{"id":13769,"date":"2024-10-04T23:59:00","date_gmt":"2024-10-04T22:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/10\/04\/277-090-2024\/"},"modified":"2024-10-05T01:30:04","modified_gmt":"2024-10-05T00:30:04","slug":"277-090-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/10\/04\/277-090-2024\/","title":{"rendered":"{#277.090.2024}"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais um dia igual aos outros. Sair da cama de manh\u00e3 para o sof\u00e1, sair do sof\u00e1 para o cadeir\u00e3o. Sair do cadeir\u00e3o para o sof\u00e1. Voltar para o cadeir\u00e3o. De volta ao sof\u00e1, desta vez para me esticar e aconchegar certa de que rapidamente iria adormecer. N\u00e3o adormeci. Nova ida ao cadeir\u00e3o. Novo regresso ao sof\u00e1. S\u00f3 para voltar ao cadeir\u00e3o. Decidir ir \u00e0 rua beber caf\u00e9 depois do jantar. Est\u00e1 a chover. Volto ao sof\u00e1. Insisto em ir \u00e0 rua beber caf\u00e9 mesmo que esteja a chover. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. E vou.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma hora na esplanada vazia a uma sexta feira \u00e0 noite. Voltar para casa. Cama? N\u00e3o me apetece. Regresso ao cadeir\u00e3o. <strong>Preciso<\/strong> de conversar. De viva voz. Com ningu\u00e9m em particular, apenas com quem quiser conversar comigo. Sobre o qu\u00ea? Sobre tudo. Sobre nada. S\u00f3 n\u00e3o converso sobre futebol porque \u00e9 coisa que n\u00e3o percebo mesmo nada. Conversar sobre o estado do tempo \u00e9 uma conversa perfeitamente v\u00e1lida.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha rotina di\u00e1ria \u00e9 esta: cadeir\u00e3o, sof\u00e1, cadeir\u00e3o, sof\u00e1, cadeir\u00e3o, sof\u00e1 e por a\u00ed vai at\u00e9 serem horas de ir dormir. Que hoje j\u00e1 passaram h\u00e1 <strong>muito<\/strong> tempo. A noite j\u00e1 ro\u00e7a a madrugada. Mas, c\u00e1 dentro, uma <strong>inquieta\u00e7\u00e3o<\/strong> que n\u00e3o sei explicar e me prende ao cadeir\u00e3o. N\u00e3o gosto de me sentir assim. Nada mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que <strong>preciso<\/strong> <strong>mesmo<\/strong> \u00e9 de uma voz do outro lado, que me responda, que me questione, que comigo veja o tempo passar. Falar sobre tudo ou falar sobre nada. Desde que de <strong>viva voz<\/strong>. Seja ao vivo, seja do outro lado do telefone. N\u00e3o interessa. J\u00e1 n\u00e3o me chega a interac\u00e7\u00e3o escrita. J\u00e1 n\u00e3o me \u00e9 suficiente. Preciso desse momento de <strong>viva<\/strong> <strong>voz<\/strong> que \u00e9 <strong>profundamente terap\u00eautico<\/strong> e me recorda que, afinal, <strong>eu ainda existo<\/strong>. Eu ainda <strong>estou c\u00e1<\/strong>. Eu ainda <strong>sou Eu<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o admira que, seja no Hospital, no CDP, onde for, quando apanho algu\u00e9m um bocadinho mais dispon\u00edvel, por norma uma enfermeira, eu fique muito tempo a conversar. Sobre tudo. E tantas vezes sobre nada. Basta sentir um m\u00ednimo de disponibilidade do outro lado. E n\u00e3o me calo. At\u00e9 a minha m\u00e3e me dizer que j\u00e1 chega. Porque, afinal, quem est\u00e1 do outro lado, est\u00e1 a trabalhar e eu estou a atrapalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso que eu quero. N\u00e3o quero ser aquela que atrapalha. Que n\u00e3o se cala e n\u00e3o deixa os outros trabalhar. N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 isso que eu quero. Mas <strong>eu quero e preciso de<\/strong> <strong>conversar<\/strong>. <strong>De viva voz<\/strong>. Com algu\u00e9m que tenha disponibilidade e vontade para isso. Porque, n\u00e3o o fazer, faz-me sentir <strong>cada vez<\/strong> <strong>mais sozinha<\/strong>, cada vez mais <strong>inexistente<\/strong>. Mas <strong>eu ainda c\u00e1 estou<\/strong>. Eu <strong>ainda sou Eu<\/strong>. <strong>Profundamente sozinha<\/strong>. Embora saiba que, na realidade, n\u00e3o o estou. Mas, ao mesmo tempo, estou. E n\u00e3o quero. N\u00e3o posso. N\u00e3o me ajuda. N\u00e3o me faz bem. