{"id":14004,"date":"2024-12-05T23:59:00","date_gmt":"2024-12-05T23:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/12\/05\/339-028-2024\/"},"modified":"2024-12-06T01:35:31","modified_gmt":"2024-12-06T01:35:31","slug":"339-028-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2024\/12\/05\/339-028-2024\/","title":{"rendered":"{#339.028.2024}"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, gosto muito de <strong>abra\u00e7os<\/strong>. Aprendi <strong>o<\/strong> <strong>poder<\/strong> <strong>de um abra\u00e7o<\/strong> com o terapeuta fofinho logo na primeira consulta com ele, nos idos de 2016, quando, no final da consulta, ele me perguntou: &#8220;<strong>posso dar-te um abra\u00e7o?<\/strong>&#8221; Eu n\u00e3o estava, de todo, habituada a uma pergunta destas. Ou seria um pedido? Nunca soube, nunca saberei. O que sei \u00e9 que, logo desde essa primeira consulta, o <strong>abra\u00e7o<\/strong> tornou-se <em>obrigat\u00f3rio<\/em> para finalizar as consultas. <em>Obrigat\u00f3rio<\/em> porque eu comecei a habituar-me a esse <strong>aconchego<\/strong> depois de uma sess\u00e3o de exposi\u00e7\u00e3o de fragilidade, depois de deixar sair tudo o que tanto me do\u00eda. Esse <strong>abra\u00e7o<\/strong> no fim da consulta, apertado e sinceramente sentido, ensinou-me a <strong>for\u00e7a do aconchego<\/strong> que um <strong>abra\u00e7o<\/strong> pode e sabe ser. E ensinou-me tamb\u00e9m que os abra\u00e7os ajudam a <em>voltar<\/em> a respirar. Acalmam. Tranquilizam. Fortalecem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi com o terapeuta fofinho que aprendi <strong>o<\/strong> <strong>poder de um abra\u00e7o<\/strong>. E foi a partir da\u00ed que dei por mim a facilmente <strong>abra\u00e7ar<\/strong> outras pessoas nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es, das melhores \u00e0s piores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 n\u00e3o estou fisicamente com o terapeuta fofinho h\u00e1 mais de <strong>2 anos<\/strong>. J\u00e1 h\u00e1 muito tempo, ainda pr\u00e9-pandemia, ele n\u00e3o estava em Lisboa e as nossas consultas aconteciam <strong>todas<\/strong> <strong>as semanas<\/strong> via Skype, onde \u00e9 imposs\u00edvel <strong>abra\u00e7ar<\/strong> quem est\u00e1 do outro lado. Mas, sempre que ele desce \u00e0 capital e consegue encaixar-me na agenda social das visitas a fam\u00edlia e amigos, j\u00e1 sei que pomos os <strong>abra\u00e7os<\/strong> <strong>em dia<\/strong>. <strong>\u00c0 chegada e \u00e0 partida<\/strong>, como passou tamb\u00e9m a acontecer nas consultas ainda presenciais: <strong>um abra\u00e7o \u00e0 chegada<\/strong> antes de iniciar a sess\u00e3o para relaxar e mudar o chip, um <strong>abra\u00e7o no final<\/strong> para aquele <strong>aconchego<\/strong> antes da partida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi assim que aprendi a <strong>gostar tanto de abra\u00e7os<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas hoje aconteceu ficar a conhecer <strong>outro<\/strong> <strong>abra\u00e7o<\/strong> sobre o qual j\u00e1 tinha lido v\u00e1rias vezes e que, apesar de me despertar alguma curiosidade um bocadinho m\u00f3rbida, sempre soube, pelos relatos e descri\u00e7\u00f5es que fui lendo, que seria um <strong>abra\u00e7o demasiado<\/strong> <strong>desagrad\u00e1vel<\/strong>, muita vezes <strong>doloroso<\/strong> e sempre <strong>aflitivo<\/strong>&#8230;o chamado <strong>Abra\u00e7o da<\/strong> <strong>Esclerose M\u00faltipla<\/strong>, essa <em>coisa<\/em> que me apanhou na curva e para a qual continuo a <strong>n\u00e3o<\/strong> estar preparada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estava t\u00e3o tranquila. Relaxada. A fazer contas ao tempo para sair de casa para ir ao Yoga. Estava quase na hora de lanchar e eu tinha acabado de almo\u00e7ar h\u00e1 relativamente pouco tempo, depois de ter acordado t\u00e3o tarde&#8230; Estava no sof\u00e1, a conversar com a minha m\u00e3e. E, de repente, sem pr\u00e9-aviso, tinha <strong>o peso do Mundo inteiro<\/strong> nos meus ombros. Que, devagar, se come\u00e7ou a espalhar, cobrindo por completo os ombros e as omoplatas. O pesco\u00e7o n\u00e3o tinha qualquer peso. Nem for\u00e7a. Parecia at\u00e9 que estava <strong>completamente solto<\/strong> do resto do corpo, talvez apenas preso por uma <strong>fr\u00e1gil<\/strong> <strong>linha<\/strong> que amea\u00e7ava romper a qualquer momento. A verdade \u00e9 que, enquanto sentia <strong>o peso do Mundo inteiro<\/strong> nos meus ombros, o pesco\u00e7o n\u00e3o tinha sequer <strong>qualquer for\u00e7a<\/strong> para segurar a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Respirar<\/strong>. Era preciso <strong>respirar