{"id":1430,"date":"2015-07-04T01:26:16","date_gmt":"2015-07-04T00:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=1430"},"modified":"2015-07-04T01:27:10","modified_gmt":"2015-07-04T00:27:10","slug":"desassossego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2015\/07\/04\/desassossego\/","title":{"rendered":"{desassossego}"},"content":{"rendered":"<pre><b>de\u00b7sas\u00b7sos\u00b7se\u00b7go<\/b> |\u00ea|\r\n <i>substantivo masculino<\/i>\r\n 1. <span class=\"def\"><span class=\"word_wrap\"><span class=\"word\">Inquieta\u00e7\u00e3o<\/span>.<\/span><\/span>\r\n 2. <span class=\"def\"><span class=\"word_wrap\"><span class=\"word\">Perturba\u00e7\u00e3o<\/span> <span class=\"word\">de<\/span> <span class=\"word\">\u00e2nimo<\/span>.<\/span><\/span>\r\n\r\n <em><strong>\"desassossego\"<\/strong>, in Dicion\u00e1rio Priberam da L\u00edngua Portuguesa [em linha], 2008-2013, <a href=\"http:\/\/www.priberam.pt\/DLPO\/desassossego\">http:\/\/www.priberam.pt\/DLPO\/desassossego<\/a><\/em><\/pre>\n<p>\u00c9 aquela inquieta\u00e7\u00e3o que tem vindo a subir de dia para dia, quando tudo o que queria era manter aquela Paz que fui conquistando. \u00c9 aquela perturba\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo que se tem vindo a sentir de dia para dia, quando tudo o que queria era manter-me positiva e tranquila ao fim de tantas tempestades.<\/p>\n<p>Inquieta\u00e7\u00e3o que me corr\u00f3i por dentro, que me amassa, que me faz voltar a n\u00e3o querer dormir. Porque, mesmo n\u00e3o querendo, acordou os fantasmas que vivem no interior da minha cabe\u00e7a. E com os fantasmas v\u00eam os dem\u00f3nios. Que me sussurram planos de v\u00f4o, que me dizem para os ouvir, que me incitam a criar asas. Que me fazem tremer novamente, porque sei que continuo a dar-lhes ouvidos mesmo que j\u00e1 saiba que daquelas vozes, que por vezes parecem doces, nada de bom vem.<\/p>\n<p>Voa!, dizem-me. Mas eu n\u00e3o quero. N\u00e3o o v\u00f4o destes dem\u00f3nios que me visitam quando a inquieta\u00e7\u00e3o os acorda. Os fantasmas, esses, n\u00e3o me assustam. Apenas est\u00e3o l\u00e1 para me lembrar do que passou, do que foi, do que afinal n\u00e3o foi, do que podia ter sido mas afinal n\u00e3o. Esses, os fantasmas, n\u00e3o me sussurram, n\u00e3o me cantam, n\u00e3o me encantam. Mas os dem\u00f3nios&#8230;esses riem-se, divertidos. E dizem-me que voar \u00e9 bom. E quanto mais alto melhor, dizem-me eles. Oi\u00e7o-os tantas vezes, demasiadas vezes, a rirem ao meu ouvido, divertidos, e a garantirem-me que voar \u00e9 bom. \u00c9 libertador, dizem eles. Mas eu n\u00e3o quero. N\u00e3o os quero ouvir. Mas oi\u00e7o. E mesmo que n\u00e3o lhes fa\u00e7a a vontade, mesmo que n\u00e3o lhes obede\u00e7a, sinto-os muitas vezes a empurrarem-me. A puxarem-me do lado de fora do abismo. Para junto deles. E continuam a rir e a cantar.<\/p>\n<p>Os dem\u00f3nios, mesmo quando estou junto ao ch\u00e3o, dizem-me para voar. Porque h\u00e1 tantas formas de voar. Mas eu n\u00e3o quero. Quero voltar a sentir-me de p\u00e9s no ch\u00e3o, ainda que a cabe\u00e7a seja um bocadinho de vento por vezes. \u00c9 no ch\u00e3o que quero sentir cada um dos meus passos, cada um dos meus movimentos. N\u00e3o quero conhecer a vertigem do v\u00f4o que os meus dem\u00f3nios me garantem ser t\u00e3o boa. N\u00e3o quero. Mas n\u00e3o consigo silenci\u00e1-los. N\u00e3o agora. J\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n<p>E cresce a inquieta\u00e7\u00e3o. E com ela regressam os di\u00e1logos na minha cabe\u00e7a. Que n\u00e3o passam de mon\u00f3logos, \u00e9 certo. Porque nunca chegaram, nunca ir\u00e3o chegar, aos destinos. Os di\u00e1logos onde te digo, tantas vezes, que a culpa n\u00e3o \u00e9 apenas minha, \u00e9 tamb\u00e9m tua. \u00c9 dos dois. Ou quando te digo, a ti, que acreditei demais, confiei demais, aceitei demais. E que, se calhar, sonhei demais.