{"id":14183,"date":"2025-01-21T23:59:00","date_gmt":"2025-01-21T23:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2025\/01\/21\/021-345-2025\/"},"modified":"2025-01-22T00:39:46","modified_gmt":"2025-01-22T00:39:46","slug":"021-345-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2025\/01\/21\/021-345-2025\/","title":{"rendered":"{#021.345.2025}"},"content":{"rendered":"\n<p>Ontem, ao final do dia, o meu chip mudou. Deu uma volta de 180 graus. Durante toda a manh\u00e3, hora de almo\u00e7o e princ\u00edpio da tarde sempre muito bem disposta. Ao ponto da enfermeira, que me reconheceu de outras andan\u00e7as no servi\u00e7o de enfermagem do Centro de Sa\u00fade de que eu n\u00e3o me recordo, ao me receber dizer de imediato: &#8220;l\u00e1 vem ela, bem disposta e animada como sempre. Ali\u00e1s, nunca a vi noutro registo!&#8221;. Pelos vistos, eu posso n\u00e3o me lembrar de muitos epis\u00f3dios na enfermagem do Centro de Sa\u00fade, mas h\u00e1 quem se lembre de mim. E, felizmente, por bons motivos. Mas a verdade \u00e9 que, ao chegar a casa, ou ainda antes na esplanada do costume que eu n\u00e3o me lembro se fui l\u00e1 ou n\u00e3o no regresso a casa, algo mudou em mim por um qualquer motivo que eu pr\u00f3pria desconhe\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela mi\u00fada que esteve sempre bem disposta, no registo habitual de sorrisos f\u00e1ceis, de brincar at\u00e9 com (as minhas) coisas s\u00e9rias, essa mi\u00fada perdeu-se pelo caminho e o chip deu uma volta de 180 graus. Negativos. A noite n\u00e3o foi f\u00e1cil. Aquela vozes que ecoam na minha cabe\u00e7a com ideias parvas encontraram um alojamento confort\u00e1vel para permanecerem sem serem convidadas e por tempo indeterminado. E sussurravam-me ao ouvido sobre comportamentos auto-lesivos e como era t\u00e3o f\u00e1cil de os concretizar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A luta contra as vozes foi dura, como \u00e9 sempre. Mas o meu cansa\u00e7o, o meu corpo, a necessidade de descanso e o meu sono acabaram por vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje de manh\u00e3 n\u00e3o demorei muito tempo at\u00e9 perceber que a luta se mantinha. N\u00e3o s\u00f3 a luta das vozes e eu, mas especialmente a luta de mim contra mim pr\u00f3pria. Sem \u00e2nimo para aquele sorriso f\u00e1cil, mesmo que esteja escondido pela m\u00e1scara, sem \u00e2nimo para estar na fisioterapia, sem \u00e2nimo sequer para estar na esplanada a saborear um caf\u00e9 sossegada e sem pressa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me lembro do caminho de regresso a casa. Sei que cheguei cansada, com sono, com frio, com fome. Mudei de roupa, almocei e logo de seguida vim para o cadeir\u00e3o beber o meu caf\u00e9 tendo projectado de seguida enroscar no sof\u00e1 e deixar-me levar pelo cansa\u00e7o e pelo sono. Mas n\u00e3o aconteceu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A tarde foi passada no cadeir\u00e3o entre mensagens com <em>ele<\/em> e buscas que me confirmassem o pouco que j\u00e1 sei sobre os comportamentos auto-lesivos. E a sentir, sobre mim, um peso enorme, absurdo, que se instalou em mim ontem sabe-se l\u00e1 porqu\u00ea, sabe-se l\u00e1 como. Uma vontade enorme de chorar e, mais uma vez, n\u00e3o conseguir faz\u00ea-lo. At\u00e9 que <em>lhe<\/em> disse que o que estava a precisar naquele momento era de um colo. Presencial. Que eu pudesse tocar. Cheirar. Sentir os dedos a passarem no meu cabelo. E esse colo, <strong>presencial<\/strong>, n\u00e3o o iria ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pouco depois que entrou a mensagem. &#8220;Posso ligar-te? \u00c9 r\u00e1pido. \u00c9 s\u00f3 para te dizer uma coisa.&#8221; Claro que sim, podes ligar-me sempre que quiseres. E o telem\u00f3vel tocou. E, do outro lado da linha, aquela voz. Que me faz sempre sorrir. Que me faz sempre t\u00e3o bem. Que me traz para perto de mim quem est\u00e1 geograficamente longe. E <em>ele<\/em>, que n\u00e3o gosta de falar ao telefone, que diz que n\u00e3o diz nada de jeito, falou. Conversou. Convers\u00e1mos. De viva voz. Tal como eu precisava h\u00e1 tanto tempo. E se, no in\u00edcio da chamada, eu mal conseguia falar por falta de \u00e2nimo, por ainda sentir aquele peso horroroso em cima de mim, aos poucos comecei a sentir-me mais leve, mais serena, mais tranquila. Mais segura. Completamente acolhida e aconchegada. Porque t\u00ea-<em>lo<\/em> no outro lado da linha do telefone foi como t\u00ea-<em>lo<\/em> sentado ao meu lado, dedos da m\u00e3o enrolados e m\u00e3o pousada no meu joelho&#8230; E eu, claro, encostada a <em>ele<\/em>, cabe\u00e7a apoiada no ombro <em>dele<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E, novamente!, o chip mudou. O \u00e2nimo regressou. A corujinha voltou a voar. E eu voltei a ser eu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Era s\u00f3 para <em>ele<\/em> me dizer uma coisa. Que ia ser r\u00e1pido. Mas foram <strong>50 minutos<\/strong> com quem n\u00e3o gosta de falar ao telefone porque, supostamente, n\u00e3o tem nada de jeito para dizer. Mas para mim, estando ao telefone com <em>ele<\/em>, n\u00e3o importa o tema da conversa. Porque, na verdade, falamos de tudo. Sempre. E s\u00f3 foram 50 minutos porque o servi\u00e7o <em>dele<\/em> acabou por ditar o final deste aconchego que eu n\u00e3o esperava mas que fez tanto por mim! Que me fez voltar a ser eu! <\/p>\n\n\n\n<p>O chip voltou a mudar. Agora de forma positiva. Felizmente. E <em>ele<\/em> n\u00e3o sabe, de certeza, a diferen\u00e7a que aquele telefonema fez. <\/p>\n\n\n\n<p>Costumava dizer-<em>lhe<\/em> que era o melhor que me aconteceu. E h\u00e1 pouco tempo percebi que essa conjuga\u00e7\u00e3o do verbo remetia para o passado. Como se tivesse ficado l\u00e1 para tr\u00e1s. Quando, na verdade, <strong>todos os dias<\/strong> est\u00e1 presente. Corrigi a frase. E, agora, todos os dias lhe digo que \u00e9 o melhor <strong>que me acontece todos os dias<\/strong>. Porque \u00e9. <\/p>\n\n\n\n<p>E, \u00e0s vezes, para mudar o chip para um polo positivo \u00e9 t\u00e3o simples quanto 50 minutos ao telefone. Como hoje.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/img_0412-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14182\"\/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, ao final do dia, o meu chip mudou. Deu uma volta de 180 graus. Durante toda a manh\u00e3, hora de almo\u00e7o e princ\u00edpio da tarde sempre muito bem disposta. 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