nada”. Que levantar vôo era engraçado e dava alguma comichão na barriga. E que “o que custa mais é a aterragem”.

Lembro-me da aterragem em Bona. A descida foi, aparentemente, tranquila. Mas, assim que tocámos a pista, assim que regressámos a Terra, o medo voltou. Porque o avião continuava a deslizar na pista, a pista cada vez mais curta, o avião a continuar a deslizar.
Embora inexperiente em vôos e aterragens, percebi que não tinha sido uma boa aterragem. Assustou. Gelou. A tal comichão na barriga à partida transformara-se num murro no estômago, daqueles que cortam a respiração.

Não me lembro da aterragem em Lisboa. Sei apenas que foi mais tranquila, provavelmente por isso mesmo não me lembro. Mas não me esqueço de Bona.

Nunca mais voei. De avião, pelo menos. Nem de qualquer outro meio de transporte aéreo. Mas sei que, de todos os vôos, até mesmo daqueles que não são feitos em meio de transporte aéreo, o que custa mais é sempre a aterragem. Mesmo que se esteja preparado para ela, nunca estamos realmente. Mesmo que se saiba antecipadamente o destino e a hora estimada para a chegada, o pior é sempre a aterragem. E o murro no estômago depois da comichão na barriga.

Mantenho o medo de voar. Mas vou voando. Mantenho o medo de voar não pelo vôo, mas sempre pela aterragem, seja ela imprevista ou previamente programada. Como agora.

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{apetece-me poesia}

Apetece-me poesia.
Desenhos a lápis de cor.
Pinturas em aguarela.
Tela de pele com pele.

Apetece-me poesia.
Palavras escritas no papel.
Marcas de água em selos postais.
Partilhas em fusão.

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{há um ano}

um ano dizia que cá em casa não há árvore de Natal. Que, aliás, cá em casa não há Natal. Pelo menos não aqui, em casa.
Cheguei a pensar que, pela primeira vez em muitos anos, iria finalmente ter o meu Natal em minha casa. Enganei-me como me engano sempre que faço planos. Acabei por ter exactamente o Natal que não queria: fora de casa, acompanhada por grávidas e bebés.

Este ano continua a não haver árvore de Natal cá em casa. Mas, desta vez, por falta de tempo apenas. Porque, pela primeira vez em muitos anos, este ano quero ter árvore de Natal. Já não faço questão de passar o meu Natal em minha casa, como tanto desejei há um ano.

Aprendi a reconhecer um outro Natal que não aquele das decorações datadas e das prendas porque sim. Aprendi a olhar para esta altura do ano com olhos de quem observa e acompanha e sente ciclos. Aprendi que esta altura do ano é um fechos de ciclo, ainda que seja o início do Inverno.

Apetece-me a tal árvore que lhe chamam de Natal. Com decorações carregadas de símbolos e significados. Daqueles símbolos e significados que, finalmente, me dizem algo. Não as fitas e as bolas e as estrelas e as luzes só porque sim. Mas porque cada peça presente tem um significado específico neste final de ciclo.

Não, a árvore, a tal árvore que lhe chamam de Natal ainda não existe cá em casa. Tanto porque a tradicional árvore de plástico, mais ou menos farfalhuda, há muitos anos que não existe por cá como porque o tempo está contado ao minuto, ao segundo e ainda não me permitiu dedicar-me a ela. Não sei sequer se conseguirei ter essa tal árvore que alguns chamam de Natal e que eu prefiro chamar de Inverno. Não sei sequer se conseguirei concretizá-la como já existe na minha cabeça. Mas sei que mesmo que não consiga concretizá-la não ficarei triste por isso. Não sentirei o vazio que tantos anos me acompanhou nesta altura do ano.

Os símbolos e os significados estão comigo, estão em mim. A árvore, essa também. Assim como está presente também o Amor que existe sempre por cá, com ou sem árvore, em minha casa ou em casa de outros.

O meu Natal já o trago comigo. Trouxe com ele cor. E tudo o mais que só a mim e a meu Natal faz sentido fazendo sentir.

Não, cá em casa não há árvore de Natal. Ainda. E pode nem chegar a haver. Mas há tudo o resto. Tranquila e em paz.