<\/p>\n<p>Os di\u00e1logos, que nunca ir\u00e3o chegar aos destinos, aconchegam os meus fantasmas, alimentam os meus dem\u00f3nios. E o desassossego que trago, novamente, c\u00e1 dentro, perturba o \u00e2nimo, tolda-me o pensamento, deixa-me com d\u00favidas quanto ao pr\u00f3ximo passo. Se em frente, de p\u00e9s no ch\u00e3o, se para cima com a vertigem do v\u00f4o. N\u00e3o. N\u00e3o. N\u00e3o. N\u00e3o quero a vertigem. N\u00e3o quero o v\u00f4o. N\u00e3o quero estar, novamente, \u00e0 beira do abismo. Porque, desta vez, sei que \u00e9 t\u00e3o mais f\u00e1cil saltar. E eu nunca gostei do caminho f\u00e1cil. Mas oi\u00e7o os dem\u00f3nios a rir, contentes, felizes, e quase acredito neles. Quase confio neles. Quase quero dar-lhes ouvidos.<\/p>\n<p>Os fantasmas e os dem\u00f3nios regressam sempre que me falta a luz de presen\u00e7a. Que neste momento n\u00e3o sei onde est\u00e1. Onde encontr\u00e1-la. N\u00e3o encontro farol que me guie. Abre os olhos, dizem-me, e v\u00ea. Est\u00e1 mesmo a\u00ed. Mas o \u00fanico farol que vislumbro est\u00e1 apagado. Nunca teve a luz que julguei que tinha, que acreditei que lhe tinha visto. N\u00e3o passava, essa luz, de um reflexo do que eu mesma procurava. N\u00e3o era luz pr\u00f3pria, n\u00e3o era luz de presen\u00e7a. \u00c9, por isso mesmo, um farol em que n\u00e3o posso confiar, porque pela aus\u00eancia de luz pr\u00f3pria ora o vejo como um todo e o reconhe\u00e7o, ora fico na d\u00favida se sequer existe.<\/p>\n<p>Falta-me a luz. Mas n\u00e3o a quero procurar. Arrisco-me a confundir-me novamente. E em vez de uma luz de presen\u00e7a que julgo ver, posso encontrar as luzes de uma pista de aterragem de um v\u00f4o que n\u00e3o desejo mas que os meus dem\u00f3nios me garantem ser t\u00e3o bom.<\/p>\n<p>Tenho saudades de estar novamente em paz&#8230;&#8230;paz que deixei escapar n\u00e3o sei quando nem sei porqu\u00ea. Que trazia comigo e acreditava estar t\u00e3o s\u00f3lida, mas que afinal me era t\u00e3o fr\u00e1gil ainda. E o tempo passa e olho para tr\u00e1s, um ano, \u00e9 o suficiente, e recordo tudo. A ansiedade que me consumia, que me fez perder o Norte e me levou a procurar n\u00e3o sei bem o qu\u00ea e que encontrei n\u00e3o sei bem como. A d\u00favida que veio depois. A certeza. E tudo o resto que veio da\u00ed. E a dor. Acima de tudo a dor. N\u00e3o quero nada disto para mim novamente. Mas os meus fantasmas est\u00e3o c\u00e1 para me recordar de tudo. E os meus dem\u00f3nios a insistirem comigo para voar. Acaba-se o desassossego, dizem-me eles. E eu quase acredito. E quase confio. E quase quero voar. Quase. Quase. Quase. N\u00e3o quero! N\u00e3o. N\u00e3o quero. N\u00e3o quero este v\u00f4o. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o quero reviver datas. N\u00e3o quero revisitar mem\u00f3rias. N\u00e3o quero nada disto. N\u00e3o quero chorar novamente, mesmo que os olhos se inundem ao mesmo tempo que escrevo o que n\u00e3o quero. N\u00e3o quero sentir tudo de novo, mesmo que agora seja unicamente a mem\u00f3ria a fazer-se sentir. N\u00e3o quero reviver os dias de Julho. E os meus dem\u00f3nios insistem, voa! Voa e n\u00e3o sentir\u00e1s nada nunca mais. N\u00e3o quero voar! Mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero o Ver\u00e3o. N\u00e3o quero os dias 18, 20, 22, 25, 28, 31. N\u00e3o quero nada disto. Sei as datas de cor, sem olhar para c\u00e1bulas, recordo-as todas. Mas n\u00e3o quero voar.<\/p>\n<p>Quero, novamente, a paz que j\u00e1 encontrei e que sei que existe. Falta-me a luz de presen\u00e7a. Falta-me a \u00e2ncora para me manter no lugar, falta-me a m\u00e3o para me manter \u00e0 tona, falta-me a b\u00fassola para me mostrar o Norte. N\u00e3o, o caminho n\u00e3o \u00e9 voar. \u00c9 manter os p\u00e9s no ch\u00e3o enquanto dou um passo de cada vez. Mas, para isso, preciso de n\u00e3o me afundar novamente&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;e, s\u00f3 por isso, por estar prestes a descarrilar, digo baixinho para mim mesma: preciso de ajuda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>de\u00b7sas\u00b7sos\u00b7se\u00b7go |\u00ea| substantivo masculino 1. Inquieta\u00e7\u00e3o. 2. 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