{"id":13519,"date":"2024-08-05T23:39:00","date_gmt":"2024-08-05T22:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/08\/05\/218-149-2024\/"},"modified":"2024-08-06T01:42:36","modified_gmt":"2024-08-06T00:42:36","slug":"218-149-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/08\/05\/218-149-2024\/","title":{"rendered":"{#218.149.2024}"},"content":{"rendered":"\n<p>Falar d\u00f3i. Falar sobre o que nos d\u00f3i ainda d\u00f3i mais. E hoje foi dia de falar.<\/p>\n\n\n\n<p>De manh\u00e3 acordar a horas por acaso, sem bateria no telem\u00f3vel, sem o despertador tocar, claro. Mas ainda assim acordar a tempo de fazer tudo o que era preciso fazer antes de sair de casa e, mesmo assim, chegar a tempo de apanhar o autocarro \u00e0 hora de sempre. Tinha dado a fisioterapia por perdida quando, ao acordar sem despertador e sem saber que horas eram, olhei para a janela e, a julgar pela luz l\u00e1 fora, acreditava que j\u00e1 seria meio dia e meia. N\u00e3o eram. Eram 8h35. Foi fazer tudo a correr, sair de casa \u00e0s 9h30 sabendo que o autocarro passa \u00e0s 9h30 e, apesar de a paragem ficar a 500 metros, eu n\u00e3o consigo andar (muito) depressa. Mas hoje consegui provar a mim mesma que, afinal, quando \u00e9 preciso at\u00e9 consigo. Muitos desequil\u00edbrios pelo caminho, alguns trope\u00e7\u00f5es, mas consegui chegar \u00e0 paragem do autocarro 30 segundos antes do autocarro. Foi uma pequena (grande) vit\u00f3ria. Que me custou horrores. Por causa das dores, por causa dos desequil\u00edbrios, por n\u00e3o gostar de come\u00e7ar o dia a correr. Mas o que importa \u00e9 que <strong>consegui!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois da fisioterapia, seguir para onde queria ir almo\u00e7ar hoje em Almada. Um calor insuport\u00e1vel. E aquele s\u00edtio que <strong>nunca<\/strong> fecha, hoje estava fechado para obras de remodela\u00e7\u00e3o&#8230; Seja! Na cafetaria do Hospital tamb\u00e9m se come bem e havia consulta marcada para as 15h30. <\/p>\n\n\n\n<p>Seguir (sempre) pela sombra at\u00e9 \u00e0 paragem de autocarro e, ainda, um calor insuport\u00e1vel. Apanhar o autocarro, seguir para a cafetaria e, naquele corredor, ficar a conhecer a sensa\u00e7\u00e3o de estar numa fornalha, tal era o calor. <\/p>\n\n\n\n<p>Almo\u00e7ar, beber caf\u00e9 e seguir para a consulta. Um calor mais do que insuport\u00e1vel, infernal! E a consulta naquele edif\u00edcio fora do corpo principal do Hospital, com uma rampa para subir \u00e0 torreira do Sol. Bem-vindos ao edif\u00edcio dedicado \u00e0s consultas de <strong>Sa\u00fade Mental<\/strong> do Hospital Garcia de Orta&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar l\u00e1 e perceber que a sala de espera n\u00e3o tem ar condicionado e a <strong>\u00fanica<\/strong> ventoinha de servi\u00e7o n\u00e3o era suficiente para acalmar o calor&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi dia de voltar \u00e0 consulta de Psiquiatria. Com aquele psiquiatra que, na primeira consulta em Abril, se apresentou pelo primeiro nome deixando de parte o t\u00edtulo de Doutor e o apelido. E que, nesse exacto momento e com essa exacta atitude me conquistou.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira pergunta que me fez eu j\u00e1 sabia qual seria: como \u00e9 que vai a Depress\u00e3o? A minha resposta n\u00e3o podia ter sido mais simples: &#8220;quanto tempo \u00e9 que temos?