{"id":13935,"date":"2024-11-18T23:59:00","date_gmt":"2024-11-18T23:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/11\/18\/322-045-2024\/"},"modified":"2024-11-19T00:53:31","modified_gmt":"2024-11-19T00:53:31","slug":"322-045-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/11\/18\/322-045-2024\/","title":{"rendered":"{#322.045.2024}"},"content":{"rendered":"\n<p>Segunda feira. Aquele dia em que todos os outros que n\u00e3o eu retomam a rotina do trabalho. Sair de casa cedo, enfrentar o tr\u00e2nsito em ve\u00edculo pr\u00f3prio ou transporte p\u00fablico. Entrar \u00e0 hora certa. Cumprir fun\u00e7\u00f5es. Cumprir hor\u00e1rio. Sair do trabalho \u00e0 hora de sempre ou, em tantos casos, mais tarde do que o hor\u00e1rio no contrato dita. Voltar a enfrentar o caminho, desta vez de regresso a casa. Eventualmente ir ao gin\u00e1sio ou ao supermercado. Tratar do jantar. Tratar dos mi\u00fados quando os h\u00e1. Olhar para a televis\u00e3o sem realmente assistir a alguma coisa. Preparar o dia de amanh\u00e3 em que tudo repete no mesmo hor\u00e1rio, no mesmo ritual, no mesmo ritmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho algumas saudades dessas rotinas di\u00e1rias. N\u00e3o tenho saudades de sair de casa ainda de noite para sair do trabalho j\u00e1 de noite. Mas tenho saudades de acompanhar o nascer do Sol no caminho para Lisboa. Atravessar a ponte. Ver o Sol \u00e0 direita na ida para l\u00e1 e ainda a acabar de nascer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho saudades do autocarro, nem do tr\u00e2nsito, nem do barulho da cidade logo cedo. Mas sinto falta do segundo pequeno almo\u00e7o do dia naquele caf\u00e9 que adoptei e onde sempre fui bem recebida, bem tratada e bem servida. Tenho saudades do caf\u00e9 cheio, intenso e sem a\u00e7\u00facar na esplanada a ver os pombos a entrar no estabelecimento e os funcion\u00e1rios a apressarem-se a tentar expuls\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho saudades do caminho que fazia enquanto fumava aquele que seria o \u00faltimo cigarro nas pr\u00f3ximas horas. Mas tenho saudades das montras das lojas onde nunca entrei nem perdi um segundo que fosse a ver o que as montras promovam.<\/p>\n\n\n\n<p>8h50. Passar o cart\u00e3o, abrir a porta e entrar naquele espa\u00e7o amplo e quase ass\u00e9ptico onde n\u00e3o \u00e9 permitido haver um m\u00ednimo sinal, fora do hor\u00e1rio entre as 8h30 e as 19h, de que quem ali trabalha s\u00e3o, de facto, pessoas. E, mesmo no hor\u00e1rio de trabalho, os sinais de que ali est\u00e3o quase 100 pessoas a p\u00f4r uma imensa m\u00e1quina a mexer t\u00eam que ser m\u00ednimos. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho saudades de me sentir apenas um n\u00famero ou pe\u00e7a de engrenagem numa m\u00e1quina que precisa dessas quase 100 pessoas para funcionar de forma c\u00e9lere, correcta e satisfat\u00f3ria. Tenho saudades de me rir com os colegas localizados mais perto, mesmo que esses momentos de riso sejam escassos, r\u00e1pidos porque h\u00e1 clientes para atender ao telefone.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho saudades de fazer atendimento telef\u00f3nico ao cliente, conhecer o processo em quest\u00e3o, responder \u00e0s quest\u00f5es que posso responder, resolver o que tenho autonomia para resolver, ser prest\u00e1vel, educada, correcta, am\u00e1vel. Dar o melhor de mim para um atendimento de qualidade. N\u00e3o tenho saudades das an\u00e1lises mensais de resultados em que, mesmo tendo excelentes resultados em 3 de 4 factores, h\u00e1 sempre um onde falho porque me \u00e9 exigida a quantidade quando eu dou prioridade \u00e0 qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o tenho saudades de ser um n\u00famero. Pressionada para ser uma m\u00e1quina de trabalho e n\u00e3o aquilo que sou: um ser humano. Mas sim!, tenho saudades de rotinas certas e hor\u00e1rios que sejam mais do que apenas ir \u00e0 fisioterapia durante 15 dias \u00fateis para depois ficar novamente sabe-se l\u00e1 quanto tempo novamente \u00e0 espera de vaga para retomar os tratamentos. Cumprir 1 hora e meia, se tanto, de exerc\u00edcios que t\u00eam como objectivo recuperar um pouquinho do tanto que j\u00e1 perdi.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho saudades de me sentir \u00fatil. De ser aquela mi\u00fada do atendimento telef\u00f3nico ao cliente prest\u00e1vel, educada, correcta, am\u00e1vel e que nas auditorias de qualidade n\u00e3o raras vezes passava dos 90%. At\u00e9 mesmo dos 95%.