{"id":13522,"date":"2024-08-06T23:59:00","date_gmt":"2024-08-06T22:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/08\/06\/219-148-2024\/"},"modified":"2024-08-07T01:15:36","modified_gmt":"2024-08-07T00:15:36","slug":"219-148-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/08\/06\/219-148-2024\/","title":{"rendered":"{#219.148.2024}"},"content":{"rendered":"\n<p>Cansada. <strong>T\u00e3o cansada<\/strong>. E <strong>n\u00e3o \u00e9<\/strong> o tradicional cansa\u00e7o f\u00edsico que me afecta. Ou que <strong>mais<\/strong> me afecta. \u00c9 o cansa\u00e7o mental. Psicol\u00f3gico. Emocional. \u00c9 o sentir-me <strong>isolada<\/strong>. O n\u00e3o sair de um rect\u00e2ngulo pr\u00e9-definido. Aquele rect\u00e2ngulo onde est\u00e1 a minha casa, o Hospital, a Fisioterapia e o CDP. Os \u00fanicos s\u00edtios onde vou. E, ao Hospital, correndo tudo bem e n\u00e3o havendo nenhuma urg\u00eancia, s\u00f3 regresso a 30 de Agosto. Ao CDP a 27 de Setembro. O \u00faltimo dia de Fisioterapia \u00e9 j\u00e1 na pr\u00f3xima segunda feira, dia 12 e, muito provavelmente, s\u00f3 volto a ter vaga duas ou tr\u00eas semanas depois, portanto dificilmente antes do fim do m\u00eas. E, a partir da\u00ed, o rect\u00e2ngulo diminui significativamente para o meu bairro e (muito) pouco mais&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto-me <strong>presa<\/strong>. Como se, \u00e0 minha volta, houvesse uma qualquer veda\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a que me impede de sair. Como se estivesse agrilhoada para n\u00e3o me afastar. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vejo <strong>ningu\u00e9m<\/strong> das <strong>minhas<\/strong> pessoas. Aquelas de quem eu gosto, aquelas que eu sei que gostam de mim. Raros, <strong>muito raros<\/strong> s\u00e3o os contactos feitos por telefone e, quando existem, \u00e9 <strong>sempre<\/strong> com a mesma pessoa. A \u00fanica que ainda dispende do seu tempo para conversar. Seja sobre o que for. <\/p>\n\n\n\n<p>Ontem o psiquiatra disse-me que <strong>n\u00e3o achava<\/strong> que a minha Depress\u00e3o tivesse agravado. Isto porque eu <strong>saio de casa todos os dias<\/strong> para a Fisioterapia e depois ao final do dia para beber caf\u00e9. Mas, desconfio, <strong>n\u00e3o<\/strong> <strong>deve ter ouvido<\/strong> quando lhe disse que, para al\u00e9m da Fisioterapia, se saio de casa todos os dias \u00e9 porque me <strong>obrigo<\/strong> a isso. Aprendi com o terapeuta fofinho h\u00e1 alguns anos que <strong>\u00e9<\/strong> <strong>importante<\/strong> sair de casa. E \u00e9 aos ensinamentos dele que tenho recorrido. Mas, na verdade, quando saio de casa para ir beber um caf\u00e9, vou <strong>sempre<\/strong> ao mesmo s\u00edtio, porque \u00e9 o mais pr\u00f3ximo e \u00e9, correndo o risco de exagerar um pouco, como se estivesse em casa. Porque \u00e9 <strong>sempre<\/strong> no mesmo s\u00edtio. Como em casa. Onde <strong>n\u00e3o est\u00e1<\/strong> <strong>ningu\u00e9m<\/strong> das minhas pessoas. Como em casa, tendo como excep\u00e7\u00e3o a minha m\u00e3e. Onde <strong>n\u00e3o converso<\/strong> com ningu\u00e9m. Como em casa, onde falamos mas <strong>n\u00e3o conversamos<\/strong>. Onde vejo <strong>sempre<\/strong> a mesma coisa. Como em casa. Por isso, <strong>obrigar-me<\/strong> a sair de casa todos os dias para beber um caf\u00e9 n\u00e3o \u00e9, necessariamente, sinal de \u00e2nimo, motiva\u00e7\u00e3o, o que for. \u00c9, sim, uma <strong>regra que impus a mim pr\u00f3pria<\/strong> para apanhar um pouco de ar, ainda ver a luz do dia e mexer um pouco as pernas, mesmo que cada vez custe mais. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, <strong>nada disto<\/strong> diz que a Depress\u00e3o n\u00e3o agravou. A <strong>solid\u00e3o<\/strong> \u00e9 cada vez maior, tal como o <strong>sil\u00eancio<\/strong> que me rodeia e a <strong>aus\u00eancia<\/strong> de interac\u00e7\u00e3o. E a <strong>vontade de chorar<\/strong> tamb\u00e9m passa por a\u00ed. N\u00e3o \u00e9 apenas pelo que me apanhou na curva e que eu continuo a <strong>recusar<\/strong>, ou a <strong>negar<\/strong>, ou <strong>seja l\u00e1 o que for<\/strong>! Passa tamb\u00e9m por cada vez me sentir mais <strong>sozinha<\/strong>. Mais <strong>presa<\/strong>. Mais <strong>isolada<\/strong> do Mundo! <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 umas semanas disseram-me que eu tamb\u00e9m tinha que fazer a <strong>minha parte<\/strong>, a de <strong>chamar<\/strong> as pessoas. E na semana passada foi o que tentei fazer. Com quem me chamou a aten\u00e7\u00e3o para isso. At\u00e9 ver, sem sucesso. Provavelmente