&#8221; e, claro, rimos os dois. Porque ambos sabemos que, nas consultas, seja de que especialidade for, o tempo \u00e9 contado ao segundo. E, da mesma forma que eu sabia que tinha muita coisa para dizer, ele percebeu que havia essa necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Falei de tudo: do querer chorar e n\u00e3o conseguir, das faltas de resposta concretas e verdadeiras do meu m\u00e9dico de especialidade, do sentimento de solid\u00e3o e o porqu\u00ea de me sentir assim, da minha necessidade de falar com algu\u00e9m que esteja a passar ou j\u00e1 tenha passado pela mesma fase que eu, da minha nega\u00e7\u00e3o e do ainda n\u00e3o aceitar o que tenho, do desconhecer sequer em que ponto estou para, posteriormente, poder definir o meu mapa. Do n\u00e3o conseguir ainda assumir que n\u00e3o \u00e9 uma simples condi\u00e7\u00e3o mas sim uma doen\u00e7a. Que eu n\u00e3o procurei, n\u00e3o desejei, nunca pensei sequer que me fosse acontecer. A mim. E ainda estar na fase do &#8220;porqu\u00ea eu?&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Disse-lhe que estou frustrada, zangada, revoltada, magoada. E sem respostas do m\u00e9dico especialista. &#8220;Acho que \u00e9 preciso acordarmos o Dr. Miguel&#8221;, disse-me ele. E eu disse-lhe que sim!, est\u00e1 mais do que na hora! S\u00f3 n\u00e3o sei o que fazer mais. Disse-lhe que entendo perfeitamente o caos que deve estar naquele servi\u00e7o neste momento com a sa\u00edda de sete m\u00e9dicos mais tr\u00eas de baixa. Mas eu preciso de resposta \u00e0s minhas quest\u00f5es, e que sejam respostas coerentes, verdadeiras e que n\u00e3o sejam s\u00f3 de dizer por dizer. <\/p>\n\n\n\n<p>No final da consulta fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que sim!, o m\u00e9dico de nome pr\u00f3prio que dispensa t\u00edtulo de Doutor e o apelido, me entendeu e realmente me ouviu. Decidiu n\u00e3o mexer na medica\u00e7\u00e3o porque, afinal, eu at\u00e9 saio de casa todos os dias, para a fisioterapia e para beber um caf\u00e9 e, para ele, \u00e9 sinal de que a Depress\u00e3o est\u00e1 estabilizada. Mas, para mim que a sinto todos os dias, ela est\u00e1 a agravar-se. Porque, desta vez, omiti pormenores que at\u00e9 de mim tento esconder&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima consulta ainda n\u00e3o foi marcada. Mas j\u00e1 sei que n\u00e3o ser\u00e1 com ele. Vai-se ausentar &#8220;por uns meses&#8221; mas vou continuar a ser acompanhada pelo Dr. Nuno, seja ele quem for. E quando me disse que se ia ausentar &#8220;por uns meses&#8221; n\u00e3o nego que tremi. Contei-lhe da experi\u00eancia da psiquiatra anterior com quem s\u00f3 tive uma consulta e que logo de seguida deixou de trabalhar no Hospital. E, muito desanimada fiz-lhe um pedido. &#8220;Dr. posso pedir-lhe uma coisa&#8230;?&#8221; Claro, foi a resposta.&#8221;Prometa-me que volta&#8230;&#8221; Nem um segundo depois, a resposta: &#8220;Prometo que volto! V\u00e3o ser s\u00f3 uns meses, mas para o ano volto!&#8221; N\u00e3o sei para onde vai, o que vai fazer, mas quero muito que volte! Porque com o m\u00e9dico de nome pr\u00f3prio que dispensa t\u00edtulo de Doutor e o apelido houve empatia desde o primeiro dia! E isso \u00e9 t\u00e3o importante! <\/p>\n\n\n\n<p>A conversa durante a consulta correu ligeira, mas falar doeu-me. Sobretudo falar sobre aquilo que me apanhou na curva. Pareceu f\u00e1cil, mas n\u00e3o foi. Tinha (e tenho!) uma grande necessidade de falar sobre isso&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje, j\u00e1 em casa, o telefone tocou. E desta vez houve retorno \u00e0 minha tentativa de contacto de sexta feira. E, sem darmos muito por isso, assim se passaram duas horas ao telefone. A falar do