{"id":1772,"date":"2015-09-22T03:40:06","date_gmt":"2015-09-22T02:40:06","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=1772"},"modified":"2015-09-22T03:41:51","modified_gmt":"2015-09-22T02:41:51","slug":"dos-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2015\/09\/22\/dos-sonhos\/","title":{"rendered":"{dos sonhos}"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Os sonhos trazem-nos mensagens, dizem. D\u00e3o-nos respostas. Ou apenas pistas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Esta noite sonhei contigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de alguma vez ter sonhado contigo. N\u00e3o significa que nunca tenha acontecido, simplesmente n\u00e3o me lembro. Como n\u00e3o me lembro da maior parte dos meus sonhos. Mas esta noite sonhei contigo. E lembro-me. Bem demais. Ao ponto de revisitar esse sonho durante todo o dia, como se fosse um video em loop na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Lembro-me de cada pormenor. De onde est\u00e1vamos. Do que aconteceu. De como aconteceu. Do que veio pelo meio. De como terminou entretanto. Lembro-me de tudo.<\/p>\n<p>&#8230;e, talvez por causa do sonho, lembrei-me todo o dia que n\u00e3o me lembro de te ver sorrir. Ou melhor, de te ver sorrir muitas vezes. Lembro-me de pequenos sorrisos, aqui e ali. Mas n\u00e3o me lembro do teu sorriso. Acredito que ter\u00e1s um sorriso como todos os sorrisos: bonito.<\/p>\n<p>No meu sonho sorriste. Acabaste por sorrir, no fim de tanta confus\u00e3o, de visitas inesperadas que n\u00e3o vieram por bem, que nos encontraram desprotegidos de todo o mal que existia l\u00e1 fora, fora daquela casa que n\u00e3o reconhe\u00e7o, que n\u00e3o era minha nem era tua, mas era tua na mesma. Acabaste por sorrir, no fim de lutas pelo espa\u00e7o que era nosso mesmo n\u00e3o sendo, naquele Tempo que era apenas dos dois.<\/p>\n<p>&#8230;e, agora que penso nisso, n\u00e3o me lembro do som da tua gargalhada&#8230;<\/p>\n<p>No meu sonho n\u00e3o riste. N\u00e3o houve motivos para rir. Muito pelo contr\u00e1rio. N\u00e3o sendo um pesadelo, n\u00e3o foi um sonho tranquilo. N\u00e3o sei como lhe chamar, mas n\u00e3o lhe chamo pesadelo. Porque de in\u00edcio era o que era, \u00e9ramos os dois a ser o que sempre fomos. At\u00e9 que aquelas personagens, aqueles quase desconhecidos, nos abordaram numa casa que n\u00e3o era a tua, mas era tua na mesma.<\/p>\n<p>Lembro-me de sentir. Nos sonhos tamb\u00e9m sentimos. Senti-me bem, como me sinto sempre contigo, para de seguida sentir medo. Terror. N\u00e3o sei quem eram. Sabia no sonho. Sabia quem eram n\u00e3o sabendo. Sabia para o que estavam ali. Fugiam. Fugiam para se esconder, n\u00e3o para sobreviver. Fugiam de algo de mal que tinham feito fora daquelas paredes, para l\u00e1 daquelas portas e janelas que abriram e passaram. Fugiam para se esconder ali. Amea\u00e7ando-nos quando nos encontraram. Ali, desprotegidos. S\u00f3 os dois. Porque era s\u00f3 dos dois aquele espa\u00e7o, aquele Tempo.<\/p>\n<p>Lembro-me que me protegeste. Que me prometeste que tudo iria acabar bem. Porque sabias quem eram, conhecia-los de inf\u00e2ncia ou juventude, j\u00e1 n\u00e3o sei. Sabias como convenc\u00ea-los a irem embora. Prometeste-me que n\u00e3o nos iriam fazer nada. Se fic\u00e1ssemos em sil\u00eancio, esquecer-nos-iam e depressa partiriam dali. &#8220;V\u00e3o ficar s\u00f3 mais uns minutos&#8221; disseste-me. Quis encar\u00e1-los. Dizer-lhes que n\u00e3o tinham que estar ali. Que se fossem embora. E foi nessa altura que me disseste para n\u00e3o o fazer. Olhaste para mim e vi nos teus olhos que a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o querias que lhes falasse nada mais era do que medo. Do que me pudessem fazer. Porque, sabias, era perigoso enfrent\u00e1-los. E vi, a\u00ed, nesse momento, que eu era para ti mais do que aquilo que sempre pensei que fosse.