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{dos sonhos que já foram os meus}

Já tinha desistido deles, dos sonhos. Ou dele, o único que ao longo de tantos anos se manteve comigo.
Hoje não sei, já, se era sonho ou apenas vontade. Ou uma vontade de sonho. Sei apenas que durante tanto tempo era o que queria. A única coisa que queria, com todas as forças, fosse meu apenas se tivesse que ser.

Um dia percebi que há sonhos que não se alcançam porque não nos estão reservados. Não são para serem nossos. Ou assim pensava até ao dia em que parte desse sonho que era vontade ou essa vontade de sonho começou a tomar forma. Lembro-me da enxurrada de emoções, algumas contraditórias, outras apenas contrárias a tanta coisa. E lembro-me também da força da realidade que nos puxa de volta à Terra, numa espécie de Lei da Gravidade e que nos acorda.

Aceitei que a minha realidade não tem espaço para alguns sonhos. Ou vontades. Ou vontades de sonho. Aceitei há tanto tempo que cheguei a achar que seria sempre assim, uma vontade não realizada, um sonho não concretizado.

Aceitei novamente depois do regresso à realidade. E desisti. Abri mão. Repeti para mim mesma que essa realidade de sonho ou de vontade não me pertence. Não é para mim. Encaixei. Entranhei. Incorporei. Resignei.

Deixei de aceitar entretanto. Não sei quando, não sei porquê, não sei onde no caminho. Sei, sim, que ao mesmo tempo que digo que não quero cá dentro sinto-me a querer. E dou por mim a conversar comigo mesma e a dizer que já sabes que não, que não vai acontecer, porque o Tempo não pára, não espera e não pode ser. Como poderia? Não. Essa realidade não te pertence, digo-me. Repito-me. Tento aconchegar-me e abraçar-me, é possível abraçarmo-nos a nós mesmos?, e em jeito de embalo repito sozinha baixinho que não faz mal, não faz mal, não faz mal.

Os sonhos, ou vontades, ou vontades de sonho, sabem o caminho. Têm o mapa. Mas nem sempre adianta segui-los porque tantas vezes esse mapa, esse caminho, não leva a lado nenhum, em jeito de labirinto sem saída.

Não. Esse sonho, essa vontade, essa vontade de sonho não vai ser realidade. Porque, aceito, ou tento aceitar, há realidades que não me pertencem. Como esta.

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{Paris}

Dói-me o dia de hoje. Sufoca-me. Molha-me os olhos.

Tento desligar mas não é fácil. Paris está em todo o lado.

Fujo. Não quero saber mais. Não quero detalhes, pormenores. Não quero saber números sabendo que são muitos e que apenas um já seria demasiado.

Não entendo. Como posso? É o ódio. E eu sou pelo Amor. E, só por isso, hoje não quero saber porque não quero chorar por me doer. Não quero nada disto.

São uns poucos a odiar muitos. Mas são tantos a Amar outros tantos. E é por aqui que escolho seguir.

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{do vinho, novamente o vinho}

Escrevia eu há uns meses, largos como se tivesse sido escrito ontem, que bebia para esquecer. Nunca esquecendo, claro, porque não se esquece. Mas esquece-se para beber. Ou esquecia-me, na altura, quando tanto precisava de parar um bocadinho o Mundo lá fora e esquecer-me dele.

Hoje apetece-me, muito, um copo de vinho. Tinto. Forte. Intenso. Não para esquecer. Nem para esquecer-me. Mas o contrário.
Hoje apetece-me, muito, um copo de vinho. Tinto. Forte. Intenso. Para me lembrar.
Para me lembrar de todos estes meses, longos que parecem ontem, e simplesmente comemorar. Celebrar. O simples facto de estar cá. E quantas vezes nos esquecemos de celebrar o facto, tão simples mas nunca garantido, de estarmos cá?

É aquela coisa do aqui e agora. Porque o ontem já foi e o amanhã…o amanhã quem sabe, sequer, se chega. E também por isso deixei de ter Tempo para perder Tempo. É o aqui e agora. Novamente. Sempre.

E hoje, hoje apetece-me, tanto, um copo de vinho pelo aqui e agora. E por estar cá. E por mim, simplesmente porque sim.