qu\u00ea? De mim. Do que se passa comigo. Disto que me apanhou na curva. E, pela primeira vez, foram abordados todos os assuntos relacionados com isto e com o como estou a lidar, o facto de ainda n\u00e3o ter encaixado, de a ficha ainda n\u00e3o ter ca\u00eddo, de ainda estar em nega\u00e7\u00e3o. Do n\u00e3o pronunciar facilmente o que tenho. Nem com m\u00e9dicos que me acompanham nem com o fisiatra ou as fisioterapeutas. E, agora que penso nisso, nem com a m\u00e9dica de fam\u00edlia eu sou capaz de chamar os bois pelos nomes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E foi ent\u00e3o que me caiu uma ficha&#8230; Desde s\u00e1bado que digo que n\u00e3o me lembro da sess\u00e3o de massagem na fisioterapia de sexta feira. Recordo-me do momento em que a massagista come\u00e7ou a espalhar o creme. Mas n\u00e3o me lembro de mais nada at\u00e9 ela tirar de cima de mim os cobertores quentes. Durante todo o fim de semana me fez confus\u00e3o n\u00e3o me lembrar de rigorosamente nada da massagem. Foi como se n\u00e3o tivesse acontecido. Mas aconteceu. E hoje, quando come\u00e7\u00e1mos a massagem comentei isso com ela. &#8220;Como assim? N\u00e3o se lembra? Estivemos a falar do seu diagn\u00f3stico&#8230;&#8221; e foi aqui que, ao telefone, quando fal\u00e1vamos sobre o n\u00e3o chamar os bois pelos nomes, me caiu esta ficha: simplesmente bloqueei essa conversa da minha mem\u00f3ria&#8230; Continuo a n\u00e3o recordar os pormenores da massagem em si, mas agora j\u00e1 me recordo do que fal\u00e1mos. <\/p>\n\n\n\n<p>Sei que a mente tem o poder de nos proteger. E n\u00e3o duvido que foi isso que aconteceu&#8230; Porque eu n\u00e3o falo do meu diagn\u00f3stico, ou do processo at\u00e9 ele, muitas vezes. E, mesmo na fisioterapia, seja com o fisiatra ou as fisioterapeutas, raramente tenho chamado os bois pelos nomes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o consigo pronunciar o nome daquilo que tenho, que me apanhou na curva, que eu n\u00e3o procurei mas que me encontrou e veio para ficar para sempre. Nem aqui consigo escrever o nome. Porque, sempre que tenho que o referir por algum motivo, <strong>d\u00f3i<\/strong>. <strong>Muito<\/strong>! <\/p>\n\n\n\n<p>E sim, falar d\u00f3i. Falar sobre <em>isto<\/em> <strong>d\u00f3i<\/strong>. Mas, se h\u00e1 umas semanas dizia que queria ter uma conversa normal, agora tenho muita necessidade de falar sobre isto. N\u00e3o sei se me vai ajudar a aceitar. Mas preciso de ter algu\u00e9m do outro lado da mesa da esplanada, da mesa do restaurante, do banco do jardim, seja l\u00e1 onde for!, com disponibilidade para me ouvir. E fazer perguntas. E obrigar-me a responder. Pensar, ponderar e responder. Mesmo sabendo que falar d\u00f3i. <\/p>\n\n\n\n<p>E se chorar \u00f3ptimo! Afinal, e como foi hoje dito ao telefone, \u00e9 preciso fazer o luto! Porque quem eu era h\u00e1 2 anos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma que escreve aqui hoje. E o luto tem que ser feito&#8230; E por isso escrevo. Mas, o que eu preciso mesmo \u00e9 de falar, ouvir e ser ouvida. S\u00f3 assim consigo avan\u00e7ar neste luto que tem que ser feito&#8230;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/img_6330-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-13518\"\/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar d\u00f3i. Falar sobre o que nos d\u00f3i ainda d\u00f3i mais. E hoje foi dia de falar. De manh\u00e3 acordar a horas por acaso, sem bateria no telem\u00f3vel, sem o despertador tocar, claro. 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