<\/p>\n<p>Nos sonhos tamb\u00e9m sentimos. E tamb\u00e9m lemos os sil\u00eancios. E ouvimos os olhares. E senti. E li. E ouvi. Tudo o que at\u00e9 esse momento nunca me tinhas dito. Por algum motivo, era eu quem estava em perigo no meu sonho. Mas foste tu quem se desarmou. Por mim. Para mim. E a\u00ed, a\u00ed disseste-me aquilo que sempre quis que me dissesses. O sim em vez do n\u00e3o. N\u00e3o que tamb\u00e9m nunca disseste, nem talvez. Apenas nunca disseste. Mas ali, no meu sonho, disseste-me tudo o que estava guardado. O que, disseste-me tamb\u00e9m, n\u00e3o querias ter admitido para ti pr\u00f3prio antes. E que foi ali, naquele momento, naquele medo, naquele terror, que ganhaste coragem para admitir para ti. E, como isso, j\u00e1 depois do perigo ter passado, admitiste para mim.<\/p>\n<p>Lembro-me, ainda antes disso, de como me tocavas. De como mexias no meu cabelo. De como arrepiavas o meu bra\u00e7o. De como me olhavas. Como olhos que olham para al\u00e9m do que \u00e9 vis\u00edvel. Como olhos que despem a alma.<\/p>\n<p>Lembro-me, durante aqueles piores momentos, dos teus bra\u00e7os ao meu redor, como que a esconder-me. A proteger-me. Para que eles, aqueles que vieram, n\u00e3o me vissem, n\u00e3o me percebessem ali, n\u00e3o me fizessem seja o que for que sabias que fariam.<\/p>\n<p>Lembro-me, depois de tudo isso, depois de admitires para ti, depois de admitires para mim, lembro-me da tua testa colada \u00e0 minha e num sussurro dizeres-me que agora era o Tempo certo. Era agora, n\u00e3o antes. Nem depois.<\/p>\n<p>&#8230;e lembro-me que nem nesse momento\u00a0me lembro de ver\u00a0o teu sorriso. Sei que sorrias. Mas sei que era mais forte o medo. Porque era medo que os teus olhos gritavam. Era medo que os teus l\u00e1bios desenhavam. Medo por mim.<\/p>\n<p>Os sonhos, dizem, trazem-nos mensagens. D\u00e3o-nos respostas. Ou apenas pistas.<\/p>\n<p>Hoje, hoje n\u00e3o quero voltar a sonhar. Porque os sonhos, quando nos trazem mensagens, quando nos d\u00e3o respostas ou apenas pistas, os sonhos n\u00e3o nos mentem como quando n\u00e3o passam de fantasias. E este sonho, este sonho em que esta noite sonhei contigo, este sonho foi apenas uma fantasia. Uma esp\u00e9cie de realiza\u00e7\u00e3o de um desejo. De uma vontade. Que n\u00e3o passa, n\u00e3o passar\u00e1 nunca, nunca poder\u00e1 passar, de uma fantasia na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1773\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/12033214_10153327041678800_7381507729954198196_n-e1442889127222.jpg\" alt=\"12033214_10153327041678800_7381507729954198196_n\" width=\"450\" height=\"253\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sonhos trazem-nos mensagens, dizem. D\u00e3o-nos respostas. Ou apenas pistas.\u00a0 Esta noite sonhei contigo. N\u00e3o me lembro de alguma vez ter sonhado contigo. N\u00e3o significa que nunca tenha acontecido, simplesmente n\u00e3o me lembro. Como n\u00e3o me lembro da maior parte dos meus sonhos. Mas esta noite sonhei contigo. E lembro-me. Bem demais. 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