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Água em Pó. Estávamos em 1992, já vínhamos desde 1987. Não me recordo se a Água em Pó ia ao micro-ondas ou se bastava juntar água. Mas nunca mais me esqueci da Água em Pó.

Cruzámo-nos pela última vez lá para 1997. Ou terá sido ainda em 1996? Recordo-me desse encontro. Completamente ao acaso. Recordo-me, também, do que falámos. Ele a fazer melhoria de nota. Eu a ir à secretaria da escola. Lembro-me de o ter visto sorrir quando me viu. Sorri-lhe de volta e com gosto. Nunca mais nos cruzámos por aí.

Fui sabendo dele, por trás de ecrãs que não de computador. Fui, de certa forma, acompanhando-lhe o percurso. E sempre que sabia dele sorria com um misto de admiração e orgulho. Admiração não por me surpreender, muito pelo contrário, por sempre o ter sabido diferente e capaz. Orgulho exactamente pelo mesmo motivo.

Lembro-me várias vezes de aulas de matemática ou de biologia no 5° ano, quando dividiamos carteira. Ou melhor, mesas de grupo. Eram grupos de 4. Apenas me recordo dele. Lembro-me que conversavamos de outras coisas que não das aulas. Recordo algumas brincadeiras típicas de quem tinha 10 anos e começava agora a crescer devagar.

Ainda lhe oiço a voz ao longe na memória. Há muito tempo, tanto tempo, 20 anos?, 21?, que não o oiço de viva voz, mas ainda o oiço na memória dos 10 anos a dizer-me, na aula de biologia, ou ainda se chamava Ciências da Natureza?, a dizer-me depois de me olhar nos olhos “tens olhos de cobra…tens olhos de serpente!”. Nunca lhe perguntei o que significa ter olhos de cobra, mas nunca o esqueci.

Água em Pó em 1992, filmes de película rodados no terraço de um prédio vizinho, jogos de futebol e uma bola, dele, que ficou no telhado do pavilhão A depois de um chuto mal medido dado por mim. Jogos de basket. Visitas de estudo. Festas de aniversário. Segredos guardados aos 12 anos. Experiências prometidas aos 15 numa aula de Físico-química em que, mais uma vez, partilhavamos carteira mas não concretizadas.

Ele sempre muito mais seguro e decidido do que eu. Mais crescido, ainda que apenas 29 dias nos separassem no calendário dos aniversários.

Recordo-lhe a voz. E a cicatriz no queixo. E o ar trocista de quem tenta convencer da chegada do anti-cristo alguém que o parou na rua para lhe testemunhar um qualquer deus.

1997. Ou seria ainda 1996? Não interessa. São 20 anos bem medidos num total de 30. Já não há Água em Pó. Já não há espectáculo multimédia de uma exposição universal que não visitámos mas recriámos.

20 anos depois, “olá, Catarina”. E voltou a Água em Pó. Voltaram as memórias todas que nunca se apagaram e algumas, muitas, que nem sequer adormeceram. Deste lado do ecrã sorri. Quero acreditar que do lado de lá ele sorriu também. Deste lado do ecrã tanta coisa mudou, do lado de lá também. Deste lado do ecrã tanta coisa se mantém igual, ali no eixo 10-15 anos onde éramos mais presentes, também no eixo 15-20 onde a distância natural de quem percorre caminhos distantes acaba por ditar as regras. Do lado de lá do ecrã acredito que ainda será possível encontrar aquele miúdo da cicatriz.

Sabia que lhe sentia a falta. De saber dele na primeira pessoa. Ainda lhe sinto a falta da voz que sei manter-se igual à voz que ecoa na minha memória. Não sabia, não tinha noção, que ele foi, muito provavelmente, o meu melhor amigo do final da infância e início da adolescência. Nunca lho disse. Como poderia tê-lo feito se só hoje o percebi?

“Olá, Catarina. Estás Boa?” e eu ali, sem poder dispensar muitos minutos do meu primeiro dia de trabalho depois das férias e a viajar 30 anos para trás.

Fazia-me falta. E percebo hoje que ele sempre foi um dos ramos da minha árvore. E se há um ano cortei um ramo que não me deixava crescer, hoje recupero, mesmo que atrás de um ecrã, um ramo que me acompanhou quando ambos começámos a crescer. Devagar.

A ti, André, brindo com água. Com Água em Pó. E tu saberás porquê. Obrigada por voltares a sorrir-me com o teu ar trocista. Obrigada por me voltares. Tinha saudades tuas.

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