fundo<\/strong>. Com calma e de forma consciente. At\u00e9 que percebi que<strong>, aquele peso todo<\/strong> que sentia nos ombros e se espalhou \u00e0s omoplatas, de repente deixou de ser <strong>apenas o peso do Mundo inteiro<\/strong> para se transformar tamb\u00e9m num bloco de cimento. <strong>Duro<\/strong>. <strong>Muito duro<\/strong>. Ao ponto de me <strong>dificultar<\/strong> a respira\u00e7\u00e3o profunda e calma que eu <strong>tentava<\/strong> que me ajudasse a relaxar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A respira\u00e7\u00e3o passou a ser muito <strong>superficial<\/strong> e <strong>sem ritmo definido<\/strong>. Ao mesmo tempo que tentava voltar a respirar fundo e com ritmo definido, percebi que o tal <strong>bloco de cimento<\/strong> que cobria e prendia os meus ombros e as minhas omoplatas <strong>se tinha espalhado<\/strong> at\u00e9 aos bra\u00e7os. Dos cotovelos at\u00e9 aos ombros. <strong>O peso<\/strong>. <strong>A rigidez<\/strong> do bloco de cimento que, de repente, ganhou <strong>propor\u00e7\u00f5es de granito<\/strong>. Mover os bra\u00e7os era extremamente dif\u00edcil&#8230;quase imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cabe\u00e7a <strong>solta<\/strong>, presa ao pesco\u00e7o por uma <strong>fr\u00e1gil linha<\/strong>, a respira\u00e7\u00e3o <strong>superficial<\/strong> mas um pouco <strong>acelerada<\/strong> ainda que <strong>sem ritmo definido<\/strong>, aquele <strong>bloco<\/strong> em que o meu torso se tornou e que, afinal, <strong>n\u00e3o era de cimento<\/strong> mas <strong>sim de granito<\/strong>. Os <strong>bra\u00e7os im\u00f3veis<\/strong> entre os ombros e os cotovelos. Tudo isto durou <strong>longos<\/strong> <strong>minutos<\/strong>. At\u00e9 que comecei a perceber-me <strong>presa<\/strong> por correntes que cada vez me <strong>apertavam mais e mais<\/strong> \u00e0 volta dos bra\u00e7os. <strong>Como num abra\u00e7o<\/strong>. Onde, em vez de ser <strong>aconchegada<\/strong> por <strong>dois bra\u00e7os quentes e tranquilizantes<\/strong>, era simplesmente <strong>apertada, cada vez mais apertada!<\/strong>, por correntes, ou por um qualquer cinto, que me <strong>prendiam<\/strong> <strong>desde os ombros at\u00e9 aos cotovelos<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o houve dores. Apenas <strong>a<\/strong> <strong>press\u00e3o do peso do Mundo inteiro <\/strong>em cima de mim, <strong>a press\u00e3o da rigidez do granito<\/strong>, <strong>a for\u00e7a extrema das correntes que me apertavam<\/strong> dos ombros aos cotovelos. Tudo isto <strong>como num abra\u00e7o<\/strong>. Mas <strong>o abra\u00e7o mais desconfort\u00e1vel<\/strong>, mais aflitivo, <strong>quase agoniante<\/strong> que senti at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei <strong>quanto tempo<\/strong> durou. S\u00f3 sei <strong>a<\/strong> <strong>intensidade<\/strong> que teve. E a <strong>certeza<\/strong> de que este <strong>n\u00e3o era<\/strong>, nem \u00e9!, <strong>o abra\u00e7o de que preciso<\/strong>. Mas, sei agora, este <strong>\u00e9<\/strong>, de facto, o <strong>famoso<\/strong> <strong>Abra\u00e7o da Esclerose M\u00faltipla<\/strong>. A minha curiosidade m\u00f3rbida ficou, finalmente, a saber como \u00e9. <strong>Pavoroso<\/strong>. <strong>Horr\u00edvel<\/strong>. <strong>Aflitivo<\/strong>. Desconfort\u00e1vel. <strong>Agoniante<\/strong>. Gostava de poder dizer que <strong>n\u00e3o quero repetir<\/strong>. Mas j\u00e1 sei que estou sujeita a que se repita <strong>a qualquer momento<\/strong>, sem sequer haver pr\u00e9-aviso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o que eu queria mesmo era <strong>um abra\u00e7o do terapeuta fofinho<\/strong>&#8230;n\u00e3o este que tive hoje e que vem acompanhado de um grande <strong>sofrimento<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o!<\/strong>, o que eu queria mesmo era <strong>aquele abra\u00e7o quentinho e protector, aconchegante e tranquilizador<\/strong>. N\u00e3o s\u00f3 o abra\u00e7o do terapeuta fofinho. Mas, acima de tudo, o abra\u00e7o <strong>dele<\/strong>. N\u00e3o este&#8230;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/dc566ad9-2df8-468b-8e22-3b85f362ec4e-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14003\"\/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, gosto muito de abra\u00e7os. Aprendi o poder de um abra\u00e7o com o terapeuta fofinho logo na primeira consulta com ele, nos idos de 2016, quando, no final da consulta, ele me perguntou: &#8220;posso dar-te um abra\u00e7o?&#8221; Eu n\u00e3o estava, de todo, habituada a uma pergunta destas. Ou seria um pedido? Nunca soube, nunca saberei. 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