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o custa <strong>nada<\/strong> conversar com algu\u00e9m. Pois n\u00e3o? Ou custa assim tanto <strong>conversar<\/strong> <strong>comigo<\/strong>? Eu j\u00e1 ando suficientemente perdida no meio <em>disto<\/em> que me apanhou na curva. E fico mais perdida ainda quando me sinto <strong>profundamente sozinha<\/strong>. Quase como <strong>posta<\/strong> <strong>de parte<\/strong>. Numa prateleira qualquer. Onde fico a ganhar p\u00f3. E <strong>sem qualquer<\/strong> <strong>utilidade<\/strong>. J\u00e1 s\u00f3 falta mesmo sentir que me enfiaram no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu s\u00f3 preciso de ter com quem conversar de viva voz<\/strong>. N\u00e3o pe\u00e7o mais nada que n\u00e3o seja um pouco de <strong>tempo para conversar<\/strong>. Para perceber e sentir que sim!, <strong>ainda c\u00e1<\/strong> <strong>estou<\/strong>! <strong>Ainda sou Eu<\/strong>! N\u00e3o estou numa qualquer prateleira a ganhar p\u00f3. N\u00e3o estou no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse.<\/p>\n\n\n\n<p>E, com isto, esta sensa\u00e7\u00e3o de <strong>vazio<\/strong> que trago c\u00e1 dentro por n\u00e3o ter com quem conversar, a <strong>inquieta\u00e7\u00e3o<\/strong> que sinto e que me incomoda tanto, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o converso com ningu\u00e9m como me <strong>recuso<\/strong> a sair do cadeir\u00e3o para ir para a cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou cansada. Mas n\u00e3o fisicamente. Afinal, n\u00e3o fa\u00e7o nada o dia todo para me cansar&#8230; Mas estou cansada <strong>mentalmente<\/strong>. Estou cansada <strong>emocionalmente<\/strong>. <strong>Inquieta<\/strong>, muito. <strong>Cansada<\/strong>, demasiado. E, mais uma vez, a minha vontade \u00e9 deitar a cabe\u00e7a num colo e <strong>chorar<\/strong>. N\u00e3o vai acontecer, j\u00e1 sei. H\u00e1 mais de um ano e meio que quero chorar. E <strong>n\u00e3o<\/strong> <strong>consigo<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu <strong>s\u00f3<\/strong> <strong>preciso de conversar<\/strong> com algu\u00e9m <strong>de<\/strong> <strong>viva voz<\/strong>! Sem minutos contados. Conversa sem rumo definido. Falar sobre tudo. Falar sobre nada. Dizer disparates quando for para dizer disparates. Falar s\u00e9rio quando for para falar s\u00e9rio. Eu <strong>s\u00f3 preciso de conversar <\/strong>com algu\u00e9m <strong>de viva voz<\/strong>. Mais nada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que n\u00e3o pe\u00e7o muito. Mas fazem-me sentir que <strong>pe\u00e7o demasiado<\/strong>&#8230;e <strong>eu s\u00f3 preciso de conversar com algu\u00e9m de viva voz<\/strong>. Mais nada&#8230;o resto, o reencontrar-me e certificar-me de que n\u00e3o estou posta na prateleira, que n\u00e3o estou no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse, esse resto eu fa\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu s\u00f3 preciso de conversar com algu\u00e9m de viva voz.<\/strong> Mais nada&#8230;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/img_7457-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-13768\"\/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um dia igual aos outros. Sair da cama de manh\u00e3 para o sof\u00e1, sair do sof\u00e1 para o cadeir\u00e3o. Sair do cadeir\u00e3o para o sof\u00e1. Voltar para o cadeir\u00e3o. De volta ao sof\u00e1, desta vez para me esticar e aconchegar certa de que rapidamente iria adormecer. N\u00e3o adormeci. Nova ida ao cadeir\u00e3o. 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