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda feira. Aquele dia em que todos os outros que n\u00e3o eu retomam a rotina do trabalho. Eu? Para j\u00e1 mantenho a rotina de sair de casa com o Sol j\u00e1 nascido, apanhar o autocarro que, por vezes, como hoje, falha e n\u00e3o aparece, sair no centro de Almada com tempo mais do que suficiente para beber caf\u00e9 com calma na esplanada que, mesmo no Ver\u00e3o, me gela o corpo mas cujas colheres de caf\u00e9 s\u00e3o muito giras. Terminado o caf\u00e9, inicia-se a fisioterapia. Terminada a fisioterapia, fazer o caminho de volta a casa. Se o autocarro aparecer. N\u00e3o sei o que se passou hoje com o autocarro, mas para l\u00e1 falhou um, para c\u00e1 falharam dois. <\/p>\n\n\n\n<p>E do que eu n\u00e3o tenho mesmo saudades, porque acontece todos os dias, \u00e9 ficar a ver o tempo passar. A sentir-me in\u00fatil. Continuo educada, prest\u00e1vel dentro do que me \u00e9 poss\u00edvel fazer, am\u00e1vel com quem me recebe bem. <\/p>\n\n\n\n<p>Do que eu tamb\u00e9m n\u00e3o tenho saudades, e cada vez tenho menos!, \u00e9 de ter \u00e0 minha volta blocos de tijolo e cimento, vulgarmente conhecidos como pr\u00e9dios. Fazem-me sentir ainda mais enclausurada e quase sem conseguir respirar. S\u00e3o blocos de pr\u00e9dios com gente dentro, com vida a acontecer no interior, mas que s\u00f3 nos mostram as paredes exteriores todas mais ou menos parecidas, com uma ou outra excep\u00e7\u00e3o, j\u00e1 elas onde n\u00e3o se v\u00ea ningu\u00e9m, como se fosse tudo um amontoado de caixotes de tijolo e cimento. <\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu sei que tenho um parque maravilhoso praticamente \u00e0 porta de casa e que depois do parque est\u00e1 a praia. Tanto um como o outro me fazem bem, permitem-me respirar, sentir-me um bocadinho mais viva. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 disso que estou a precisar. E n\u00e3o \u00e9 de hoje que penso nisto, que sinto isto. Come\u00e7ou antes do Ver\u00e3o a vontade, praticamente a ro\u00e7ar a necessidade!, de ter, ao meu redor, n\u00e3o blocos de tijolo e cimento, mas sim o verde de \u00e1rvores e as imensas cores da natureza no seu estado n\u00e3o agredido, n\u00e3o derrubado onde, em troca, se encontram os tais blocos de tijolo e cimento. <\/p>\n\n\n\n<p>Preciso, muito!, de campo. \u00c1rvores. Flores. Bichos. Grandes, pequenos, o que for. Preciso de algum s\u00edtio onde ningu\u00e9m me conhe\u00e7a, onde ningu\u00e9m me fa\u00e7a perguntas e simplesmente me deixe estar, me deixe ser, me deixe sentir o pulsar na natureza, onde me permitam tocar em \u00e1rvores, senti-las, e porque n\u00e3o abra\u00e7\u00e1-las?, onde possa respirar fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed podia criar uma nova rotina qualquer. Porque a rotina faz(-me) falta. Mas n\u00e3o aquela rotina de segunda a sexta, de passar o dia a correr de um lado para o outro para um dia perceber que essa \u00e9 a rotina de quem apenas sobrevive, tamb\u00e9m por n\u00e3o ter tempo para muito mais, e n\u00e3o de quem realmente vive! E eu quero viver, n\u00e3o apenas sobreviver. E n\u00e3o quero ser apenas um n\u00famero ou uma pe\u00e7a de uma qualquer engrenagem onde me \u00e9 exigido o que n\u00e3o consigo dar, mas onde dou aquilo que deveria ser realmente importante e com muito bons resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Segunda feira. Dia de regresso \u00e0 rotina. E eu? Tamb\u00e9m tenho uma rotina, embora n\u00e3o seja a melhor op\u00e7\u00e3o para uma rotina minimamente saud\u00e1vel: todos os dias, sem excep\u00e7\u00e3o, ver o tempo passar&#8230;apenas e s\u00f3, ver o tempo passar.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"732\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/img_8632-1-1024x732.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13934\"\/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda feira. Aquele dia em que todos os outros que n\u00e3o eu retomam a rotina do trabalho. Sair de casa cedo, enfrentar o tr\u00e2nsito em ve\u00edculo pr\u00f3prio ou transporte p\u00fablico. Entrar \u00e0 hora certa. Cumprir fun\u00e7\u00f5es. Cumprir hor\u00e1rio. 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