Mas não se bebe sozinho. Bebe-se a dois. Ou três. Ou tantos. Mas não sozinho. Porque o copo de vinho que me apetece faz-me soltar e conversar. Abertamente. Sobre tudo, sobre nada, sobre o que não tem importância, sobre o que é importante, ainda, conversar.

Hoje apetece-me, muito, tanto, um copo de vinho. Mas não se bebe sozinho para não continuar a guardar o que teimo em deixar por dizer.

Celebro, ainda assim, o facto de estar cá. O aqui e agora. O não ter Tempo para perder Tempo.
Porque o ontem já foi e o amanhã…não sei, não sabe ninguém, se sequer chego lá.

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{há um ano escrevia isto}

Sábado, 25 de Outubro de 2015, 01h26m

Quantas…?
Tantas…

{é o ir a jogo já de pé atrás que tira a piada ao risco de eventualmente ganhar…}

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Sabia, ou achava que sabia, ao que ia nesse dia.

Com receio, claro. Estive perto de desistir. Porque alguma coisa me dizia para não ir.

Mas fui. Porque não queria “perder por medo de perder”. Arrisquei. Fui e sempre alguma coisa a dizer-me para não ir.

…e devia ter dado ouvidos a essa coisa que me sussurava ao ouvido para não ir. É certo que, em parte, ganhei alguma coisa. Mas também é certo que perdi demasiado Tempo que não me é devolvido.

Se na altura achava que era uma espécie de “milagre” que apareceu no meio do meus caos interior com feridas ainda demasiado abertas, se na altura achava que era exactamente aquilo que estava a precisar, pouco mais de três meses foi o tempo suficiente para perceber que não. Que foi asneira. Que foi, apenas, a mais pura carência, minha, a falar mais alto. E a falta de carácter do outro lado esteve lá sempre. Desde o primeiro dia. Bem como todas as outras características que eu vi mas quis fazer de conta que não via.

Quantas coisas perdemos por medo de perder? Tantas. Mas, tantas vezes, arriscamos e perdemos aquilo que não temos para perder. Como eu. Que perdi Tempo. E eu não tenho Tempo para perder Tempo.

Foi há um ano. Hoje não cometeria o mesmo erro.

{um dia}

Um dia, num qualquer desses dias de contagem, um dia escrevo sobre isto. Ou falo sobre isto. Ou ambos. E falar, falar é-me tão mais importante que apenas escrever. Um dia, num qualquer desses dias de contagem ou, quem sabe, já sem ela, faço as pazes. Com o que já está lá atrás mas não ficou lá. E comigo. Não sei por esta ordem ou o seu inverso. Até lá, não nego: não há dia em que não regresse aos dias que não foram sendo, que foram não sendo. Que foram mas não foram, que não foram mas foram. Porque foram.

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{dos sonhos}

Os sonhos trazem-nos mensagens, dizem. Dão-nos respostas. Ou apenas pistas. 

Esta noite sonhei contigo.

Não me lembro de alguma vez ter sonhado contigo. Não significa que nunca tenha acontecido, simplesmente não me lembro. Como não me lembro da maior parte dos meus sonhos. Mas esta noite sonhei contigo. E lembro-me. Bem demais. Ao ponto de revisitar esse sonho durante todo o dia, como se fosse um video em loop na minha cabeça.

Lembro-me de cada pormenor. De onde estávamos. Do que aconteceu. De como aconteceu. Do que veio pelo meio. De como terminou entretanto. Lembro-me de tudo.

…e, talvez por causa do sonho, lembrei-me todo o dia que não me lembro de te ver sorrir. Ou melhor, de te ver sorrir muitas vezes. Lembro-me de pequenos sorrisos, aqui e ali. Mas não me lembro do teu sorriso. Acredito que terás um sorriso como todos os sorrisos: bonito.

No meu sonho sorriste. Acabaste por sorrir, no fim de tanta confusão, de visitas inesperadas que não vieram por bem, que nos encontraram desprotegidos de todo o mal que existia lá fora, fora daquela casa que não reconheço, que não era minha nem era tua, mas era tua na mesma. Acabaste por sorrir, no fim de lutas pelo espaço que era nosso mesmo não sendo, naquele Tempo que era apenas dos dois.