at\u00e9 j\u00e1 esquecido&#8230;sei l\u00e1 eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sei que toda a gente tem a sua <strong>vida<\/strong>. O seu <strong>trabalho<\/strong>. Os seus <strong>afazeres<\/strong> do dia-a-dia. Tamb\u00e9m sei que Agosto \u00e9 sin\u00f3nimo de <strong>f\u00e9rias<\/strong> para muita gente. E tamb\u00e9m sei que chamar algu\u00e9m para vir at\u00e9 aqui, terra \u00e0 beira da praia, \u00e9 pedir que percam <strong>horas intermin\u00e1veis<\/strong> no tr\u00e2nsito de acesso \u00e0 ponte na vinda para c\u00e1 e <strong>outras<\/strong> <strong>tantas horas intermin\u00e1veis<\/strong> no acesso \u00e0 portagem no regresso a Lisboa. E, se algu\u00e9m quiser vir at\u00e9 c\u00e1 recorrendo aos transportes p\u00fablicos, \u00e9 <strong>garantida<\/strong> a enorme dificuldade de conseguir entrar num autocarro no regresso. Por isso, n\u00e3o!, n\u00e3o me atrevo a chamar ningu\u00e9m da outra margem para vir at\u00e9 c\u00e1, seja ao fim de semana (que \u00e9 <strong>impens\u00e1vel<\/strong>!) ou seja durante a semana porque Agosto tem tr\u00e2nsito igual todos os dias. E nesta margem, que eu tantas vezes chamo de <strong>Margem Cool<\/strong>, s\u00e3o poucas, <strong>muito poucas<\/strong> as <strong>minhas<\/strong> pessoas. <\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m a <strong>solid\u00e3o d\u00f3i<\/strong>. E <strong>deprime<\/strong>. E <strong>corr\u00f3i c\u00e1 por dentro<\/strong>. E \u00e9 como se eu me transformasse num saco de pancada agredido por mim pr\u00f3pria. Porque \u00e9 isso que fa\u00e7o todos os dias de diversas formas. Daquelas que poucos, muito poucos, interpretam como uma <strong>auto-agress\u00e3o<\/strong>. Mas \u00e9. Porque, <strong>estando sozinha<\/strong>, n\u00e3o h\u00e1 quem me pegue na m\u00e3o e me puxe de volta \u00e0 Terra, \u00e0 <strong>realidade<\/strong> (por muito negativa que esteja a ser neste momento), que me diga &#8220;<strong>eu estou aqui<\/strong>&#8220;. Porque, na realidade, <strong>n\u00e3o est\u00e1<\/strong>. <strong>Ningu\u00e9m<\/strong>. E eu, sozinha, j\u00e1 o sei: <strong>n\u00e3o<\/strong> <strong>aguento<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>Apoio psicoterap\u00eautico, sugeriram-me h\u00e1 umas semanas. Confirmei que j\u00e1 tinha consulta marcada para o psic\u00f3logo para iniciar o apoio psicol\u00f3gico e a consulta de Psiquiatria tamb\u00e9m estava marcada. Portanto, \u00e0 partida, o apoio psicoterap\u00eautico j\u00e1 estaria assegurado. E eu sei a <strong>import\u00e2ncia<\/strong> que tem o <strong>apoio especializado<\/strong>. Psicoterap\u00eautico. Com psic\u00f3logo. Com psiquiatra. Mas tamb\u00e9m sei a <strong>import\u00e2ncia<\/strong> que tem o <strong>apoio volunt\u00e1rio de quem gosta de n\u00f3s<\/strong> e nos quer ver <strong>bem<\/strong>. E se tenho o apoio especializado de psic\u00f3logo e psiquiatra, s\u00f3 me <strong>fica a faltar<\/strong> o apoio volunt\u00e1rio de quem gosta de mim e me quer <strong>ver bem<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o!, <strong>eu n\u00e3o estou bem<\/strong>. Todos os dias me viro do avesso para encontrar coragem para enfrentar o dia. E descobri a forma mais <strong>f\u00e1cil<\/strong>, que n\u00e3o \u00e9 necessariamente a melhor: chegar a casa depois da Fisioterapia, almo\u00e7ar, passar pelo cadeir\u00e3o enquanto bebo caf\u00e9 e fa\u00e7o de conta que o dia j\u00e1 n\u00e3o vai s\u00f3 a meio para depois aninhar no sof\u00e1 e simplesmente <strong>dormir<\/strong>&#8230;nunca menos de tr\u00eas horas. Que passam por mim sem eu dar por elas, sem me sentir presa, sem me sentir isolada, sem me sentir sozinha. Sem ter <strong>rigorosamente nada para fazer<\/strong>, para me enganar a mim mesma vou pelo atalho do sono e <strong>morro para o Mundo<\/strong> por umas horas, s\u00f3 para perceber que, durante esse tempo, tamb\u00e9m <strong>n\u00e3o fiz falta a ningu\u00e9m<\/strong>, tamb\u00e9m <strong>ningu\u00e9m deu pela minha falta<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso <strong>n\u00e3o me digam<\/strong> que eu n\u00e3o estou sozinha. Porque estou! Cada vez mais <strong>presa<\/strong>. Cada vez mais <strong>isolada<\/strong>. Cada vez mais <strong>sozinha<\/strong>! E eu sozinha <strong>n\u00e3o aguento<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"252\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/img_6346-1-e1722989549491.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-13521\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansada. T\u00e3o cansada. 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