…e, agora que penso nisso, não me lembro do som da tua gargalhada…

No meu sonho não riste. Não houve motivos para rir. Muito pelo contrário. Não sendo um pesadelo, não foi um sonho tranquilo. Não sei como lhe chamar, mas não lhe chamo pesadelo. Porque de início era o que era, éramos os dois a ser o que sempre fomos. Até que aquelas personagens, aqueles quase desconhecidos, nos abordaram numa casa que não era a tua, mas era tua na mesma.

Lembro-me de sentir. Nos sonhos também sentimos. Senti-me bem, como me sinto sempre contigo, para de seguida sentir medo. Terror. Não sei quem eram. Sabia no sonho. Sabia quem eram não sabendo. Sabia para o que estavam ali. Fugiam. Fugiam para se esconder, não para sobreviver. Fugiam de algo de mal que tinham feito fora daquelas paredes, para lá daquelas portas e janelas que abriram e passaram. Fugiam para se esconder ali. Ameaçando-nos quando nos encontraram. Ali, desprotegidos. Só os dois. Porque era só dos dois aquele espaço, aquele Tempo.

Lembro-me que me protegeste. Que me prometeste que tudo iria acabar bem. Porque sabias quem eram, conhecia-los de infância ou juventude, já não sei. Sabias como convencê-los a irem embora. Prometeste-me que não nos iriam fazer nada. Se ficássemos em silêncio, esquecer-nos-iam e depressa partiriam dali. “Vão ficar só mais uns minutos” disseste-me. Quis encará-los. Dizer-lhes que não tinham que estar ali. Que se fossem embora. E foi nessa altura que me disseste para não o fazer. Olhaste para mim e vi nos teus olhos que a razão pela qual não querias que lhes falasse nada mais era do que medo. Do que me pudessem fazer. Porque, sabias, era perigoso enfrentá-los. E vi, aí, nesse momento, que eu era para ti mais do que aquilo que sempre pensei que fosse.

Nos sonhos também sentimos. E também lemos os silêncios. E ouvimos os olhares. E senti. E li. E ouvi. Tudo o que até esse momento nunca me tinhas dito. Por algum motivo, era eu quem estava em perigo no meu sonho. Mas foste tu quem se desarmou. Por mim. Para mim. E aí, aí disseste-me aquilo que sempre quis que me dissesses. O sim em vez do não. Não que também nunca disseste, nem talvez. Apenas nunca disseste. Mas ali, no meu sonho, disseste-me tudo o que estava guardado. O que, disseste-me também, não querias ter admitido para ti próprio antes. E que foi ali, naquele momento, naquele medo, naquele terror, que ganhaste coragem para admitir para ti. E, como isso, já depois do perigo ter passado, admitiste para mim.

Lembro-me, ainda antes disso, de como me tocavas. De como mexias no meu cabelo. De como arrepiavas o meu braço. De como me olhavas. Como olhos que olham para além do que é visível. Como olhos que despem a alma.

Lembro-me, durante aqueles piores momentos, dos teus braços ao meu redor, como que a esconder-me. A proteger-me. Para que eles, aqueles que vieram, não me vissem, não me percebessem ali, não me fizessem seja o que for que sabias que fariam.

Lembro-me, depois de tudo isso, depois de admitires para ti, depois de admitires para mim, lembro-me da tua testa colada à minha e num sussurro dizeres-me que agora era o Tempo certo. Era agora, não antes. Nem depois.

…e lembro-me que nem nesse momento me lembro de ver o teu sorriso. Sei que sorrias. Mas sei que era mais forte o medo. Porque era medo que os teus olhos gritavam. Era medo que os teus lábios desenhavam. Medo por mim.

Os sonhos, dizem, trazem-nos mensagens. Dão-nos respostas. Ou apenas pistas.

Hoje, hoje não quero voltar a sonhar. Porque os sonhos, quando nos trazem mensagens, quando nos dão respostas ou apenas pistas, os sonhos não nos mentem como quando não passam de fantasias. E este sonho, este sonho em que esta noite sonhei contigo, este sonho foi apenas uma fantasia. Uma espécie de realização de um desejo. De uma vontade. Que não passa, não passará nunca, nunca poderá passar, de uma fantasia na minha cabeça.

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